CASCATA, LIMITE ENTRE O FATO E O FAKE

A pauta: matéria sobre desertificação do pampa, para rede nacional.

Problema: não dá tempo para ir até a região do fato.

Solução: foram até o litoral, mais perto, e gravaram nas dunas algumas imagens fechadas e uma passagem em plano não tão aberto.

Mas alguém da equipe adverte: “ E se não colar?”

Solução: enfiaram na areia uma caveira de boi obtida num açougue por perto, pra dar o toque dramático que faltava.

E pronto. A matéria foi ao ar. Curtinha, mas foi.

Não é piada não, aconteceu mesmo, lá nos anos 80. O causo faz parte dos anais do telejornalismo daquela época…

Quer outra?

Também nos anos 80: uma equipe de TV foi enviada ao interior do estado às pressas para registrar a morte de um cavalo de raça, que valia milhões e pertencia a um magnata da comunicação. O bicho morreu no incêndio do elegante haras onde vivia.

Quando a equipe chegou, o incêndio já havia sido apagado e o cavalo morto removido. O cinegrafista não hesitou: foi lá e tacou fogo nos escombros da baia. Missão cumprida.

Dizem as más línguas de então que a equipe foi enviada para garantir imagens que justificassem o pagamento do milionário seguro do cavalo. Vai saber…

A DIFERENÇA ENTRE O ACEITÁVEL E O FAKE

Todo mundo percebe quando algumas imagens que a gente vê nas reportagens são preparadas, encenadas. Algumas chegam a ser constrangedoras de tão fingidas.

Muitas vezes o recurso da encenação é a saída para descrever algo que só podia ser feito com aquele tipo de imagem. Mas em outras, é pura falta de imaginação mesmo. Ou enganação.

Algumas clássicas: aquela cena indefectível do personagem da matéria caminhando com cara de paisagem, olhando para o nada, mexendo em coisas como um cego tateando, só para sustentar a locução com o texto sobre ele. Ou então os “reencontros emocionantes” do policial que fez o parto na viatura com a mãe com o bebê;  ou do trabalhador honesto  devolvendo ao dono a carteira que ele encontrou na calçada, cheia de dinheiro.

Tem ainda as correrias policiais “reconstituídas”, já que a equipe de TV não chegou a tempo de registrar a perseguição. São situações em que o repórter ou o cinegrafista viram diretores de cena:

– Ó sargento, pega seu grupo e entra correndo por este beco e vem  gritando “Polícia,parado aí!!, de arma em punho, e passa correndo pela câmera, mas sem olhar pra lente, ok? Tem ser bem agitado, valeu? Se não ficar legal a gente faz de novo.

Pois é…Mas este teatro todo faz parte do fazer telejornalismo, no Brasil e no Azerbaijão.

A pergunta é: estamos sendo desonestos com o público?

Não. É televisão. Imagem é tudo. A questão está no bom senso.

Refazer cenas ou recriar situações que são essenciais para contar a história, mas que por algum motivo não puderam ser captadas na hora em que aconteciam é um recurso válido para resgatar o assunto da melhor forma possível.

O que não pode é inventar o que não aconteceu ou exagerar na dramatização.

Tem vezes em que, na hora de reconstituir em imagens uma situação, o pessoal se deixa levar pela teatralidade das ficções e acaba exagerando nas tintas, forçando a barra na representação.  A coisa fica ainda pior porque sempre envolve pessoas comuns, que estão ali porque fazem parte da matéria e não são atores.

É preciso manter o pé na realidade, e evitar a tentação de dar ares de entretenimento ao que só precisa ser jornalismo. O risco de transformar aquela parte da matéria ou toda a matéria num teatrinho bobo é muito grande, pois todo mundo percebe.

E aí vem outra pergunta: vale a pena arriscar a credibilidade pelo showzinho?

O nível de teatralização depende muito da personalidade do repórter e sua equipe. Varia  também conforme a linha editorial do programa.

Em alguns gêneros de telejornalismo, como nos programas de temáticas mais populares , os chamados “sensacionalistas”, mais do que improviso a dramatização é regra. E aí se explica pela natureza do programa.

Mas nos telejornais digamos tradicionais e mesmo nos programas de reportagens, onde se aplica recursos de produção mais elaborados, é preciso muito cuidado para não escorregar nas reconstituições e ferir a credibilidade.

OS CINEGRAFISTAS OBSTINADOS

A busca pela imagem ideal leva cinegrafistas mais criteriosos (e cara de pau) a apelar para a reconstituição na tentativa de garantir as melhores imagens. É saudável estimular esta postura, pelo bem da matéria. Mas desde que não crie situações constrangedoras ou resvale para a falsidade.

Certa vez eu estava com o repórter cinematográfico Jair Alberto na montadora da GM em Gravataí, RS.  Veterano que exalava jornalismo pelos poros e teimoso incorrigível na busca pelo take ideal, não se conformou ao ver que os carros que precisava gravar já estavam todos na carreta de transporte, no portão da montadora, indo embora. Ele não pensou duas vezes. Olhou pra mim e disse:

Jair Alberto

– Ahh não, esses carros são meus!!

Parou na frente do caminhão carregado, e gritou para o motorista impaciente que ele ainda não podia sair. Os fiscais que controlavam o ritmo de saída dos comboios tentaram tirá-lo daí mas não conseguiram. Jair não sossegou até que todos os 10 carros fossem descarregados e subissem novamente na carreta, um a um, para garantir a sequência de imagens perfeita.

LEVANDO DO O JACARÉ NO CARRO DA TV

Já tive que levar jacaré de carona para fazer matéria sobre monitoramento da espécie.

A pauta era no Rio Tramandaí, e tinha que ser à noite. Os biólogos que atuavam num projeto de preservação de jacarés do papo amarelo explicaram que, quando tinham a sorte de encontrar alguns, capturavam os bichos de madrugada, colocavam marcações, anotavam dados e depois soltavam.  Como não havia garantia de encontrar jacarés, eles sugeriram simular o trabalho no local, mesmo sem captura.

Ponderei que sem mostrar jacaré não daria. Ficaria falso demais.

Ansiosos pela importante divulgação que a matéria proporcionaria, os próprios biólogos trouxeram (literalmente) a solução. Arranjaram um jacaré de 1,5m que estava em cativeiro, e com ele na caçamba da camionete da TV, fomos para a estrada.

Chegando ao local, os pesquisadores amarraram uma corda na cauda do réptil e o soltaram na água, para que fizéssemos as imagens do trabalho de “busca”. Nós gravando na margem, e eles embarcados num pequeno bote, vasculhando o rio com lanternas.

A “captura” aconteceu, a “soltura” também. E a matéria ficou bem bacana. O projeto de preservação ganhou a merecida divulgação, e todos, incluindo o jacaré, voltaram sãos e salvos para Porto Alegre poucas horas depois.

Imagem é tudo…

Levando o jacaré para passear