ENQUADRANDO O COLEGA SABICHÃO

Início dos anos 90. Recém chegado de uma sucursal do interior do estado, o sujeito estreava nas equipes de jornalismo na RBSTV em Porto Alegre.

Era pura marra. Forçava aquela malandragem fake de quem não quer parecer interiorano na capital. Não era grosseiro, mas às vezes criava situações constrangedoras diante dos entrevistados fazendo piadinhas desnecessárias. Muito competente, mas se achava o maioral e exaltava esta presunção.

Num daqueles dias de paciência curta, enchi o saco.

Retornando com a equipe para a emissora depois de uma reportagem em que mais uma vez o dito exagerou na performance, decidi que era hora de abrir meu saquinho de maldades.

Enquanto ele tagarelava ao lado do motorista, eu, sentado no banco do fundo da Kombi (era o carro padrão da reportagem na época), peguei o rádio portátil com o qual nos comunicávamos com a redação. Um tijolo Motorola que pesava mais de meio quilo, com uma antena de quase um palmo.

Pressionei a tecla de falar, aumentei o volume de retorno ao máximo e falei bem alto.

– Alô redação, Azeredo chamando!

A resposta veio uns 10 segundos depois.

– Fala Azeredo, redação na escuta!

Aí comecei a sacanagem. Depois de dizer “Estamos retornando, tudo bem?”, soltei a tecla de falar, que corta a comunicação, e continuei falando alto, como se ainda estivesse transmitindo:

– Pessoal, não dá mais pra trabalhar com este sujeito (citei o nome). Ele é muito inconveniente e tá comprometendo até a imagem da empresa com o comportamento dele. Precisamos tratar disso quando eu chegar aí, ok?

Fiquei esperando a resposta ao que eu realmente havia transmitido, no tempo que eu havia calculado. E ela veio num timing perfeito e não combinado:

– Ok Azeredo, tudo bem. Estamos te aguardando.

Acionei a tecla e comuniquei “Ok, até daqui a pouco pra gente resolver tudo!”.

Mas achei que valia a pena dar mais uma estocada de mentirinha. E continuei fingindo a transmissão:

– Peraí redação, talvez ele tenha alguma coisa pra dizer. Ô meu, quer dizer alguma coisa pro pessoal da TV sobre isso?”

Ele tinha se encolhido no banco, mudo, e com os olhos arregalados. Mal conseguiu balbuciar um “ Não, Não, não quero”.

O motorista tinha o mesmo olhar incrédulo, me fitando pelo retrovisor. Outro técnico sentado no banco do meio, também estava boquiaberto. Mas eles perceberam o golpe quando dei um sorrisinho sacana e uma piscadela, que o outro não tinha como ver.

E carreguei no sarcasmo, para todos ouvirem na Kombi:

– A redação nem respondeu se queria te ouvir. Devem estar pensando no que fazer contigo.

O sujeito não deu um pio até entrarmos no estacionamento da emissora. Ao desembarcar, ele me chamou para um canto e se desculpou, constrangido.

– Pô Azeredo, tá certo, mas não precisava me queimar assim diante de toda a TV, né?

Expliquei então que tudo tinha sido um teatrinho em que a platéia se resumia à equipe na Kombi. Mas que deveria servir para ele refletir.

– Pode deixar! Ufa!

Sorriu aliviado, mas não escapou das piadas impiedosas dos outros colegas que assistiram a cena.

Nos tornamos bons amigos.Ele se revelou ser um talentoso profissional, que produziu ótimas matérias comigo e com os demais repórteres. Alguns anos depois deixou o jornalismo.