CINEGRAFISTA ATIRA EM REPÓRTER

 

Exatamente isso. E mais: foi o meu cinegrafista!

Sentado na cama, concentrado nas minhas anotações, nem vi quando ele apontou o “trezoitão” cromado na minha direção. Só ouvi a explosão sobre a minha cabeça, que ecoou pavorosamente pelo hotel.

Foi numa daquelas saudosas coberturas de verão, lá pelo meio dos anos 1990.

Para os jornalistas o Hotel Beira Mar em Tramandaí era simplesmente Hotel do Miro. Homenagem dos coleguinhas ao dono do estabelecimento, Belmiro Weber, uma figuraça muito querida que adorava receber a imprensa com fartos churrascos e cerveja à vontade.

Até hoje o lugar é ponto de referência na Avenida Emancipação, a principal do balneário.

O “Miro” era base de quase toda a fauna da reportagem gaúcha que migrava para o litoral na temporada de veraneio.

A RBS ocupava vários quartos, destinados às equipes da Zero Hora, Rádio Gaúcha e RBSTV.

O pessoal da ZH e da Gaúcha ficava melhor acomodado, em quartos com sacada de frente para a avenida.  As equipes da TV ficavam num apartamento de duas peças junto ao estacionamento, nos fundos. Um tanto escondido, característica que alguns apreciavam, pois evitava que os colegas que descolavam companhias noturnas tivessem que passar pela portaria e…Bem, você sabe.

Recém havíamos chegado a Tramandaí num final de tarde de sexta-feira, para mais um fim de semana de eletrizantes matérias sobre argentinos agitando o comércio, preço de bronzeador, afogamentos, movimento nos hotéis e estradas, etc, etc.

Descarregamos o carro e fomos ajeitando nossas coisas no pequeno e espartano apartamento. Não tinha TV, telefone nem ar condicionado. O luxo ficava por conta dos ventiladores de teto. Os dois quartos eram ligados por uma porta.

Sentado na minha cama, eu começava a por em ordem minhas pautas, tentando montar um roteiro para a manhã seguinte.

Pela porta aberta, observei o cinegrafista Beto Tormes abrindo a mala sobre a cama dele, no outro quarto.

Eu já estava quase cochilando, escorado na guarda da cama, quando um estrondo ensurdecedor me fez dar um pulo e quase me jogou no chão.

Levei alguns segundos pra me refazer do susto. E então vi o Beto dando incontroláveis gargalhadas recostado na cama dele, com o revólver ainda fumegando na mão.

A figura escarrapachada na cama, ostentando um bigodão que cobria a boca parecia um daqueles bandoleiros bêbados e mulambentos dos velhos bangue-bangues italianos que eu assistia nas matinés do Cine Rio Branco.

Era coisa típica dos velhos e incorrigíveis pândegos do jornalismo: vendo que eu estava quase caindo no sono, o doido fez um disparo mirando num quadro brega de crochê pendurado uns 50 cm acima da minha cabeça.

A obra com o indefectível cenário de praia com pôr do sol e coqueiros ganhou um rombo bem no meio.

Enquanto eu vociferava os xingamentos mais cabeludos que conseguia lembrar, enfezado de pé sobre o colchão no meu quarto fedendo a pólvora, ele ria sem parar.

Eu sabia que o Beto sempre andava armado – sabe lá porque – mas nunca imaginei que seria capaz de aprontar uma dessas só de brincadeira!

Depois veio se desculpar, falando entre risadas mal contidas:

– Pô baixinho…tu tinha que ver a tua cara!

Apesar do barulhão e do meu berreiro pra cima do atirador maluco, ninguém veio ver o que estava acontecendo naquele quarto. Coisas do Hotel do Miro. Ou, como reza a lenda, o que acontece no Miro, fica no Miro.

Pensei mil vezes em denunciar o colega à empresa, mas acabei desistindo. Conhecia o seu estilo fanfarrão e já trabalhávamos juntos há bastante tempo, tendo encarado muitas coberturas difíceis com aquela figura ao meu lado.

Além disso, Beto era um veterano com uma trajetória profissional respeitável, que muito provavelmente terminaria, por conta da inevitável demissão. E podia também virar caso de polícia se a empresa quisesse.

Apesar do péssimo gosto da traquinagem e o risco envolvido, me acalmei depois de esgotar meu arsenal de desaforos. E continuamos amigos, não sem antes eu exigir de dedo em riste o fim dos tiroteios..

Ele acatou, sem se preocupar em esconder a cara ladina de criança travessa em que não se pode confiar.

E tudo acabou numa animada bebedeira madrugada adentro na churrasqueira do hotel, com colegas de vários veículos de comunicação.

Aqueles encontros eram o ritual básico nos finais das jornadas diárias, naquelas memoráveis coberturas de verão no agitado Hotel do Miro.