DESAFIANDO O PASSARALHO

Há quem diga que foi o maior passaralho de uma tacada só na imprensa gaúcha até hoje.

Foi um tsunami naqueles idos de 1988. Resultado de uma decisão do Grupo RBS para ajustar seus veículos a novos modelos de gestão e, como se alegou na época, para enfrentar a crise econômica do país.

Na RBS TV, onde eu atuava como repórter há menos de um ano, o rolo compressor esmagou cerca de 30% do departamento de jornalismo. Foram demitidos quatro repórteres (na geral,  eu, que era o menos experiente, e André Duda. No esporte foram Cadu Oliveira e Lupi Martins, irmão de Lazier Martins). Também foram mandados embora cinegrafistas, editores, produtores e profissionais de outras áreas ligadas ao jornalismo.

Com o “paredão”, algumas funções tradicionais simplesmente foram extintas. A empresa dispensou todos os auxiliares de cinegrafista, na época conhecidos como os  “pau de luz”, que operavam o kit de iluminação. Com isso começou o encolhimento das equipes de reportagem ao longo dos anos seguintes, processo que foi acelerando também com o avanço da tecnologia.

Naqueles tempos a equipe de reportagem tinha cinco integrantes: repórter, cinegrafista, operador de VT (videotape, o gravador de fita da câmera, que era separado), auxiliar de cinegrafista e o motorista. A função do pau de luz passou a ser acumulada pelos operadores de VT.

Como sempre acontece quando a silhueta sinistra do passaralho se anuncia no horizonte, a rádio corredor disparou o alarme. E passou a ser o assunto em todas as conversas por todos os cantos da empresa e nos botecos onde o pessoal se reunia depois do expediente: quem vai, quem não vai, quem assume a vaga, quem fez a lista negra, etc.

Apesar da tensão que deixava todos com pelos eriçados nos dias que antecediam a degola, o atávico espírito debochado dos jornalistas atenuava um pouco a atmosfera pesada.

Um dos estavam sempre prontos para um deboche era editor de imagens Espicho. O veterano da edição de VT era também muito hábil com a técnica oriental do origami, com a qual se produz bichinhos em formas geométricas dobrando pedaços de papel. Juntando laudas velhas e anotações descartadas que ficavam sobre as mesas ele produziu um pássaro do tamanho de um frango.

E pendurou aquela criação artística meio desengonçada no teto, bem no meio da redação, à vista de todos!

Como se não bastasse a ousadia, Nery, outro editor de Imagens da velha guarda e não menos pândego,  providenciou um arremate pra lá de provocador no bicho: no lugar que seria o esfíncter (sim, o fiofó) da ave, colou o logotipo arredondado da empresa.

Era um desafiador anúncio em forma de piada do que estava por vir.

Com o perdão do  trocadilho infame, aquela entrou para os anais dos passaralhos…

Outras manifestações volta e meia ecoavam naqueles dias nervosos como escaramuças  fustigando o monstro que se aproximava.

O editor do Núcleo Globo, Marco Villalobos era um daqueles tipos que sempre tinha uma observação sarcástica e bem humorada na ponta da língua, em qualquer situação. Uma herança indelével do pai, o jornalista Carlos Nobre, colunista pioneiro na imprensa gaúcha, mestre na arte do humor como instrumento avassalador de crítica política e social.

Marquinhos era tão naturalmente espirituoso que às vezes essa virtude o traía.

Num daqueles dias sombrios, ele não resistiu ao clima tenso e tentou dar uma descontraída na redação. Sempre barulhento, começou a batucar em frente à máquina de escrever Olivetti, improvisando com voz debochada um samba do repórter doido:

– Passaraio, passaraio, não sei se fico, não sei se eu caio!

A performance um tanto insólita só não rendeu gargalhadas pela redação porque o ambiente era de pura apreensão. Mas muitos não contiveram os sorrisos, aliviando as expressões concentradas sob as Olivettis e Remingtons, balançando as cabeças como quem diz “Esse Marquinhos…”

Embalado, ele ia criando novos versos, enquanto batucava ruidosamente.

– Ehh, ehh, passaralho, eu já sou cara fora do baralho…

O sambinha inusitado arrefeceu um pouco a temperatura na redação, mas também rendeu um “gancho” ao repórter.  Apesar daquilo, Marquinhos foi poupado pelo passaralho.

E eu, que fui um dos degolados, acabei sendo chamado dois meses depois para ser readmitido como repórter. Uma sorte que a maioria dos degradados daquele dia não teve.