MARCOS SANTUÁRIO

 

Doutor em Comunicação pela PUC-RS, com a tese Estratégias regionais de Comunicação no Contexto Global. Possui mestrado em Comunicação Social também pela PUC-RS, com a dissertação Comunicação Globalizada Na America Latina.

Foto Edison Vara

A graduação em Jornalismo foi iniciada na Universidade de Caxias do Sul (UCS) e continuada na Universidad Católica de Montevideo Dámaso Antonio Larrañaga (Ucudal), no Uruguai, e concluida na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). Santuário é Editor Assistente de Cultura do Jornal Correio do Povo, de Porto Alegre e professor (Graduação – Jornalismo – e Pós Graduação – Mestrado em Indústria Criativa e Mestrado em Letras) da Universidade Feevale. Pesquisador do Grupo de Pesquisa Processos Midiáticos e Apropriação dos Meios de Comunicação (Qualidade da Informação Jornalística e Jornalismo Cultural) e do Grupo de Pesquisa Conteúdos Criativos (Cinema e Audiovisual).

Membro fundador da Rede Nacional de Observatórios de Imprensa (Renoi). Sautuário tem larga experiência na área de Comunicação, com ênfase em América Latina, atuando principalmente nos seguintes temas: comunicação global e comunicação local, cultura, mercado artístico contemporâneo; cinema, jornalismo, radiojornalismo e ensino e laboratórios de comunicação. É também um dos jornalistas gaúchos mais qualificados na sétima arte, atuando intensamente como crítico e jurado em festivais de cinema.  

. Qual é o perfil de profissional que as faculdades buscam formar hoje?

É temerário falar por todas as universidades. Posso sim tratar das que conheço mais diretamente. Sobre estas, posso afirmar que o perfil deste profissional do jornalismo é focado em conhecimentos técnicos, éticos e de olho no empreendedorismo.

. Como o universo das redes sociais está impactando no ensino de jornalismo?

Totalmente. Incluimos em sala de aula, em debates acadêmicos e em produções científicas as questões relacionadas ao universo das redes na internet. Atualmente, os jovens chegam à universidade já com conhecimento e acostumados a comunicar-se com o mundo por meio das redes sociais. Isto tem modificado a forma que estes jovens tem de consumir informação, além de constituir-se, em muitos casos, como espaço de produção de informação, ainda que sem os conhecimentos das técnicas de produção. Cabe à universidade focar nesta nova realidade e ajudar a refletir sobre o que acontece hoje a partir desta comunicação via redes, aprendendo com o passado e fazendo inferências sobre o futuro possível.

 . A proliferação das faculdades de comunicação ajuda ou prejudica?

Não se trata de quantidade, mas de qualidade. Fundamental criar novos espaços, inovadores e de reflexão continuada, e com relação intensa com a sociedade fora dos muros acadêmicos. Fundamental também que os órgãos competentes acompanhem este processo de criação e desenvolvimentos das universidades e dos cursos, fiscalizando para o bem das comunidades, a qualidade e a importância destes espaços educacionais.

. Uma critica antiga às universidades é a distância entre o mundo acadêmico e a realidade da atividade profissional na rua. Ainda existe este hiato entre teoria e prática?

Sem dúvida segue sendo uma barreira a vencer. Particularmente creio que aí existem diferentes graus de possibilidades de aproximação. Institucionalmente, os projetos acadêmicos ainda podem desenvolver mais espaços de interação e proximidade com os mercados e com as necessidades da sociedade em geral. Particularizando, no Jornalismo, cabe muito aos professores e gestores acadêmicos buscarem realizar de forma concreta esta proximidade. Saindo do comodismo seguro das teorias científicas que não dialogam com o aqui e o agora, mas sem deixar de avançar na reflexão responsável e criativa, que constrói novos espaços e encontra novos caminhos.

. O mercado da comunicação busca cada vez mais profissionais jovens em detrimento dos veteranos. Como isso repercute no ambiente acadêmico?

. A renovação do mercado de trabalho é algo já conhecido e acaba exigindo de todos os profissionais um ampliar de competencia, atualização e novas motivações. Não se pode culpar o mercado de procurar estas características nos profissionais formados que saem das universidades e que buscam seus espajõs no mercado de trabalho. O gestor inteligente sempre trata de mesclar a experiência com a renovação de motivações e disponibilidade de aprender e crescer profissionalmente. Dentro das universidades comprometidas, sérias e com importante rigor científico e de compromisso social, a preocupação é em auxiliar na formação destes novos profissionais não só no ponto de vista técnico, mas também ético e com sensibilização social, para ser agente de transformação e crescimento em seus ambientes profissionais.

. A realidade do mercado mostra que a obrigatoriedade do diploma, embora legalmente exista, é cada vez mais burlada. Como isso está repercutindo nas faculdades de jornalismo?

Em sala de aula e em encontros acadêmicos sempre gosto de enfatizar o fato de que o diploma universitario na área do Jornalismo, ainda que atualmente não exigido legalmente, sempre é um reconhecimento de tempo de prática e reflexão sobre o fazer jornalistico. Se constitui em diferencial que atesta competencias mais do que essenciais para o desenvolvimento das exigencias da profissão. Também percebo que os veículos de comunicação sérios na área não aceitam “franco atiradores da comunicação”, buscando sim profissionais comprovadamente formados e diplomados, aos quais podem exigir uma imediata inserção nas práticas jornalísticas e comunicacionais.

. As faculdades de comunicação estão aproveitando as facilidades que a web e as novas tecnologias oferecem para gerar conteúdo com as atividades dos alunos?

No que se refere às experiências que realizo na Universidade, e das que conheço de colegas que merecem todo meu respeito e admiração em outros espaços acadêmicos, tenho percebido cada vez mais a utilização destas tecnologias para gerar práticas educativas com conteúdos pertinentes e que gerem profissionais competentes e comprometidos com os resultados destas transformações. Isso em se tratando das diferentes plataformas. Das experiências com o impresso até as produções audiovisuais, criando e refletindo sobre estas criações, com o tempo de amadurecimento e de percepção possíveis no ambiente acadêmico.

. Como deve ser o perfil de um professor de jornalismo na realidade atual?

Com experiência profissional, aberto às diferentes possibilidades tecnológicas, com possibilidade de criar e manter diálogos com o mercado profissional, local, regional e global. Seguro em suas experiências e com a generosidade de aprender com os jovens acadêmicos que ingressam na universidade com conhecimentos e experiencias que podem enriquecer o ambiente científico e iluminar as necessárias transformações na sociedade contemporânea.

. MARCOS SANTUÁRIO POR ELE MESMO

(Texto para a Revista Press, quando Santuário conquistou o Prêmio Press de melhor Jornalista de Cultura do RS)

Ser agitadinho já quando criança, extrovertido quando pré-adolescente e comunicativo na fase seguinte podem ser indícios importantes de um Comunicador Social em desenvolvimento. Ou não! No final dos anos 60, do século passado, os movimentos de uma Caxias do Sul em crescimento serviram de contorno para a formação do meu olhar sobre os círculos mais próximos que foram forjando minha personalidade. Nascido no ano da revolução vi a luz naquele 1964, enquanto meu pai vivia intensamente os movimentos sindicais da época. “Seu Emílio”, como era chamado pelos amigos, comunicativo e trabalhador, viveu ao lado da “Dona Tereza”, mãe dedicada e dona de casa esforçada. Os dois viveram uma relação de 35 anos de casamento. Os problemas e a convivência nem sempre foram fáceis, mas foi só a morte que os separou definitivamente… Ou não! Minhas quatro irmãs e meu irmão participaram da construção do substrato familiar necessário de proteção, carinho e aceitação, claro que com todas aquelas situações de desentendimentos fraternos. Na escola sempre fui atento e estudioso. Nunca brilhante. Esforçado. De nota oito para nove e meio. Dez só nos esportes. Do futebol ao vôlei, passando pelo videogame e pelo jogo de tacos. Enquanto o Iotti ficava sentado vendo os colegas se movimentarem de um lado pro outro. Anos depois entendi aquele olhar observador e semente da criatividade atual do chargista consagrado. A socialização das brincadeiras de rua sempre povoaram meu dia a dia. Ainda bem. Me fizeram viver sempre em sociedade. Na entrada da faculdade, a escolha foi fácil: Comunicação Social. Pena que a UCS, naquele tempo, ainda não tinha o curso de Jornalismo. Fui estudar RRPP. Ainda bem. Virei colega do até hoje amigo Sérgio Stock, com quem compartilhei o estúdio da TV Record RS no ano passado, apresentando um bloco de atrações culturais, no telejornal que o Sérgio ancorou com talento e competência. Na faculdade fiz um ano de estudos básicos. Foi quando comecei a descobrir que o mundo era maior do que as fronteiras da cidade, e que o universo ia mais além da capital gaúcha. A partir de uma colega de aula, equatoriana casada com um caxiense, soube de um movimento cultural latino-americano que cantava e vivia o ideal de integração latino-americano, ressaltando os valores humanos. Gostei. Conheci o Elenco Latino-Americano Viva la Gente, sem vínculos políticos ou religiosos. O grupo viajava pelo continente, fazendo shows e convivendo com os cidadãos em cada país. Não tive dúvida, deixei o emprego promissor de Programador e Controlador de Produção na Marcopolo; vendi meu doginho amarelo e fui aceito com meu violão, minhas aulas de solfejo vividas no Ateliê de Música na Universidade, e meu desejo de conhecer um mundo novo. Decidi ficar um ano fora do país. Acabei ficando oito. Foram milhares de pessoas conhecidas, centenas de cidades percorridas, inúmeras experiências vividas. E uma aula de vida em espanhol. Momentos que ajudaram a construir uma visão continental em um mundo em processo de globalização. Também me aproximei ainda mais do jornalismo. Escrevi para jornais, fiz programas em rádio e encarei as câmaras de vários canais de televisão. Fui membro do conselho editorial da revista Vida & Gente, com distribuição continental e com o olhar atento da jornalista Jeanette Ibargoyen, generosa e talentosa, coordenando os trabalhos. Com a revista tive a experiência de ser detido na fronteira do Brasil com o Paraguai, levado para interrogatório em Assunção e liberado minutos antes de um show na capital do país então governado pelo general Alfredo Stroessner. Anualmente voltava ao Brasil, para não perder o vínculo com a nação, o território e a identidade constituída. As viagens pelo continente latino-americano me levaram para o Uruguai e, a convite da Universidade Católica Damaso António Larrañaga, terminei lá meus estudos de Jornalismo. Hoje, vários ex-colegas estão espalhados pelo mundo, da Europa à Índia, passando por alguns países latino-americanos. Ali tive grandes lições de jornalismo, com profissionais e professores vindos de várias partes do mundo, em uma época em que os corpos tinham que vir junto com as palavras, pois não tínhamos a vivência que se tem hoje de socializar conhecimentos através do universo virtual. Nunca esqueço da palestra, no final dos anos 80, que lotou o auditório do jornal uruguaio El País, e trouxe novidades da Europa e dos EUA sobre uma tecnologia que nos permitiria, no futuro, uma comunicação de texto, som e imagem, em uma convergência midiática através de uma plataforma até então pouquíssimo conhecida: um tal de computador.