CASCATA: SOLUÇÃO OU SIMPLES FAKE?

Taí um assunto que o pessoal da imprensa adora falar nos botecos, mas raramente sobre suas próprias experiências. Quando a coisa entra no terreno do “quem nunca?” todo mundo desconversa.

No meio jornalístico, a expressão “cascata” tem muitas definições. Pode descrever tanto um criativo improviso para solucionar questões de narrativa como escancarar uma deslavada falsidade.

É um debate complicado, pois entre brincadeiras e críticas, as opiniões formam um entrevero de questões éticas, técnicas e altamente subjetivas, como a força das circunstâncias e seus efeitos sobre o modo de agir dos profissionais envolvidos na reportagem.

A maioria concorda que a cascata é um recurso no mínimo questionável. Mas não falta quem apele para o atenuante segundo o qual os fins justificam os meios. Ou seja, para contar a história satisfatoriamente, que mal tem forçar um pouco a barra com imagens simuladas ou depoimentos induzidos?

No tele e fotojornalismo é quase uma instituição. Uma ciência inexata que separa os talentosamente criativos dos francamente dissimulados.

Quantas vezes você viu, em reportagens sobre buracos nas ruas ou estradas, aquela imagem com a câmera rente ao chão que faz uma rachadura no asfalto parecer uma cratera lunar? Ou o mesmo recurso usado para agigantar imagens de lixo acumulado nas calçadas? É um hábito tão consagrado que editores chegam a reclamar quando aquele take não é feito. E a cobrança não é só pra cima do pessoal da imagem.

Certa vez tive uma discussão com um chefe porque não quis pedir a policiais que repetissem para a câmera o momento em que desembarcaram das viaturas e foram correndo para dentro da vila de arma em punho em busca dos bandidos. Cena que não tínhamos porque chegamos atrasados.

Cinegrafistas talentosos criam imagens relacionadas ao fato sem falsear; em vez disso, estabelecem uma referência visual.

Exemplo: numa matéria do repórter Ernesto Paglia para o Jornal Nacional em que ele descrevia a vida no conhecido templo budista de Três Coroas, no RS, o repórter cinematográfico Edison Silva fez um plano aberto compondo um quadro com os prédios tipicos daquela cultura, as montanhas e o céu claro e azul. Era a imagem do próprio Tibet.

Há cascatas inocentes, como aqueles reencontros encenados entre pessoas que foram resgatadas por bombeiros, a mãe que teve um parto no taxi e o taxista que a assistiu, a criança retirada dos escombros e o seu salvador, e por aí vai.

Todo mundo sabe que é puro teatro, mas vale a emoção, com a desculpa de que aquilo realmente aconteceu em outro momento.

– Ou não: quantos destes reencontros aconteceriam de verdade se não fosse o estímulo da imprensa movida pela necessidade de explorar o fato? Pois é…

O DESAFIO: FATO X FICÇÃO 

Quantos “flagrantes” você já viu na telinha ou em fotos nas capas de jornais, sem saber que aquela imagem não é a verdadeira, e sim uma reconstituição –  não raro com exageros e adornos de dramaticidade? Incontáveis. A mesma coisa acontece muitas vezes no rádio, com narrativas carregadas com uma dose de adrenalina bem superior à do fato em si, com adjetivações exageradas  só pra dar um “clima”.

Bem, se até a icônica foto da tomada de Iwo Jima pelos EUA na 2ª. Guerra Mundial é suspeita de ser um baita fake (assista o filmão “A conquista da honra”, do Clint Eastwood e saiba como a imagem foi explorada pela mídia norte-americana), então a cascata está liberada e com a chancela da história, não é? Sei não…

Muitos repórteres ( incluindo eu), repórteres cinematográficos e fotógrafos podem atestar como uma reconstituição pode salvar uma matéria que dependia de uma imagem que, por algum motivo, não pode ser flagrada no momento em que ocorreu.

LEVANDO O JACARÉ PARA PASSEAR

Acho válido reconstituir situações também quando há um objetivo maior. Certa vez precisávamos mostrar o trabalho de preservação dos jacarés do papo amarelo. Não tínhamos tempo para viajar e passar a madrugada toda num banhado esperando, sem garantia alguma, que os pesquisadores capturassem os animais para fazer avaliações e as marcações que controlam a quantidade da espécie. A solução veio de um dos pesquisadores, que apostava na matéria para garantir os recursos ameaçados da importante pesquisa.

– E se a gente arranjar um jacaré?

Os pesquisadores buscaram um no Zoológico de Sapucaia do Sul, amarraram a boca do bicho com cuidado, enfiaram num saco adequado e o colocaram na caçamba da nossa camionete. Com o bicho de carona, fomos até um rio próximo num início de noite, e encenamos todo o trabalho. O jacaré, que tinha uma cordinha atada numa das pernas pra não fugir, voltou são e salvo pra casa – no caso, o zoo.

Conheci muitos repórteres cinematográficos que criaram soluções geniais, eficientes e honestas para resgatar ou descrever melhor situações que precisavam ser descritas. Eu mesmo muitas vezes usei referências de cinema ou da literatura para dar roupagens mais atraentes em matérias que precisavam de um brilho a mais, o chamado “molho” que garante o diferencial e salva a reportagem da mesmice.

A questão é até onde se vai para contar a história sem resvalar na ficção sem limites.

Em televisão, a tentação do drama é poderosa. Manter-se no limite da verdade (e da decência) na hora de recriar uma situação que se perdeu, ou que não é possível captar sem ficar horas ou dias de campana, é um desafio tanto técnico quanto moral. A ditadura da imagem é implacável.

É uma discussão sem fim, pois cada situação tem a sua realidade e seus protagonistas. E nesses tempos em que o telejornalismo flerta cada vez mais acintosamente com o entretenimento, abordagens duvidosas tendem a ser cada vez mais comuns – e pior, estimuladas.

Importante lembrar: em casos questionáveis, a responsabilidade é sempre coletiva. Se o repórter cinematográfico ou fotógrafo (a pedido do repórter ou não) fez uma imagem exagerada ou falseada e foi publicada, o repórter e o editor são igualmente responsáveis. Jornalismo é trabalho em equipe.

Este texto contextualiza o assunto para abrir a série Cascatas. As próximas publicações serão uma sequência de outros exemplos verdadeiros desta “arte”.

Aguarde, para rir e pensar.