CHITÃO E A INACREDITÁVEL DOSE DE BOLSO

Quem já cobriu o Festival de Cinema de Gramado sabe que é preciso preparar o fígado. São festas e mais festas, com ou sem artistas famosos. E muito trago liberado.

O evento atrai muitos jornalistas. Apesar da pressão do deadline, o astral é muito mais animado que a rotina da reportagem geral.

E a tentação de cair na gandaia é constante.

São poucos que não se lançam na diversão que vai madrugada adentro nos hotéis, restaurantes, danceterias, etc.

O Hotel Serrano, um dos mais importantes de Gramado, é sempre um grande agito.

Numa destas festas patrocinadas por marcas famosas, estávamos eu, o repórter cinematográfico José Henrique Castro e o motorista e auxiliar técnico Carlos Renaux, o famoso Chitão, alcunha que ganhou graças ao corte de cabelo inspirado no astro sertanejo.

Já passava das dez da noite. Com a extensa pauta do dia já cumprida, reportagem e vivo no telejornal  já feitos e nenhum compromisso agendado para a manhã seguinte, resolvemos nos juntar ao povo que lotava o bar do hotel.

Mal dava para se mexer. Jornalistas, artistas, técnicos, intelectuais, personalidades dos mais variados gêneros e por aí vai.

Nos juntamos a um grupo que promovia um animado pagode à capela, onde as atrizes Bete Mendes e Maria Zilda Bethlem puxavam o coro.

Atravessar o tumultuado trajeto até o bar para buscar algumas cervejas exigia força para abrir caminho naquele entrevero de gente.  Trazer a bebida sem derrubar ou derramar era um desafio e tanto.

Mas não para o persistente e criativo Chitão.

Carlos Renaux, o inconfundível Chitão

Eis que ele emerge do meio daquele turbilhão humano trazendo umas cinco latas de cerveja encaixadas verticalmente umas sobre as outras, segurando a pilha com uma mão em cada extremidade, num inacreditável malabarismo.

“- Olha aí o que eu trouxe pra vocês”, exclama triunfante.

Em retribuição à proeza, abro uma lata e passo pra ele, que recusa:

– Ué, depois de tudo isso, não vai tomar uma?

– Na, na, na! Hoje eu vou tomar um whiskinho!

– Ah tá, e cadê a tua dose? Vai esperar o garçom?

Com aquele sorriso de esperteza que só os autênticos malandros tem,  enfiou a mão no bolso da frente da calça folgada:

– Tá aqui, ó meu, 12 anos! Eu mereço!

Sabe-se lá como, ele conseguiu trazer um copo de whisky com gelo dentro do bolso, sem derramar uma gota, atravessando aquele  mar de gente que se espremia,  e ainda carregando a nossa pilha de cerveja.

Coisa de profissional.