MARCO ANTÔNIO VILLALOBOS

MARCO ANTÔNIO VILLALOBOS, ou simplesmente Marquinho, como todo mundo o conhece, é um dos mais experientes jornalistas dedicados à formação dos novos profissionais. Começou em 1976, como redator, na antiga Rádio e TV Difusora (que anos depois virou Band RS). Dali foi para a Rádio Gaúcha, onde foi produtor e chefe de reportagem. Depois entrou para a então TV gaúcha, que se tornaria mais tarde RBSTV. Lá trabalhou por 23 anos, atuando com repórter, repórter especial, pauteiro, sub-chefe de reportagem, editor local e do Núcleo Globo, e editor-chefe do telejornal RBS Notícias. A etapa profissional seguinte foi na Band RS, onde Marquinho foi pauteiro, editor local e nacional e chefe de jornalismo. No mundo acadêmico, é Mestre em História do Brasil e Doutor em História Ibero-Americana. Foi professor de comunicação na Unisinos, Ulbra e na Famecos/PUCRS, onde lecionou por 22 anos tendo sido responsável pela formação de muitos profissionais que hoje brilham no mercado local e nacional.

. Qual é o perfil do profissional que as faculdades buscam formar hoje?

As faculdades são obrigadas a seguir o que o mercado determina. Na verdade é um modelo que já vem de alguns anos e está muito vinculado à ótica capitalista de produção. A necessidade mercadológica de ser multimídia obriga o profissional a assobiar e chupar cana ao mesmo tempo. Neste sentido as escolas tentam preparar o aluno de forma mais completa para que aumentem as chances dele obter uma vaga em redações de jornal,TV, rádio,online , assessoria de imprensa ,etc. Por outro lado é lógico que com o desenvolvimento meteórico das tecnologias existe a preocupação de formar um profissional que cada vez  mais saiba  como utilizar estas ferramentas.

Marquinhos, no teto da Kombi, com equipes de jornalismo da TV gaúcha

Na minha opinião, no entanto, tem havido um exagero na importância dada á tecnologia em detrimento do conteúdo. É preciso não esquecer que jornalismo ainda é a arte de contar boas histórias e para isto  precisamos de algo que a modernidade, plataformas ou a pirotecnia não garantem. O bom e verdadeiro jornalismo faz-se com fontes, tirocínio, sensibilidade, informação, cultura geral e é claro, um bom texto.

. Como o universo das redes sociais está impactando no ensino do jornalismo?

Está impactado muito. Por um lado facilita enormemente a produção de matérias. É mais fácil encontrar pessoas, exemplos etc. Por outro me parece que cada vez mais afasta o jornalista das ruas e transforma nossa atividade em algo  “pasteurizado”. Percebo que muitas vezes a abundância de informações recebidas e a rapidez com que elas são enviadas pode atrapalhar um pouco. Isto acontece muitas vezes pela falta de conhecimento geral e experiência de quem coloca as novas tendências à frente dos velhos e basilares conceitos que defendem a boa apuração e a checagem como aspectos fundamentais para o bom jornalismo.

. A proliferação das faculdades de jornalismo ajuda ou prejudica?

Em primeiro lugar parece que não há escolha, pois trata-se da chamada concorrência de mercado. Se a gente olhar meramente do ponto de vista econômico, claro que em um primeiro momento um pai que se arrebenta  para pagar uma alta mensalidade deve gostar. Mas cuidado. Existem faculdades e faculdades. Claro que o preço pesa, mas é sempre bom antes dar uma analisada em quem são os professores. O que estes caras já fizeram na vida dentro do jornalismo? Que tipo de currículo estão oferecendo ? Existe um suporte tecnológico mínimo para garantir uma boa prática?

. Uma critica antiga às universidades é a distância entre o mundo acadêmico e a realidade da atividade profissional na rua. Ainda existe este hiato entre teoria e prática?

Acho que isto sempre vai existir sempre não só no jornalismo, mas acredito que quanto maior o número de professores em salas de aula e laboratórios que viveram ou continuam vivendo o dia a dia de uma redação, esta distância entre academia e  a realidade  diminui. Teoria é legal, um ou outro curso rápido  no exterior até pode dar status, mas a redação e a rua é que contam mais quando a gente fala em jornalismo de verdade.

Professor Marquinho

. O mercado da comunicação busca cada vez mais profissionais jovens em detrimento dos veteranos. Como isso repercute no ambiente acadêmico?

Isto acontece em todas as atividades. Primeiro tem o processo natural de renovação, o chamado sangue novo. Depois, é claro, diminuir folha de pagamento. Isto acontece nas atividades em que cabelo branco contava muito quando havia uma preocupação maior com a experiência e o saber. Por favor, não se trata de conflito de gerações, mas fazendo uma analogia com o futebol – me perdoem os gremistas, também sou – mas o exemplo busco no Inter. Ele já é “velho”, em alguns momentos pode faltar perna e não seria possível ter um time só com caras como ele, mas  pelo menos alguns D’Alessandros a equipe tem que ter. Não é minha área, mas os especialistas dizem sempre que ele não joga o Colorado fica irreconhecível. Tem sim que haver renovação, mas para  quem tem as frases prontas de sempre do tipo “é preciso sair da  zona de conforto” ou para os que acham que o jornalismo começou somente  depois que eles nasceram, eu diria: não existe nada mais velho do que dizer que  a novidade é sempre melhor do que algo que já existia e comprovadamente era bem feito. Da mesma forma não tem nenhuma lei que determine que quem é mais velho e experiente seja automaticamente melhor. O que eu percebo e fico chateado é ver que, apesar da grande maioria dos jovens acadêmicos se tornarem bons profissionais, alguns, por sorte poucos, que entraram ontem no jornalismo por vezes mostram uma certa soberba. Alguns jornalistas novinhos ou Professores de jornalismo novinhos ganhariam muito se buscassem referências na faculdade e nas redações. Quando a gente tem humildade a gente aprende muito. Quando a gente respeita mais os que “passaram”  a gente tem chance de crescer muito. Cansei de ver a redescoberta da roda em várias reuniões onde as grandes novidades eram algo que os “velhos” já tinham feito, claro que com os recursos da época há 300 anos. Um cara novo que entra numa faculdade teria, por exemplo, que pedir a benção para um professor como o Marques Leonam.só para dar um exemplo. Poderia dar muitos mais. Este mesmo sujeito ao entrar numa redação teria que beijar a mão de caras humildes como Luiz Cláudio Cunha, nosso querido Geneton de Moraes Neto (já falecido) ou um bem mais jovem mas grande jornalista como o Marcelo Outeiral. Todos GRANDES. Todos humildes. Ainda é tempo de começarem a beber água, ou se preferirem, cerveja nestas fontes de conhecimento.

. A realidade do mercado mostra que a obrigatoriedade do diploma, embora legalmente exista, é cada vez mais burlada. Como isso está repercutindo nas faculdades de jornalismo?

Bom imagina que quem detonou aquela vez o diploma foi o Gilmar Mendes. Logo quem, né? Eu acho que não deve ser o principal fator que está de certo modo esvaziando as faculdades de jornalismo. Tem a crise. Tem uma profissão em baixa, mas eu acho muito importante para que um cara seja um bom jornalista que ele tenha a formação em uma faculdade.

. As faculdades de comunicação estão aproveitando as facilidades que a web e as novas tecnologias oferecem para gerar conteúdo com as atividades dos alunos?

De certa forma sim, mas é claro que isto tem muito a ver com a estrutura que cada faculdade tem. Sabemos que algumas tem carências grandes e ai entra aquela proliferação de cursos dos quais alguns podem ser caça níqueis.

. Como deve ser o perfil de um professor de jornalismo na realidade atual?

Um professor que saiba o que as novas tecnologias podem oferecer mas que jamais deixe de passar para os alunos suas vivências na profissão. Um professor que cada vez mais tente aproximar as atividades de aula com o que acontece na vida real do jornalismo. Um professor aberto, democrático, que traga os temas da atualidade e também do passado para discussão em sala de aula como forma de desenvolver o pensamento crítico do aluno.