E A EQUIPE FOI PARAR NA ZONA…

Já vou avisando: pessoas mais sensíveis devem evitar este texto.

Mas se você quer conhecer um pouco mais sobre o lado B das reportagens, aqui está um causo bem interessante, embora um pouco, digamos, nojento. Mas verdadeiro.

Achei melhor preservar a identidade dos colegas que estavam comigo e usar nomes fictícios. Leia e vai entender porque.

Então vamos em frente.

Foi lá pelo início dos anos 90. Já ouviu falar de um lugar chamado Tavares.

Bem, hoje é uma cidadezinha mais organizada, a 230km de Porto Alegre, entre Mostardas e São José do Norte, na região do litoral sul gaúcho.

Mas na época em que se passou esta epopéia envolvendo uma valente equipe da RBSTV, o lugar era pouco mais que um vilarejo de pescadores onde a energia elétrica era cortada às 10 da noite para poupar combustível.  Sim, porque a eletricidade vinha de uma bateria de enormes geradores a óleo diesel instalados em vagões de trem desativados. O lugar era tão ermo que a rede da CEEE não chegava até lá.

O acesso a Tavares dependia de um percurso nada animador chamado Estrada do Inferno. Um trecho da BR 101 que naquelas paragens era pouco mais que uma trilha de areia cortando os campos.  Em alguns pontos a trilha desaparecia, e era preciso adivinhar a direção onde se reencontraria o trajeto.

Quando chovia forte, o percurso se tornava uma penosa travessia num lamaçal de onde a gente só se livrava com a ajuda de tratores. Se houvesse algum por perto.

Bem, e o que nossa equipe foi fazer naquele fim de mundo?

UM LUGAR ÚNICO!

Explico rapidinho. Tavares é a melhor porta de entrada para a Lagoa do Peixe, um estreito volume dágua com 35 km de extensão e profundidade média de 1 metro. Fica separada do mar apenas por uma faixa de dunas. Pequenos canais naturais – as barras – fazem a ligação que mistura águas salgadas e doces.

O resultado é um ecossistema que atrai aves migratórias vindas do inverno na América do Norte para se alimentar no riquíssimo banquete de minúsculas criaturas promovido por este ambiente único no hemisfério sul.  É um lugar tão especial que virou área de preservação federal.

Nosso trabalho era registrar a chegada de milhões de aves esfomeadas, de várias espécies, que todo ano se lançam em vôos de mais de 20 mil km pra aproveitar aquele cardápio e depois voltar pra casa.

Para nossa sorte, não choveu na viagem de ida. Conseguimos chegar a Tavares no final da manhã, depois de umas 5 horas de expedição.

Fomos direto para a lagoa, aproveitar a tarde de tempo firme.

Encontramos um cenário deslumbrante!

Bandos infinitos de aves fazendo incríveis evoluções rasantes, numa coreografia aérea espantosamente sincronizada. Flamingos de vermelho vivo, cisnes de pescoço preto, várias espécies de gaivotas e outras aves marinhas pousavam e decolavam num espetáculo impressionante e absolutamente inesquecível.

Enchemos três ou quatro fitas U-Matic  e só paramos quando começou a anoitecer.

LUZ VERMELHA, A SALVAÇÃO

Muito cansados, voltamos para Tavares em busca de um hotel.

Não demorou para descobrimos que não havia nada lá que merecesse esta denominação.

Catando moradores pelas ruelas que àquela altura já estavam ficando desertas, pedimos indicações de pousada.

Fomos parar num velho casarão térreo de esquina que nem placa de identificação tinha. Mas era ali mesmo.

O dono do lugar, um velhote ranzinza que parecia ter tomado o último banho para  comemorar o fim da Revolução Farroupilha, nos levou ao único quarto disponível.

Era um cubículo com quatro camas por arrumar, paredes mofadas e uma única lâmpada, que  era acionada por uma “pêra”, um interruptor que pedia do teto.

Olhei para meus colegas e vi quatro rostos desolados com aquelas acomodações.

Flávio, o cinegrafista, estava inconsolável.

– Olha , já dormi em lugar ruim, mas este ganhou de longe!

– Isso aqui parece um calabouço, disse João, o operador de vídeo tape.

Tentei animar um pouco a turma:

– Tá bom rapaziada, fazer o que, é o que a casa tem. Vamos encontrar um lugar para comer alguma coisa e tomar uma cervejinha pra embalar o sono depois, sem dar tempo de contemplar esta suíte que nos arrumaram.

Encontramos um pequeno restaurante que já estava fechando. Conseguimos convencer o dono a nos servir um prato feito. E pedimos umas cervejas para relaxar e comemorar o fim do cansativo mas produtivo dia de trabalho.

A resposta do dono foi frustrante:

– Não tá gelada. O “frizi” pifou.

Comemos nossos pratos de arroz, feijão e carne de panela bebendo um litrão de Coca-cola quente.  Estávamos inconformados por não ter tomado umas geladas.

– Bah, e agora? E aquela ceva, cadê?

Do nada, saindo pela porta da cozinha surge um sujeito enfiado numa bombacha puída, com um palheiro fedorento no canto da boca tapada por um bigodão sebento.

– Porque vocês não vão no 180?

Ainda intrigado com aquela aparição, dei corda no papo:

– 180? Que negócio é esse?

O tipo se escorou de cotovelos no balcão, deu uma baforada e falou com cara de quem revela o caminho da safadeza.

–  180 graus, tchê, ali pros lados do rincão. Querem se divertir? Vai pra lá.

– Amigo, a gente só quer tomar uma cerveja gelada e depois dormir. Onde fica este lugar?

O bagual deu mais uma baforada, e enquanto coçava a orelha enterrando alí o dedo mindinho,  deu o rumo. Ou mais ou menos isso. Indicou uma estrada de terra e umas referências de orientação um tanto imprecisas pelo caminho.

Decidimos encarar. Estava quase na hora de desligarem a energia, mas a vontade de tomar umas geladas foi mais forte. A idéia era encontrar o tal 180 graus, seja lá o que fosse isso, tomar umas duas ou três e voltar com tempo de sobra para uma boa noite de sono antes da viagem de retorno na manhã seguinte.

Achamos a tal estrada. Geraldo, o motorista, não gostou do que viu , ou melhor, do não viu pela frente.

– Mas olha só isso! Uma trilha no meio do campo! Como a gente vai achar alguma coisa nesta escuridão?

– Vamos percorrer um pouco. Se não aparecer nada logo mais adiante, a gente desiste e vai dormir.

O grupo concordou com minha sugestão e avançamos.

Não se enxergava nada além do que os faróis mostravam á frente.

“ É pessoal, acho que já era nossa ceva. Vambora pro hotel”, sentenciou Flávio, desanimado.

– Não, péra, péra, olha lá na frente, lá naqueles eucaliptos!

Olhei para o João que apontava entusiasmado pela janela.

– Que eucalipto, maluco? Tá tudo escuro! Não se vê uma lâmpada acesa nem viva alma por aqui!

– Alí, ali ó, olha nesta direção, tão vendo? Tem uma luz lá! Só pode ser lá!

Olhamos para aquele breu e nada. Até que o Geraldo se manifestou.

– Mas olha…É mesmo, tô vendo. É fraquinha, mas tem uma luz lá…

Eu e Flávio continuamos sem ver nada. Mas diante da convicção dos demais, resolvemos seguir em frente.

Achamos uma trilha á esquerda que seguia naquela direção, e minutos depois encontramos um galpão.

Estacionados em frente, dois tratores, um Ford Del Rey e um fusca, ambos aos pedaços. E atados na cerca, uns 3 cavalos encilhados. Tinha movimento ali.

A luz tênue que vimos de longe saía por uma das janelas. Dava para perceber vozes lá dentro.

Geraldo lançou o desafio:

– E aí, vamo entrar? Só pode ser aqui…

Olhamos uns para os outros  e decidimos encarar. Era só o que tínhamos.

Tinha alguma coisa sobre a porta de entrada. Apertei os olhos buscando foco na escuridão e consegui ver uma estrela de madeira decorada com lâmpadas coloridas. Tava na cara que lugar era aquele.

– Pessoal, isso aqui é um puteiro! Cacete, viemos parar na zona!

E começamos a rir. Ah, estes caminhos imprevisíveis da reportagem…

Procurei fechar um acordo com a equipe:

– Rapaziada, vamos ficar aqui um tempinho,  tomar umas e caímos fora, que amanhã tem estrada, ok?

– OK! , todos responderam. Fiquei meio desconfiado com aquela resposta em coro cheia de animação.

Entramos. O ambiente se resumia a um salãozinho com poucas mesas e umas poltronas escoradas nas paredes. O ar estava impregnado pela fumaça dos cigarros.

Não dava para ver o rosto dos quatro ou cinco vultos que ali estavam.  A única luz era a chama de um liquinho, aquele botijão de gás pequeno com um lampião acoplado. Estava sobre o balcão do bar, onde um sujeito pilchado se escorava, dando a impressão que dormia em pé. Usava um daqueles chapéus “de beijar santo em parede” com a aba quebrada pra cima.

Sem energia elétrica, não havia música. Só se ouvia uns murmúrios de conversas e o arrastar de pés no chão de madeira.

Nos acomodamos numa mesa.  Um garçom – presumimos que era um – trouxe duas Brahmas e quatro copos bem ordinários. Não precisávamos mais que isso.

–  Um brinde á Lagoa do Peixe!

–  Um brinde ao 180, que nos salvou!,  completou João, o operador de VT.

Pouco depois, veio até nossa mesa uma mulher. Pelo que a escuridão e a fumaça permitiram ver, aparentava uns 50 ou 60 anos. Parecia ser a dona.

– Boa noite, meninos! Só vim avisar que daqui a pouco chega o conjunto e aí vai ter música.

Não pretendíamos esticar a noite, mas gostamos do aviso. Afinal, beber com música ao vivo é bem melhor.

Meia hora depois percebemos uns acordes distantes vindos lá de fora. Olhamos para a porta aberta e vimos uns dois ou três vultos de aproximando. Era uma visão meio sinistra: as silhuetas foram entrando, com um som esquisito que lembrava vagamente uma gaita. O que vinha á frente carregava junto ao corpo algo onde brilhava uma luzinha vermelha minúscula.

Me esforçando para enxergar na escuridão e na fumaceira  percebi que o sujeito , em vez da acordeona, trazia um teclado eletrônico pequeno que ele tocava na vertical,  como se fosse uma gaita junto ao peito.

Aquilo era o conjunto que nos anunciaram…

A essa altura já havia umas 8 garrafas de cerveja sobre nossa mesa. Olhei para o lado e percebi uma cadeira vazia.

– Ué, cadê o Geraldo?, perguntei aos outros, que riam muito.

– Perdi alguma coisa?

Fiquei tão concentrado na performance do “conjunto” que não percebi Geraldo requebrando desajeitado sobre um “queijo”, aquela pequena plataforma redonda onde as moças que trabalham nessas casas costumam dançar.

Tava na cara que a cerveja tinha ido além da conta. Tive então que bancar o estraga festa.

– Pessoal, tá na hora de cair fora.

Resignados, mas sem desanimar, meus colegas concordaram. João fez Geraldo descer do queijo e o rebocou até o carro. Como eu estava sóbrio, assumi o volante. Geraldo foi jogado no banco de trás, inerte.

O banco do carona ainda estava vazio.

– Tá, e agora cadê o Flávio?

– Olha lá ele!

João apontou para a porta do galpão. Flávio estava escorado no umbral de braços cruzados, fazendo cara de bandido, olhando pra nós. Apontou o dedo para nós, como se fosse um revólver, veio correndo e saltou sobre o capô da Parati. Escorregou na lataria molhada de sereno, deu uma pirueta no ar e se estatelou no chão.

Dentro do carro, ficamos assistindo a cena: com um sorriso apatetado, Flávio, foi tateando o carro até encontrar a porta e se atirar no banco. Virou pra mim , de olhos fechados e balbuciou a ordem tentando dar um tom de patrão ao chofer:

– Muito bem, agora podemos ir. Pra casa, agora! Hiic!

O CADÁVER NO QUARTO

Abrimos a porta do nosso quarto e o cheiro de mofo invadiu o corredor.

Nos atiramos nas camas. Meus colegas caíram duros, embalados pelas Brahmas da luz vermelha.

Antes de apagar a luz uma cena surreal me chama a atenção:  usando apenas uma ridícula cueca vermelha tipo sunga, Flávio estava deitado estava de barriga para cima com as mãos cruzadas sobre o peito como um cadáver em velório.  O rosto coberto por um lenço branco. Não resisti:

– E esse lenço aí, Flávio?

Respondeu com aquela voz pastosa dos borrachos:

– É pras aranha lá de cima não descerem e ficarem caminhando na minha cara…

– Tá bom, vai dormir.

Geraldo e João já estavam roncando.

Além do cheiro de bolor no quarto, tinha algo mais fedendo. Olhei embaixo das camas e nada.

Fiquei deitado olhando para o teto, forçando o olfato para tentar descobrir de onde vinha aquele cheiro. Virei para a parede, para tentar pegar no sono e o fedor aumentou. Tinha algo muito esquisito naquele quarto. E era no meu canto.

Olhei para o lençol ao lado do meu travesseiro e notei uns grãozinhos pretos.

– Puta merda, isso parece cocô de algum bicho!

Ninguém de ouviu. Estavam todos anestesiados. Flávio continuava na mesma posição de cadáver,  inflando o lenço com o sopro do ronco.

Percebi que os grãozinhos faziam uma trilha que ia para baixo do meu travesseiro.

Ergo o travesseiro devagar, e descubro um rato enorme, esmagado como se tivesse sido morto a tamancadas.  Bem debaixo do meu travesseiro!!

-Taqueopariu, quem merda é essa??

Os outros acordaram e vieram ver o que tinha acontecido.

– Bleeeeeerrghhh!!! Foi o máximo que Geraldo conseguiu dizer antes de sair do quarto nauseado e se enfiar no carro para dormir.

Tirei o lençol da cama como bicho morto e joguei no corredor da pensão, o que aliviou o fedor no quarto. Como não tínhamos mais para onde ir naquela hora da madrugada, naquele lugar inóspito, tivemos que ficar ali mesmo e pegar a estrada o mais cedo possível.

Me joguei na cama do Geraldo e apaguei.

Acordamos por volta de 7 da manhã. Enquanto meus colegas arrumavam suas coisas para partir, peguei a trouxa de lençol suja de sangue no corredor e levei até a cozinha, onde estava o dono da pensão.

– Olha o que achei no nosso quarto! Tava debaixo do meu travesseiro!

O sujeito, vestindo um pijama encardido, segurava um bule de café todo amassado e mascava um cigarro. Olhou pra mim, olhou pro lençol, bocejou como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo e disse com voz sonolenta:

– Eta rataiada dos inferno…Deixa aí no canto que a patroa lava depois. Tô preparando o café pra vocês.

Ninguém na equipe reclamou de sair dalí correndo pra tomar café na estrada.