O RABO QUENTE DO GAÚCHO

O ano era 2001. Eu estava passando uma curta temporada no Rio de Janeiro para redigir e gravar o texto de um Globo Repórter produzido pela RBSTV.

Como sempre faço em viagens, levo meu kit chimarrão, pois sem mate não fico. Garanti erva para uma semana, que era o tempo previsto para concluir o trabalho.

Na redação do Globo Repórter, todo mundo tinha sua “quentinha”, uma panelinha de plástico elétrica que aquecia a comida trazida de casa. Mas não tinha nada pra aquecer a minha água.

Não havia chaleira elétrica nem um mísero fogãozinho de duas bocas no setor. O cafezinho vinha de uma máquina no corredor.

Resolvi  aproveitar o horário do almoço e percorrer o comércio do Jardim Botânico, onde fica o prédio da Globo, em busca da minha salvação.

Saí batendo perna procurando por lojas de ferragens na vizinhança. Encontrei uma a poucas quadras.

Pergunto ao vendedor:

– Tem rabo quente?

O sujeito ficou quieto, me olhando muito desconfiado, meio que se afastando do balcão.

– Tem o quê?

– Rabo quente. Sou do sul e esqueci o meu em casa.

A resposta veio brusca, quase agressiva.

– Tem não senhor. Agora me desculpa que tenho que cuidar do estoque.

Virou as costas e saiu resmungando algo incompreensível, desaparecendo por trás da prateleira.

Não entendi a reação do sujeito. Deixei pra lá e retomei  minha busca.

Encontro outra loja bem perto. O vendedor grandalhão  me recebe todo simpático.

– Às ordens, o que o amigo precisa?

– Salve! Quero um rabo quente!

O sorriso de boas vindas se transforma em cara fechada. Silêncio de novo. Ele parece não saber o que dizer. Apoia um cotovelo no balcão, a outra mãozona na cintura e inclina o corpo pra cima de mim, desafiador.

– É pegadinha, é? Que porra é essa?

Senti que o clima pesou.

– Rabo quente, eu só quero um rabo quente. Qual é o problema?

Ele me fuzilou com os olhos e disparou:

– Ó o cara aí ó! Qualé a tua merrrmão??

O colega dele, que observava tudo quieto no caixa, tentou apaziguar o vendedor que já vinha pra cima, pronto pra briga:

– Segura a onda aí meu, vai com calma, ó o patrão lá nos fundo da loja!

Só aí que eu me dei conta que a coisa tinha a ver com o “choque cultural” provocado pelo meu gauchês.

– Tchê, te acalma! Eu só tô procurando um rabo quente! Não conhece aquele apetrecho que a gente enfia na água e liga na tomada, pra esquentar??

O vendedor se desarma num um gesto largo abrindo os braços como quem mata uma charada.

– Ahhhhhhh porrra, o que cê querrr é um ebulidorrrrrrr!

– Um quê?

– E – bu – li – dorrrrrrrrrrrrrrr! Esse troço aqui, ó!

E sacou um bendito rabo quente de uma gavetinha no balcão, dando instruções.

– Cê enfia no bule e ele faishh a água ferrverr, entra em ebulição, morô?

– É esse aí mesmo, amigo, era o que eu tava procurando pra tomar meu chimarrão.

– Porra meu, eu quase saí no braço contigo! Fala assim não, aqui é o Rio, meu!

Saí dalí bem faceiro e inteiro, com meu ebulidorrrr novinho em folha e meu mate garantido.