DEADLINE, MEU CARRASCO!

A intimação, terceira em 10 minutos, chega pelo celular:

– E aí, já estão voltando pra redação?? Caramba , olha a hora!! O editor-chefe tá enlouquecido! Essa matéria não pode cair, já deu na chamada do jornal!!

E lá vai a equipe driblando o tráfego tumultuado do final de tarde. Cada segundo parado no semáforo é um martírio. O ônibus à frente se arrasta, e o táxi tranca a pista pra desembarcar a velhinha. O motorista da equipe busca nervosamente brechas no fluxo, enquanto o cinegrafista ao lado vai palpitando atalhos. O celular toca a cada três minutos com a pressão da redação.

O repórter começa a enjoar com o chacoalhar e o para e anda do carro, enquanto tenta redigir o off em garranchos num papel sobre a coxa. E o celular toca de novo…

Que atire o primeiro microfone a equipe de TV que nunca passou por isso.

 

O bendito deadline é uma das cruzes mais pesadas que nós jornalistas arrastamos todo santo dia.

O cronômetro dispara na hora em que a pauta é definida, dando a largada para maratona de obstáculos previstos e imprevistos. E haja fôlego!

Deadline é corda no pescoço de todo repórter, seja de jornal impresso, rádio ou TV. Mas para o pessoal do telejornalismo é especialmente cruel, pois há todo um processo industrial posterior ao trabalho na rua que exige o envolvimento de outros profissionais.

Mesmo com as facilidades tecnológicas de hoje, como transmissão pela internet e até o uso do celular para gerar conteúdos, o padrão básico ainda impõe uma operação complicada e desgastante.

Mas dá pra fazer a coisa com menos stress?

Dá.  O caminho está nesta simples equação:

Planejamento objetivo + agilidade na rua = matéria pronta em tempo.

 

 

PRODUÇÃO, A MATÉRIA FEITA ANTES DA MATÉRIA

No jargão do telejornalismo, planejamento é a Produção.

Quando bem feita, resulta numa reportagem eficiente e sem maiores sobressaltos, em vez de uma cobertura fraca e desgastante.

A menos que a pauta seja um factual que surgiu uma hora antes do jornal entrar no ar, é possível organizar a cobertura sem entrar num frenesi tresloucado.

Tudo começa com a discussão da viabilidade da pauta.

É realmente fato importante? Vale o esforço?

Pauta aprovada, o próximo passo é a produção.

– A apuração inicial deve gerar uma pauta consistente e objetiva, destacando o essencial e o que se espera da matéria. Também deve conter as marcações de entrevistados e imagens, com endereços precisos e referências de localização.

– O ideal é definir as marcações antes da equipe sair da emissora. Sem nada definido, não faz sentido botar a equipe na rua pra ficar rodando à espera de confirmações. É mais produtivo aguardar e sair quando tiver algo concreto para começar. A menos , claro, que surja algo urgente.

– Escolher fontes relevantes para que não se descubra tarde demais que o entrevistado era fraco, fazendo a equipe sair correndo atrás de outro com tempo se esgotando.

– Não marcar entrevistas além das que são essenciais para a matéria. Isso só toma tempo.

– Definindo os locais de gravação das imagens: o ambiente ilustra o contexto da pauta? Quanto tempo leva pra ir e voltar? Como é o tráfego neste trajeto? Tem que pedir alguma autorização pra gravar? É seguro?

– Vai precisar de arquivo? A produção tem que providenciar no início da jornada. O mesmo vale para a computação gráfica, se os dados estiverem disponíveis.

AGILIDADE DA EQUIPE FAZ TODA DIFERENÇA

Repórter e cinegrafista bem afinados garantem um trabalho ágil e objetivo. Vale o mesmo para equipes que contam com outros profissionais, como motoristas e auxiliares.  Todos precisam estar a par do objetivo e agir em conjunto.

– O cinegrafista (ou repórter cinematográfico) precisa estar bem informado sobre a proposta de abordagem para agilizar sua parte sem depender de orientações do repórter e também para contribuir na condução da matéria.

– É fundamental administrar bem o tempo durante a externa. Ficar só o tempo necessário para fazer o que é preciso e partir logo para a próxima marcação.

– Ser gentil com populares que abordam a equipe, mas não perder tempo. Se alguém vier sugerir uma pauta, pegar o contato e ligar depois, se for o caso.

– Sempre que possível, conferir ainda na rua o material gravado. Chegar na redação com trechos previamente escolhidos e marcados agiliza e qualifica a redação do off e a edição.

– Se não der tempo pra decupar na externa, perca alguns minutos fazendo isso na redação assim que chegar. O tempo ganho na edição compensará.

Nada disso é garantia absoluta de que o trabalho vai ser tranqüilo. O inesperado está sempre à espreita, e o tempo passa vertiginosamente quando mais precisamos dele.

Se tudo der errado e a situação ficar crítica, o melhor é agir com o máximo de objetividade e foco, fazendo o melhor possível.

Televisão é encantamento mas não é mágica.