OS MODELITOS DO IMPAGÁVEL CHITÃO

Equipe de reportagem quando viaja dificilmente leva roupa de festa. A não ser que se saiba de antemão que a pauta vai exigir. Não era o caso das tradicionais coberturas de verão no litoral gaúcho.

Nestas empreitadas, na mala só vão bermudas, camisetas e alguns moletons para os dias mais frios. Já os repórteres de TV precisavam levar também uns poucos trajes mais ajeitados, caso a pauta exigisse um traje menos praieiro.

Naquela semana a equipe da RBSTV baseada em Tramandaí era composta por mim, o repórter cinematográfico José Henrique e o motorista Carlos Renaux, conhecido por todos como Chitão por causa do corte de cabelo tipo cantor sertanejo.

Chitão era o tipo extrovertido por natureza. Parceiro sempre disposto, criativo e sarcástico, tinha uma memória incrível para resgatar falas de personagens de desenho animado e séries da infância. Com ele na equipe a diversão era garantida. Suas histórias dos tempos em que era motorista e preparador de funerária, narradas com detalhes hilários, eram impagáveis.

Num final de tarde, recebi pelo celular Motorola da TV (aqueles tipo tijolo, com a anteninha de plástico retrátil) um convite da prefeitura de Imbé para uma confraternização com a imprensa à noite. Um jantar num elegante hotel fazenda das redondezas.

– Bom, a gente vai ter que ir mais arrumadinho nessa, não dá pra ir de calção e chinelo de dedo.

 

Eu e José Henrique vestimos nossas melhores camisetas pólo e calça jeans.

Chitão se dedicava a um demorado banho, trancado no banheiro.

– E aeee Chitão, vamulá, tá na hora, a gente vai se atrasar! Te arruma e vem!

A porta do banheiro se abre, e no meio do vapor quente do chuveiro, criando uma atmosfera cênica para a grande entrada, surge um Chitão exultante com um uniforme completo do Flamengo!

– Olha aí, olha aí, que tal heim guris?? Traje novinho, oficial, vou estrear na festa!

A cena era insólita. Camiseta com as largas barras preto e vermelho, calção, meias listradas até o joelho e tênis de futebol de salão.  Perfeito para uma final do Brasileirão. Mas não naquela noite.

– Chitão, tu vai assim??

– Ué, não tá legal?

Custamos a convencê-lo de que não era o traje mais apropriado. Resignado, mas sem perder o humor, acabou vestindo uma camiseta de passeio e um abrigo.

CHUTEIRAS DE MONTANHA

Chitão era o motorista e auxiliar técnico numa reportagem de turismo aventura na região montanhosa de Encantado, a uns 250km da capital. Tínhamos que percorrer uma trilha difícil no mato, subindo encostas íngremes e pedregosas.

Eu e o repórter cinematográfico Edison Silva vestimos nossas bermudas e botas de solado grosso. Quando estávamos prontos para encarar a empreitada notamos que faltava um.

– Ué, cadê o Chitão?

Eis que surge o bravo motorista vestindo um abrigo de tactel, camisa social e…chuteiras!

– Chitão, que modelito é esse?

– Ué, tem coisa melhor que chuteira com trava pra encarar estes perau aí?

E assim fomos para a nossa aventura, suando morro acima embalados pelas animadas narrativas do Chitão e suas histórias.