O TRAIÇOEIRO DELAY E O MICO NACIONAL

Que atire o primeiro microfone o repórter de TV que não sofreu ao vivo por causa dele!

O delay é uma armadilha mortal para os incautos.

Este efeito traiçoeiro nas transmissões em rede nacional é resultado do intrincado processo desde o local onde está a equipe de reportagem até chegar aos telespectadores. O sinal gerado segue por uma intrincada rota que envolve o ponto da transmissão, o satélite e a emissora de TV.

Neste vai e vem de dados eletrônicos por imensas distâncias ocorrem atrasos que repercutem especialmente no retorno de áudio, que o repórter recebe pelos fones de ouvido.

Pra quem não é do ramo: sabe quando o âncora chama o repórter, e mesmo depois de ele ter parado de falar o repórter fica alguns segundos na tela sem responder, em silêncio?

É porque ele ainda está ouvindo a fala do apresentador, que chega com atraso por causa do delay.

Ilustrando um pouco mais: sabe aquele torcedor fanático que enlouquece quando ouve na vizinhança a gritaria de gol, mas na sua TV a bola ainda está no meio do campo? É porque ele recebe sinal via satélite, de TVs por assinatura, e seu vizinho tem o sinal direto da emissora local.

Voltando aos pobres repórteres de tv: para não complicar a vida deles nos vivos em rede nacional, a equipe técnica (ou o próprio repórter) desliga o retorno de áudio quando ele começa a falar. Assim evita que se atrapalhe com a própria voz, que chegaria aos seus ouvidos quando ele já estivesse falando outra coisa. Isso gera uma bagunça dos diabos na cabeça de quem está ao microfone, pois o repórter escuta mais alto nos fones o que já falou e fica muito difícil articular o que ainda precisa dizer.

Você também já deve notado situações em que o repórter, logo que começa a falar, faz um movimento inesperado para se livrar do fone, com a sutileza possível. É porque o delay não foi cortado e estava atrapalhando a fala.

Nestas horas, o auto-controle é fundamental para evitar micos monumentais, ao vivo e em cores para todo o pais.

Mas quando dá tudo errado e o delay chega arrasando nos ouvidos do repórter em plena transmissão nacional no horário nobre?

UM MICO NACIONAL!

Foi uma das piores e mais constrangedoras situações que já passei no telejornalismo.

Anos 90. Eu era repórter da RBSTV e tinha sido escalado para minha primeira transmissão ao vivo para a Globo, no encerramento do Fantástico. Participaria de uma sequência de vivos com outros repórteres de várias regiões descrevendo o movimento nas rodovias no final de um feriadão. Eu seria o último a falar, dando a deixa para o “boa noite” final  dos apresentadores.

Como se não bastasse o natural nervosismo diante do desafio, eu estava meio rouco, o que me deixava ainda mais inseguro.

O cinegrafista Jeferson Rodrigues me posicionou no acostamento da rodovia. Além do microfone na mão direita, eu segurava com a esquerda o watchman, uma mini TV pouco maior que um celular de tela grande, só que bem mais grosso e pesado, e com uma antena telescópica de uns três palmos.

Na cabeça, fones de ouvido com grandes auriculares pretos, unidos por uma haste em forma de tiara. Completando o kit de apetrechos, levava pendurado na cinta da calça por trás, escondida por baixo do paletó, uma caixinha metálica onde estavam conectados os cabos do microfone e os da unidade móvel. Nela havia uma tecla na qual eu podia cortar o retorno de áudio.

Só que eu não sabia disso. Até porque nunca tinha sequer ouvido falar no tal delay.

Na unidade móvel, os técnicos, confiantes que eu estava bem orientado pela produção, aguardavam tranqüilos a contagem regressiva.

Começaram os vivos de outras regiões, que eu assistia pelo monitor de mão, tentando driblar a tensão e não esquecer o texto decorado com números da Polícia Rodoviária, etc.

Ouço pelos fones a apresentadora Sandra Annenberg me chamando. Mal comecei a falar e a baderna se instalou dentro da minha cabeça.

Ouvia o que já tinha falado e não o que estava dizendo. A concentração foi para o beleléu e no lugar dela veio o desespero. Eu só pensava em arrancar os fones de ouvido, mas não tinha mão livre pra isso.

Num gesto brusco e totalmente tresloucado, tentei retirar a tiara dos fones com a mão que segurava o microfone, achando que poderia cometer este desatino sem chamar muita atenção.

Foi uma catástrofe. Parecia que eu tinha me dado um soco em pleno ar.

Para completar o quadro trágico, o movimento desastrado só deslocou a tiara. Ela ficou atravessada na minha cabeça, com um dos auriculares pretos do tamanho de um donut bem no meio da minha testa.

Jeferson poderia desviar a câmera e me tirar da tela, dando chance para que eu me recompusesse. Mas era noite e justamente naquele momento não estava passando nenhum carro. Nenhum!

Ele não tinha o que fazer. Até que, num ato extremo, esgaçou o zoom para alcançar um par de faróis que surgia ao longe na escuridão. Só assim conseguiu me tirar de quadro.

Eu continuava falando em off enquanto me desvencilhava dos fones. Mas a essa altura minha decoreba tinha se esfarelado no meio daquele caos. E o nível de concentração que me restava era próximo de zero.

Consegui articular uma frase truncada de encerramento e devolvi para a apresentadora.

Terminado o trabalho, a equipe me olhava com um misto de constrangimento e piedade. Tinham acabado de presenciar o colega repórter protagonizar um retumbante mico em rede nacional.

Eu me sentia a escória da humanidade. Só queria ir pra casa, cair na cama e me acordar convencido que tinha sido apenas um pesadelo. Como se isso fosse possível.

Na manhã seguinte, saí de casa disposto a não pensar muito no que tinha acontecido.

Antes de entrar no meu carro acenei sorridente um “bom dia” para um grupo de vizinhos do outro lado da rua. Mas a resposta não foi bem o que eu queria ouvir:

– E aí Ricardo, tava bonito ontem no Fantástico, heim?

Putz…