ENTRE QUADRO PAREDES TUDO ACONTECE…

Uma das maravilhas da reportagem é o trabalho em equipe. Muitas grandes amizades nascem e aprendizados valiosos são assimilados nas coberturas em que todos dependem de todos, compartilhando as mesmas durezas e conquistas, sofrendo debaixo de mau tempo, correndo perigo, e às vezes até passando fome juntos em coberturas extensivas onde não se acha onde comer ou então não sobra tempo pra isso.

Mas sabe aquela máxima do “entre quatro paredes…”?

Pois é…É quando aparecem as “manias” de cada um.

Tem colega que só dorme com a TV ligada. Outros só “apagam” com o radinho no ouvido, e todo mundo escutando junto.

Tem os que só pegam no sono com a luz acesa; uns falam dormindo, outros ficam no telefone do quarto ou no celular falando com suas esposas ou namoradas até a bateria cair…

Há os que transformam o banheiro num pântano fedido, e outros que deixam suas marcas nas toalhas (leia neste site o causo “O Santo Sudário”).

Para os que não fumam, dividir quarto com fumante é um martírio. Lá por 1992, eu estava em Buenos Aires pela RBSTV com  o saudoso repórter cinematográfico Mário Vial, na época um veterano às portas da aposentadoria. Mário fumava muito, o que era comum entre os da sua geração. Na hora de dormir, acendia o último cigarro já debaixo das cobertas.

Eu me sentia constrangido em reclamar. Além de gostar muito dele, sentia um respeito que me vetava a queixa. Comemorei quietinho quando o dinheiro ficou curto e ele não podia mais comprar. Mas eis que aparece no café da manhã o Rogério Mendelski, que estava na cobertura pela Rádio Gaúcha, e dá dois maços de presente para o Mário. Me ferrei…

OS RONCADORES, PESADELO DAS MADRUGADAS

A sinfonia tem muitas variações, desde aquele ronco baixinho, assobiado e constante até o urro de urso que treme o quarto.

Certa vez na sede da Estação Ecológica do Taim, onde à noite o silencio era absoluto, optei por dormir no alojamento dos pesquisadores, pois conhecia bem o poder lendário do ronco do cinegrafista Jair Alberto, que dormiu no alojamento dos funcionários.

Na manhã seguinte um biólogo que estava no meu alojamento comentou que ouvira a noite toda um estranho e assustador rugido, anormal para os animais daquelas paragens. Fingi cara de intrigado e o deixei pensando que talvez houvesse mesmo uma fera diferente rondando a Estação.

O grande repórter cinematográfico Luiz Quilião era outro roncador de primeira divisão. Só que tinha algo de maquiavélico naquele ronco. Quilião sofria com problemas respiratórios ao dormir, que provocavam a tal apnéia do sono.

Numa cobertura de verão no final dos anos 90, eu e minha equipe dividimos o quarto com a equipe dele..

O quarto virou um acampamento. Eu estava num colchão no chão. Quilião estava na cama ao lado, com a cabeça quase pendendo pra fora, sobre a minha. Além de roncar direto, a cada minuto, quando faltava o ar, ele recobrava o ritmo da respiração dando uma rosnada apavorante, quase na minha orelha!

Peguei minhas coisas e fui tentar dormir no porta-malas da camionete Parati da reportagem.

Outra vez, num hotelzinho furreco em Mostardas, o operador de VT Paulo Bairros (o famoso Alegrete), homenzarrão barrigudo, roncava furiosamente. Da cama ao lado, eu reclamei alto, gritei, e nada. Peguei minha bota de solado grosso e atirei sem dó. Ela ricocheteou na pança dele e acertou o cinegrafista Clóvis Maciel, na cama do outro lado. Clóvis acordou, mas o Alegrete não…

UM TIRO NO QUARTO DO HOTEL

Noutra dessas coberturas de verão, eu estava escorado na cabeceira da cama no Hotel Beira Mar, em Tramandaí. De frente pra mim, no outro quarto, que se ligava ao meu pela porta aberta, estava o cinegrafista Beto Thormes, sentado em sua cama.

Eu fazia anotações da pauta quando uma explosão acontece sobre a minha cabeça. Beto carregava um revólver 38 e resolveu me dar um “sustinho”. Mirou num quadro brega pendurado meio metro acima da minha cabeça e disparou, abrindo um rombo na tela de crochê.

Enquanto eu vociferava, ele ria sem parar. Pensei em denunciá-lo, mas como éramos amigos e colegas acabei relevando, por mais absurda que tivesse sido aquela brincadeira. Se eu levasse o caso á chefia, Beto, que tinha uma admirável carreira no jornalismo, seria certamente demitido.

E o mais incrível é que do hotel ninguém apareceu para verificar o que tinha acontecido.

Bom, falando em disparos perigosos, tem ainda as inúmeras histórias dos reis do pum na madrugada, aqueles que fazem todo mundo sair correndo do quarto. Mas é melhor deixar pra outra hora…

ASSÉDIO NO ESCURINHO DO QUARTO

Essa é pesada. Portanto,nada de nomes ou funções dos envolvidos nem o veículo de comunicação. O relato me foi passado pelo próprio “alvo” do assedio, com quem já trabalhei e tenho contato até hoje. Foi nos anos 80, num hotel do litoral gaúcho. A equipe de tv, todos homens, se dividiu em dois quartos. Num deles havia três profissionais. No meio da madrugada, um deles foi acordado por um vulto ao lado da sua cama. Agachado, sussurrava juras de amor e pedia para tocar o membro do colega. Este deu um pulo na cama e aos berros enxotou o apaixonado, que voltou para sua cama frustrado com a paixão não correspondida. O terceiro, que dormia na cama entre os dois, continuou roncando sem perceber nada.

É meu amigo, entre quatro paredes tudo pode acontecer…