DIREITO NO JORNALISMO JÁ!

O julgamento do ex-presidente Lula no próximo 24 de janeiro será sem dúvida um dos acontecimentos mais impactantes dos últimos tempos no Brasil. Esta data reunirá num único fato tudo que vem sacudindo o Brasil desde o Mensalão.

Não se trata aqui de fuzilar o PT. O rombo é bem mais embaixo.

O turbilhão de denúncias que explodiu a tampa do esgoto que vem empesteando o país há mais de 10 anos gerou um tsunami de coberturas jornalistas focadas na podridão que exala da política em todas as suas vertentes.

O país foi tomado pelas reportagens sobre delações, depoimentos bombásticos, relações espúrias e a promiscuidade criminosa entre governos, partidos de direita e esquerda e setores da economia atuando juntos para assaltar a nação.

A população se acostumou a ver na TV coberturas extensivas dos escândalos em série, que lançam fezes á vontade contra os ventiladores de norte a sul.

Personagens antes relegados a poucas linhas, como procuradores, promotores e juízes das cortes supremas passaram a ser as estrelas fulgurantes do noticiário.

Ok, corrupção já existia muito antes do Mensalão. Mas a dimensão que os fatos e seus desdobramentos assumiram na vida de toda a nação é algo sem precedentes na nossa história.

Nunca a imprensa brasileira teve que lidar tanto com os caminhos e descaminhos do labirinto jurídico. Os personagens das desventuras que invadiram o noticiário operam um incrível emaranhado de artifícios e artimanhas que não se aprende a decifrar numa consulta rápida ao Google.

E é justamente o uso destes recursos jurídicos – onde muitos existem exatamente para atender interesses pouco confessáveis, e com suporte legal – que determina o desfecho dos acontecimentos, para o bem e para o mal.

Como fazer a população entender o que realmente se passa, se quem processa a notícia não consegue entender o funcionamento (o aparente e o subterrâneo) da máquina dos tribunais e das investigações policiais?

As famigeradas fakenews só pioram o quadro da desinformação, jogando gasolina no fogo.

Sem uma informação objetiva e qualificada, o público menos esclarecido tende a agir de forma maniqueísta e imediatista, condenando sumariamente conforme o que vê nas telas da TV e estabelecendo um ingênuo placar de bandidos e mocinhos, exigindo cadeia já e para sempre.

A QUALIFICAÇÃO COMEÇA NA FACULDADE!

Jornalistas mais veteranos aprenderam com o passar dos anos o funcionamento dos poderes e a perceber as nuances dos fatos ocorridos neste universo. Mas os jovens recém saídos das universidades precisam ser melhor preparados para lidar com o mundo jurídico, em todas as instâncias, a começar pelos inquéritos policiais.

Por isso é fundamental inserir imediatamente no currículo das faculdades de comunicação disciplinas específicas que tratem com aprofundamento do Direito aplicado ao exercício do jornalismo.

O jornalista recém formado tem que chegar ao mercado sabendo para que serve e como agem o Ministério Público, Advocacia Geral, Procuradorias, tribunais superiores e outras instituições. Precisam entender como funcionam os ritos processuais, progressões de pena e outros benefícios, como se estabelece o rumo dos processos á medida em que avançam para instâncias superiores, quem decide o que, quem pode anular a decisão, e por aí vai.

Precisa compreender como se dão as relações de poder dentro do judiciário, como o poder político influencia decisões e nomeações de juízes e no que resulta tudo isso.

E mais: os professores devem ser jornalistas experientes, formados em Direito (existem muitos no mercado, inclusive atuando nas duas áreas), e não vetustos juízes aposentados ou advogados tradicionais que não entendem a dinâmica da imprensa e só conseguiriam aborrecer os alunos com suas burocráticas pedagogias.

Ou então, se não forem jornalistas de origem, que os professores destas disciplinas sejam calejados “operadores do Direito” que enveredaram com sucesso pela área da comunicação.

Esta mudança nos currículos é tão urgente quanto a necessidade de mudar este país.