CONVERSA COM BIAL SOBRE…DIARRÉIA!

Tem uma máxima muito sarcástica no jornalismo que alerta: cuidado quando falar em off com jornalista, pois você pode virar notícia.

Se o aviso vale para as fontes, vale também de jornalista para jornalista…

Senti isso na pele em janeiro de 2003, durante a festa de entrega do Prêmio CNT (Confederação Nacional de Transportes) de Jornalismo. Foi num evento muito chique no Clube do Exército em Brasília.

Eu e o repórter Edmilson Ávila, da Globo, estávamos lá como vencedores do Grande Prêmio CNT, a principal distinção. Vencemos com uma série de 9 matérias produzidas para o Jornal Nacional mostrando as condições das estradas brasileiras.

Felipe Silveira e Fernando Rech

Foi uma jornada e tanto.Percorremos cerca de 5 mil km com o compromisso de relatar o trajeto diariamente no JN. Minha equipe (o repórter cinematográfico Fernando Rech e o auxiliar/motorista Felipe Silveira, hoje cinegrafista da Globo) partiu de Porto Alegre e seguiu pela BR 101 até Recife. Edmílson saiu do Maranhão e foi até Porto Alegre pela BR 116.

No requintado salão lotado de importantes empresários, políticos e jornalistas que atuavam no Planalto Central, todos aguardavam o início da cerimônia de premiação que depois teria um  jantar animado por uma banda especialmente formada para a ocasião, reunindo Jorge Benjor, Frejat,  Fernanda Abreu, Luciana Lima, Ed Mota e o conjunto Vitória Régia, que acompanhava o finado Tim Maia.

Nos bastidores, conversávamos com Pedro Bial, mestre de cerimônias do evento. Ele queria saber detalhes da nossa maratona e jogar conversa fora enquanto a festa não começava.

Lá pelas tantas, naquele papo divertido de jornalistas regado a espumante, comentei com ele o quanto sofri com os efeitos das comidas que nunca tinha experimentado.

Degustando as iguarias do caminho

Meu estômago sempre foi muito sensível a pratos gordurosos e com temperos muito fortes. Do Paraná em diante, nosso cardápio (muitas vezes engolido em espeluncas à beira da estrada) passou a incluir gororobas locais que meu paladar nunca havia degustado. Quanto mais ao norte, mais picante e graxento ia ficando o menu.

Não deu outra. Meus intestinos acusaram o golpe, e passei a etapa final da viagem pedindo ao Felipe que parasse imediatamente o carro porque eu precisava correr para o mato.

Na hora da entrega do prêmio, fomos chamados ao palco e diante da platéia rolou uma conversa com Bial.

Ele perguntava sobre as agruras e emoções da reportagem premiada. E para encerrar a breve entrevista ele resolveu “apimentar” o papo, emoldurando a última pergunta com um sorrisinho safado:

–  E aí Ricarrrrrrdo, conta pra gente como foi a tua experiência com a gastronomia nesta viagem! Eu soube que você enfrentou momentos muito difíceis, né?”

Sem demonstrar surpresa – embora surpreso com aquela inconfidência – entrei no clima e descrevi rapidamente e com a sutileza possível os meus perrengues estomacais, diante da seletíssima platéia.

No final da solenidade, ainda no palco, ele confessou, sempre rindo:

– Cara, eu tinha que fazer aquela pergunta!

E saímos dalí para festa, onde o jantar tinha um menu muito mais agradável e inofensivo do que aquele que me causou tanto estrago e ainda me arrumou uma saia justa…