EQUIPE DEIXA ENTREVISTADO EM PÂNICO!

A pauta era com Ulysses Rocha, famoso instrumentista de MPB/jazz que estava lançando seu novo CD e passava por Porto Alegre em turnê.

Foi no final dos anos 80. A produção do telejornalismo da TV Pampa marcou entrevista na casa da produtora que o assessorava.

Embora atencioso e gentil, era um tanto sisudo. Sentado no sofá da sala no pequeno apartamento, aguardava pacientemente que a equipe se organizasse para a gravação.

O cinegrafista ajeitava câmera no tripé, orientando o auxiliar de iluminação para que colocasse as luminárias em posição para dar um efeito especial. E eu conversava com o músico sobre seu novo trabalho, preparando a entrevista.

Enquanto ele falava, volta e meia passava um paninho de feltro no corpo do belíssimo violão que repousava no seu colo. Pelo carinho ao alisar a madeira lustrosa e polida como diamante, percebi que para aquele músico era bem mais que um instrumento. Era uma peça de arte lapidada especialmente para ele, com madeira especial vinda sei lá de onde, entalhada por um daqueles magos da luthieria que produz um violão desses a cada vinte anos.

Começa a entrevista. Tudo muito tranqüilo, ambiente com luz suave rebatida para o teto, e outra luminária na mão do auxiliar, operador que naqueles tempos era chamado de  “pau de luz”.

Ele segurava o tripé com a lâmpada de 1000w, balançando sobre as pernas como um porta-bandeira sedado, acompanhando a entrevista com aqueles olhos revirados de quem está numa peleia braba contra o sono.

Ulysses discorria sobre sua trajetória e o novo trabalho, com os braços apoiados no corpo do violão, cujo tampo refletia a luz suave como um espelho.

Foi quando notei um pingo negro e viscoso, largo como uma moeda, desabando diretamente sobre o tampo cristalino do instrumento.

Olhei de relance para o teto, tentando discretamente descobrir de onde vinha aquilo. Vi que a luminária do operador, bêbado de sono, estava encostando no lustre da sala que pendia sobre o entrevistado. Peças de plástico preto que não resistiram ao calor intenso da nossa luminária começaram a derreter exatamente sobre o precioso violão.

O músico não percebeu o primeiro pingo, que se grudou vistosa e silenciosamente no instrumento. Mas ao dirigir o olhar para o violão, como se quisesse conferir se ele estava bem aconchegado no seu colo, parou de falar e arregalou os olhos, no mais puro pavor.

E viu o segundo petardo grudento alvejar em cheio sua jóia rara.

A sobriedade foi para o beleléu.

– CARAAAAAALHO, QUE PORRA É ESSA?????

Saltou do sofá, olhando em pânico para instrumento que ele agora segurava como se fosse um ferido necessitando de socorro urgente. Tentava desesperadamente entender de onde vinha aquele ataque insidioso e traiçoeiro contra seu venerado companheiro.

A confusão que se estabeleceu acabou despertando o “pau de luz”, que ficou atarantado com a gritaria que interrompeu a sua soneca.

A produtora veio correndo com um pano úmido, jogando na direção do músico. Ele esfregava a mancha tentando controlar a ansiedade nos movimentos para não piorar a situação.

Após alguns minutos de nervosa concentração na tarefa, ele começou a se acalmar, ao ver que havia conseguido limpar o estrago sem prejudicar a superfície atingida.

Mas o susto foi demais pra ele. Engolindo a raiva que certamente o consumia, falou educadamente que a entrevista estava encerrada, pois já tínhamos uma parte do depoimento.

Não tive coragem de insistir. Era evidente que não havia mais clima. Constrangido, me desculpei da melhor forma possível e fomos embora, sem gravar uma performance dele ao instrumento.

No carro, rumo à emissora, foi obrigado a dar uma bronca no descuidado auxiliar. E o assunto morreu ali mesmo.