DO MOTEL PARA A GRANDE CENA

O relato foi feito pelo protagonista. Portanto, há que se considerar alguma fantasia em proveito próprio. Mas a história vale a pena.

Começou numa festa entre colegas de uma emissora gaúcha de TV.

Todo mundo animado, muita dança, bebida, etc e tal.

Um integrante do telejornalismo se engraçou com uma funcionária da direção. Papo vem, papo vai, os dois acabaram no motel.

O êxtase daquela noite ardente acabou quando o sujeito, que era casado, acordou pouco antes do amanhecer e viu que ainda estava no motel.

E agora? O que dizer em casa?

Morava muito longe dalí e ainda tinha que pegar ônibus. Naqueles tempos, não existia celular e ele não tinha telefone em casa; a solução em casos de emergência era procurar um orelhão da CRT na rua.

Andando atarantado de um lado para o outro no quarto do motel sem saber o que fazer, ficou ainda mais assustado quando olhou o relógio e se deu conta que naquele horário ainda não tinha ônibus.

Teria que esperar o amanhecer. E enquanto isso, pensar em uma boa – boa não, ótima – justificativa.

Assim que o sol raiou, saiu voando do motel direto para a parada de ônibus. Na cabeça, um turbilhão de pensamentos, desde mirabolantes estratégias para se explicar até cenas de pancadaria ao pôr os pés em casa.

A mulher dele era muito jovem e ciumenta ao extremo. E para piorar a dramática situação do sujeito, havia ainda a sogra venenosa, que vivia atormentando a filha insistindo que o genro não era flor que se cheire.

Com o olhar perdido na paisagem que passava pela janela do ônibus, o conquistador ia ficando ainda mais tenso à medida que se aproximava do seu bairro. E ainda não tinha bolado nenhuma boa ideia para se livrar do desastre iminente.

Parado diante da porta de casa, coração a mil, hesitou alguns instantes antes de enfiar a chave na fechadura. E pensou: “Seja o que Deus quiser!”

Abriu a porta e a esposa já estava ali, com labaredas nos olhos e disparando aos berros uma feroz saraivada de cobranças.:

– Onde tu tava até essa hora?? Com quem tu tava? Tava me traindo, eu sabia!!

Naquele momento, sob fogo cerrado, veio a iluminação.

Armou cara de brabo e encheu o peito para encarnar a performance da sua vida:

– Tá doida, é? Eu é que deveria estar furioso!!

Perplexa, ela suspendeu a artilharia por um instante. Ele se mantinha firme na atuação:

– Tomei um baita engate na TV, me mandaram editar de última hora um programa especial, e eu não tive como te avisar! Tu entende isso??

Vendo que a esposa em fúria ainda não havia se recobrado daquele contra-ataque de surpresa, engrossou ainda mais a voz, atirando no escuro:

– E tu é mesmo muito descansada, né? Nem se deu ao trabalho de procurar um orelhão e ligar pra TV pra saber se eu tava vivo ou morto! Só queria saber se eu tava aprontando!!

A cartada do orelhão deu certo, apesar do alto risco da jogada, pois ele não tinha como saber se ela ligou ou não.

Diante daquela inesperada, calorosa e inspirada argumentação, ela baixou a guarda e foi atender as crianças, que acordaram com a gritaria.

Resoluto, ele tomou o rumo do quarto para finalmente descansar. Afinal, tinha sido uma noite desgastante.