FÁBIO ALMEIDA

FÁBIO ALMEIDA é um daqueles raros jornalistas de TV do Brasil que tem uma trajetória cheia de conquistas mas no entanto não se expõem abertamente no vídeo. Forjado no delicado território das reportagens investigativas, lidando com pautas que muitas vezes põem em risco a segurança pessoal, Fábio, assim como Giovani Grizotti,(de quem seguiu os passos nesta área espinhosa, e que está na seção Perfil deste site) é representante destacado daquela categoria celebrizada e muito valorizada pelo telejornalismo norte-americano, mas que aqui no Brasil ainda engatinha: a dos produtores repórteres, que agem por trás das câmeras para trazer à luz do dia assuntos impactantes e frequentemente perigosos. Integrante do grupo de investigação da RBS, Fábio é presença constante nas principais premiações do jornalismo regional e nacional. Confira abaixo como pensa e trabalha este grande repórter investigador.

– O modelo de reportagem onde o produtor é o grande responsável pela realização de todo o trabalho é comum no mundo todo há muitos anos, especialmente nos EUA. Mas no Brasil ainda é coisa rara, com poucos expoentes como o Eduardo Faustini e os falecidos Geneton Moraes Neto e Tim Lopes (todos da Globo). Aqui no sul, os que se destacam são o Giovani Grizotti e tu. O que falta para este modelo ganhar mais força?

 Acredito que essa é uma questão que não passa por decisões de redação ou chefia. Esse tipo de trabalho deve partir do produtor/repórter. Há espaço e carência de reportagens de aprofundamento. Sabemos que para a realização de trabalhos desse tipo há a necessidade de tempo e dinheiro (é caro manter um repórter fora da pauta, trabalhando em um assunto demorado), mas ao mesmo tempo essa insistência e produção deve partir do repórter. Quando o ele chega com uma boa história e vontade de contá-la e, ainda, com ela produzida, não há editor que não compre.

 – O produtor que atua nos bastidores da noticia, fazendo investigativas sem revelar o rosto na tela, sofre algum tipo de preconceito de outros profissionais?

Nunca senti. Na verdade, observo até reconhecimento dos colegas que conhecem o tipo de reportagem e como realizamos nosso trabalho. Não chamo de preconceito, mas por falta de entendimento da nossa figura (repórter sem rosto), sinto uma estranheza de alguns entrevistados que muitas vezes nas hora da gravação perguntam “Quem vai ser o repórter?”.

Eu respondo: – eu sou o repórter.

Eles geralmente falam: – hum, mas nunca te vi.

Eu penso, que bom!

Explico para eles como vai funcionar, perco uns minutos, mas tudo fica bem.

 

 – As matérias investigativas geralmente exigem muito mais tempo de apuração e realização que as reportagens do dia a dia. Isso significa também maiores custos de produção. Como se faz para viabilizar um trabalho desses diante na imposição de economia das emissoras?

 São poucas as emissoras que ainda conseguem manter profissionais com esse perfil, mas felizmente têm surgido mais jornalistas realizando estes trabalhos nas redações pelo país. Começam se dividindo entre as pautas do dia e uma especial mais demorada, aos poucos a exclusividade e/ou o ineditismo da matéria vão dando mais espaço para o jornalista. Outro fato importante que cabe ressaltar é que esse mesmo cenário de crise economia e competição faz com que as empresas precisem investir em matérias diferentes e exclusivas que façam o telespectador ligar a tv em determinado programa e jornal. Isso tem ajudado na busca de recursos e tempo para reportagens mais apuradas.

 – Quais são os maiores obstáculos para viabilizar uma investigativa de impacto? Custos ou interesses econômicos e/ou políticos envolvidos?

 Acredito que o impacto está diretamente ligado no retorno social da reportagem. Achar uma boa história, realizar um bom flagrante. São obstáculos naturais que surgem. Mas sem dúvidas, desses tópicos levantados, o custo muitas vezes pode se tornar um problema aliado ao tempo de produção, gastos com equipe, etc.

 – Qual a matéria em que participaste que causou o maior impacto até hoje? – Qual foi a mais difícil de executar?

 Felizmente tem algumas matérias que causaram impactos. Mas destaco duas: a série de reportagens “Nazistas Sulinos”, que realizei em 2005 na Rádio Gaúcha em parceria com meu grande amigo Cid Martins. Nessa reportagem ficamos um ano e dois meses estudando grupos neonazistas e conseguimos nos infiltrar. Realizamos doze reportagens mostrando os bastidores e com isso duas dezenas de criminosos foram presos e, segundo a própria polícia, com isso, os grupos deixaram o RS. A série é até hoje a mais premiada da emissora com entrevistas e citações em mídias especializadas internacionalmente.  A outra reportagem que destaco, na verdade uma série multimídia em conjunto com a colega Renata Colombo, foi “Jacuí – Crime e Agonia”, de 2013. Nessas reportagens mostramos como a extração predatória de areia estava e está destruindo um dos maiores rios do estado, o Jacuí. A série fez com que a Justiça Federal retomasse o processo que estava parado há pelo menos cinco anos, além de fazer a Fepam mudar as regras de mineração no estado. Outro efeito positivo foi a contribuição para a Operação Concutare da Polícia Federal que prendeu 17 pessoas, entre elas, secretários e ex-secretário do meio ambiente de Porto Alegre e do estado. Essa reportagem ganhou diversos prêmios, inclusive um dos maiores prêmios jornalísticos do mundo, o Rey de España. A duas foram bem difíceis de realizar, foram reportagens que tiveram especificidades técnicas diferentes e em diferentes épocas. Reportagens que precisaram de muitos recursos extra-redação.

  Investigativas muitas vezes envolvem questões de segurança pelos perigos relacionados ao assunto abordado. Qual foi a situação mais perigosa que já passaste?

 Foi a travessia do Rio Uruguai na região entre São Tomé (Argentina) e São Borja (RS) durante a série de reportagens Fronteiras Abertas. O cinegrafista Giancarlo Barzi e eu atravessamos a fronteira entre os dois países em um caíque quase afundando e sem nenhum sistema de segurança, durante a madrugada. Sem iluminação nenhuma para não chamar atenção, navegamos quase uma hora junto a um atravessador de armas para mostrar como funcionava esse tráfico internacional. Estávamos com munição e segundo o atravessador poderíamos estar sendo seguidos pela Gendameria Argentina (polícia de fronteira). Foram momentos que se confundiam com o medo e a alegria de conseguir esse depoimento e flagrante.

 – A natureza deste trabalho, em que é preciso preservar a identidade, exige medidas de segurança pessoal?

 Sim, mas deixando claro que além da segurança, alguns cuidados são para preservar fontes e as reportagens futuras. Dos cuidados gerais, nunca posto fotos ou marco locais onde estou. Também me cuido ao preencher fichas com endereço etc. Cuidados básicos e necessários. Há outros cuidados com logística e produção, mas isso durante a apuração das reportagens. 

– Como é o processo de definição das pautas? 

Geralmente, uma visão diferenciada de situações que estão ocorrendo. Mas há muitas demandas que chegam por e-mail, por antigas fontes que contam novidades, etc. O importante e, isso já é um mantra na nossa área, é ver à quem interessa a reportagem. Vai atingir quem? Vai ajudar alguém? Alertar a comunidade? Se a resposta for sim, temos matéria e vale o esforço. 

– Como a tecnologia está ajudando na execução das pautas? 

Facilitando no momento de gravações, ajudando na modernização, miniaturização e qualidade das câmeras escondidas. Hoje temos diversos modelos de câmeras discretas que ajudam nos flagrantes. 

– As redes sociais são uma boa fonte de pautas?

Sim, excelentes matérias nascem da ajuda das redes. Inclusive posso citar a série sobre extração de areia no Jacuí. Essas reportagens nasceram da provocação de um twitter. Os primeiros contatos foram marcados por essa rede. Também utilizo bastante, já que essas redes de massa são um termômetro do que esta rolando no mundo real, também!

– Trabalhar em investigativas em que não se pode aparecer no vídeo exclui os profissionais que preferem a exposição na tela. É por isso que há tão poucos produtores repórteres como tu e o Grizotti? – 

Não saberia dizer a razão. Mas acredito que o sonho de muitos jovens jornalistas quando pensam em TV é aparecer na tela, ser correspondente etc, mas somo a isso um outro ingrediente: reportagens investigativas são sinônimo de incomodação, de pressão e isso pode causar um distanciamento de muitos profissionais. 

– O perfil de quem atua neste campo é muito diferente dos demais repórteres?

Todo jornalismo deve ser investigativo, mas esse tipo de reportagem que realizamos necessita de mais apuração e para isso o profissional precisar ter paciência, saber lidar com frustrações e cultivar fontes. Por vezes, ficamos semanas, meses trabalhando uma denúncia e tentando flagrantes e muitas dessas vezes, a reportagem pode cair, não se confirmar e todo o trabalho anterior se perder. Quando isso acontece, o negócio é respirar fundo e começar tudo novamente. Segue o baile!

FÁBIO ALMEIDA POR ELE MESMO

Meu nome de trabalho é Fábio Almeida, tenho 35 anos, nasci no Rio de Janeiro, mas desde os dois anos de idade tenho Porto Alegre como meu lar.

Não sei exatamente como surgiu essa vontade de trabalhar com comunicação e/ou jornalismo. A memória mais antiga que tem ligação com isso, vem lá dos meus seis ou sete anos. Eu enchia o sofá de casa com caixas de papelão que “roubava” do pequeno comércio do meu pai (ele tem um daqueles tradicionais pequenos armazéns de bairro até hoje) e transformava essa caixas, um cabo de vassoura, uns toca-fitas velhos e a vitrola dos meus pais num verdadeiro estúdio de rádio.

Ficava tardes e tardes ali anunciando, “desanunciando” e gravando músicas. Muitas entrevistas eram feitas com os amigos outras com personagens imaginários. Não sei mesmo de onde veio essa referência. Mas achava aquilo o máximo.

Falar no rádio para milhares de pessoas me ouvirem, de tocar músicas e mexer com a memória das pessoas que naquele momento poderiam estar me ouvindo nos lugares mais diferentes. Sem saber, já achava aquilo mágico e contagiante.

Os anos passaram, essa vontade passou, sumiu, não lembro de outras referências diretas, apenas de continuar apaixonado por música. Já no antigo segundo grau, hoje ensino médio, num vídeo escolar, onde precisávamos nos imaginar no mercado de trabalho no futuro, lá estava eu de paletó e gravata apresentando um Globo Repórter sobre nossa turma. Me imaginava fazendo isso!

Alguns anos depois, as coisas começaram a aparecer naturalmente… Brincava de DJ por aí, colocava festas com alguns amigos e continuava um ouvinte de rádio, apaixonado pelo FM. Essa paixão me levou a invadir todas, repito, TODAS as rádios de Porto Alegre, isso mesmo!

Com a desculpa de que estava fazendo um trabalho escolar, fui conhecendo os bastidores das emissoras da capital. Chegava, me apresentava e com um caderno na mão, as secretarias, telefonistas ou até mesmo locutores me mostravam os estúdios e como tudo funcionava. Eu achava aquilo o máximo! Arlindo Sassi, Adriano Domingues, Bira Mongoni, Zambiasi, Alexandre Fetter, Everton Cunha foram alguns que, sem saber que estavam caindo num golpe do bem (já em uma investigativa, risos), me apresentaram as emissoras que trabalhavam na época.

Hoje, são todos meus amigos e felizmente colegas de profissão. E foram eles que me deram os caminhos para realmente entrar numa rádio. Realizei o curso de locutor na Fundaçao Educacional Padre Landell de Moura (FEPLAM) e me formei jornalista na Universidade do Vale do Rio dos Sinos, Unisinos.  

Já trabalhei em rádio comunitária (PRTC 91.7 FM), em rádio de programação religiosa (LBV 1300 AM), em rádio de pagode (Metropolitana FM, ainda do grupo Tartarotti) que tinha uma equipe de futebol (eu fazia reportagem de torcida), na TVE no programa Hip-Hop Sul, na Rádio Transamérica até chegar em setembro de 2002 na minha primeira experiência com jornalismo no Grupo RBS como rádio-escuta da Rádio Gaúcha. De lá para cá, são 16 anos nos veículos da RBS e de jornalismo. Além da Gaúcha, trabalhei quase cinco anos na Rádio Farroupilha e desde 2009 estou na RBSTV.

Nessa caminhada no jornalismo, já são 57 prêmios e menções honrosas que me colocaram na lista dos jornalistas mais premiados do Brasil – 7º da região Sul, 24º do país. Entre eles, o Prêmios da Associação Riograndense de Imprensa (ARI), Prêmios do Movimento de Justiça e Direitos Humanos, Prêmio Vladimir Herzog, Prêmios Embratel, Prêmio Petrobrás, Prêmio Ambiental José Lutzemberger, Prêmio Internacional José Hamilton Ribeiro, Prêmio Internacional Rey de España.

 Das reportagens premiadas destaco Nazistas Sulinos sobre organizações Nazistas no Brasil (2005), Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes (2007), Bastidores das Torcidas Organizadas (2008), Tráfico de Explosivos (2010), Fronteiras Abertas no Sul do Brasil (2012), Exploração ilegal de areia no Rio Jacuí (2013) e Descaso com as Águas (2015).

Nos últimos anos, tenho a felicidade de fazer parte dos repórteres investigativos que realizam reportagens especiais para o Programa Fantástico da Rede Globo.