DISCUTINDO A RELAÇÃO: REPÓRTER X CINEGRAFISTA

Há um ditado implacável no telejornalismo:

Existe matéria sem repórter, mas não existe matéria sem cinegrafista.

Simples assim.

Cinegrafista, câmera ou repórter cinematográfico, é ele quem garante a essência da reportagem de TV.

Não adianta o repórter fazer beicinho. É isso mesmo.

Sem imagem, não tem matéria.

Com Jair Alberto no canal de Rio Grande

(Obs: não vamos discutir aqui o modelo “abelha”, em que o próprio repórter grava tudo com mini-câmeras ou smartphones. Isso é outra história)

Vai longe o tempo em que os cinegrafistas eram operadores de equipamento sem voz nem vez. A visão deles é fundamental para o desenvolvimento da reportagem. E isso não se limita às imagens.

Se o repórter e seu parceiro das imagens não estiverem bem afinados, fica muito mais complicado produzir uma reportagem bem acabada.

O olhar do câmera deve completar o do repórter e vice- versa.

Só repórteres medíocres vêem o cinegrafista como um simples operador a seu serviço.

Vale ainda observar que hoje é cada vez mais comum ver cinegrafistas formados em jornalismo.

Repórter e câmera não precisam ser amigos íntimos. Mas uma relação de respeito e companheirismo faz toda diferença na produtividade da equipe.

ENTROSAMENTO É TUDO!

Confira dicas pra manter uma harmoniosa e produtiva relação em equipe:

– Nunca despreze a vivência, a cultura e o feeling do cinegrafista.

Com Edison Silva. gruta em Vespasiano Correa,RS

– Peça sempre a opinião dele sobre tudo que envolva a matéria, inclusive sobre idéias de texto e de passagem. Esta conversa deve começar na hora em que a pauta é definida e ser estimulada permanentemente.

– Chegando ao local da pauta, os dois devem avaliar juntos o ambiente e definir como agir.

– Nunca tente dirigir o cinegrafista, impondo enquadramentos, movimentos, pedindo zoom, etc. Nada irrita mais um câmera (especialmente os mais veteranos) do que um repórter metido a diretor de imagens.

– O repórter só deve pedir imagens muito específicas, que sejam fundamentais para sustentar uma determinada ideia do texto, ilustrar uma metáfora, etc.

Com Eduardo Mendes no Vale da Morte, Atacama, Chile

– O repórter pode e deve avisar o cinegrafista sobre algo que este não tenha percebido. Isso é comum em ambientes tumultuados, em que quatro olhos funcionam melhor que dois para avaliar tudo que está acontecendo ao redor.

– O repórter deve estar sempre disposto a auxiliar o cinegrafista. Segurá-lo quando precisa se equilibrar em certas tomadas, controlar os chatos que podem se atravessar na imagem, ajudar a levar os equipamentos em situações difíceis, como escadas verticais, túneis estreitos, longas caminhadas, etc.

–  O modelo de equipe mais comum hoje é da dupla repórter e cinegrafista, onde este geralmente carrega câmera e tripé.  Se ele precisar levar mais equipamentos não será nenhuma vergonha para o repórter carregar o tripé ou luminária para ajudar o colega. Nada mais detestável do que ver um repórter todo engomadinho caminhando cheio de pose e o seu colega vindo atrás sobrecarregado como uma mula de mascate.

– Assim como acontece com os repórteres, há diferenças de perfil entre os cinegrafistas. Existem aspectos subjetivos, como personalidade, e objetivos, como a aptidão especial para certos tipos de matéria. Por exemplo, há os que ficam totalmente à vontade em coberturas perigosas, e outros que nestas horas ficam retraídos e menos produtivos.Também há os que trabalham melhor a fotografia e detalhes dos equipamentos, e aqueles que, embora competentes, são menos meticulosos.  Por isso é importante, sempre que possível, levar em consideração o perfil do câmera na hora de montar a equipe para determinados tipos de matéria.

Com José Henrique, Tramandaí,RS

– Repórter tem que cuidar de sua aparência, mas na hora de gravar a passagem, o cinegrafista também deve zelar pela imagem do colega, observando detalhes como gravata torta, colarinho de fora, cabelo desalinhado, etc. Com mulheres, deve avaliar se a roupa ou determinados adereços como brincos ou colares são chamativos demais, etc.  E não ter constrangimento em dar sua opinião.

– No momento culminante de uma matéria, na hora da imagem mais importante ou do flagrante, o repórter não deve querer ser maior que o fato e exigir fazer a passagem naquele instante. Aquele é o momento da imagem, ou seja, do cinegrafista.

– Assimilar a experiência dos cinegrafistas mais veteranos é muito importante para a formação do repórter. As vivências relatadas por eles sempre serão muito úteis.

– Se o câmera for inexperiente, o repórter deverá ajudá-lo a se orientar sobre os métodos de abordagem, as atitudes exigidas em cada situação, etc. Sempre com disposição e respeito. Os dois ganham muito com isso.