CARA A CARA COM OS PUMAS!

Estávamos gravando um Globo Repórter na Argentina. Era o primeiro programa inteiramente produzido pela RBSTV . Eu era o repórter. Na câmera, Eduardo Mendes, tendo como auxiliar técnico Felipe Silveira, que também era o motorista. Na coordenação da equipe, o editor do Núcleo Globo da RBSTV, Saulo de La Rue.

Era o inverno de 2002. A pauta, uma aventura ambiciosa: uma viagem pelos Andes, partindo de Uruguaiana, no RS, atravessando a Argentina e indo até Deserto de Atacama, no norte do Chile. Um mês de estrada.

Um dos principais destaques da reportagem era o perigoso trajeto pela rodovia que subia os picos da cordilheira entre a Argentina e o Chile.

Azeredo, Saulo, Felipe e Mendes

No inverno, as nevascas freqüentemente bloqueiam a estrada. Havia muitas histórias de gente que ficou isolada em algum trecho inóspito nas alturas, e que, ao sair dos seus veículos, acabou sendo atacada pelos pumas. Um dos maiores felinos das Américas, a fera, típica da região, vai longe em busca de alimento na escassez do inverno, e acaba se aproximando das rodovias.

Como era esperado, a neve impediu nossa subida. Existe um sistema de alerta da polícia rodoviária argentina que monitora permanentemente o clima. Ao detectar risco de nevascas, as autoridades retém o tráfego nas cidades localizadas mais abaixo na Cordilheira, para impedir que motoristas fiquem isolados e morram de frio, ou fiquem à mercê das feras nas montanhas. O mesmo acontece no lado chileno.

Ficamos aguardando que o tempo melhorasse, estacionados num posto de combustíveis à margem da rodovia em Mendoza, na Argentina. Era um concorrido ponto de concentração de caminhoneiros. Observamos alguns caminhões que chegavam do Chile, com as lonas e caçambas sobrecarregadas com grossas camadas de neve.

Os motoristas traziam relatos assustados com a situação. Falavam do medo de ficar parados e congelar nas cabines. Desembarcar para fazer necessidades, nem pensar: com os pumas por perto, era melhor ficar trancado na boléia, segurar o apuro ou se aliviar numa garrafinha.

A estrada só foi liberada no dia seguinte. Subimos a cordilheira passando por vários caminhões que derramavam sal na pista, artifício que atenua a formação de gelo sobre o asfalto. Helicópteros de resgate sobrevoavam todo o trajeto, de prontidão para alguma emergência.

Subindo os Andes gélidos

Algumas horas depois paramos em um “parqueadero”, local onde os caminhoneiros estacionam para descansar. Ouvimos ali mais algumas histórias sobre os perigos daquela rota, incluindo a ameaça dos pumas. Colhemos vários depoimentos.

E agora? Como contar essas histórias sem a participação do bicho? Imagens de arquivo tipo Animal Planet seriam uma saída frustrante.

ONDE ARRUMAR PUMAS SELVAGENS PARA A CENA IDEAL?

Quem tem experiência em reportagens sobre vida selvagem sabe que é extremamente difícil fazer imagens de felinos em seu habitat natural. São muito arredios e desaparecem quando percebem de longe a presença humana. As raras aparições só acontecem quando a escassez de alimentos os leva a se aproximar de fazendas. Ou quando o cinegrafista tem tempo para ficar semanas camuflado em algum buraco à espera do flagrante de alguns segundos.

Foi quando tivemos a ideia de perguntar a um guia turístico da região se havia algum zoológico por perto. A resposta foi bastante animadora: na província de San Luis, a uns 200km de onde estávamos, havia uma área de preservação onde pumas eram mantidos numa espécie de viveiro que reproduzia o ambiente natural.

“Tá resolvido! Vamos até lá e gravamos imagens deles, mesmo que sejam animais em cativeiro. Depois a gente dá um jeito de explicar”, eu disse, exultante.

O Parque La Florida é uma reserva ecológica estadual onde pumas são mantidos em cativeiro para que se reproduzam e depois sejam reintroduzidos na natureza. A espécie está sob ameaça de extinção. A sanha dos caçadores fez os pumas passarem de predadores a presas.

Fomos recebidos pelo administrador, Carlos Escobares, um tipo muito simpático, com a pele morena e a cabeleira negra e farta típica dos andinos.

Explicamos nossa missão e perguntamos se haveria problemas em fazer imagens dos pumas que eram mantidos ali.

“Problemas? Não, nenhum. Venham conhecer a Margarita!”

Nos levou a uma jaula de telas grossas, um espaço de cerca de 8x8m com pedras e uns arbustos simulando o habitat natural do puma.

Ali vivia Margarita, uma puma tão feroz que era mantida isolada.

Assim que viu nossa equipe se aproximando o bicho assumiu posição de ataque, rosnando ameaçadora com as orelhas deitadas para trás e os enormes dentes à mostra. Olhei para o administrador do parque e perguntei:

“Não é melhor gravar meio afastado da tela?”

Ele sorriu e fez um sinal como quem diz “esperem aí e vejam!”.

Para nossa total surpresa Carlos calmamente abriu a jaula e entrou.

A enfezada Margarita foi até o homem como um gatinho e passou a ronronar com a cabeça apoiada na perna dele, que agachado fazia despreocupados cafunés na fera.´

“Tudo é uma questão de carinho, de fazer um joguinho com o animal”, dizia ele para a câmera – o repórter cinematográfico Eduardo Mendes não perdeu tempo e começou a gravar na hora em que Carlos entrou na jaula. Vai que a puma perde a linha…

Ele sai, dá um tchauzinho para Margarita e nos pergunta se queremos mais pumas.

CARA A CARA COM AS FERAS

Diante do brilho nos olhares da equipe, nos leva até uma espécie de viveiro, muito maior que o da Margarita. No espaço com um pequeno morrinho no meio, árvores, rochas e vegetação rasteira, viviam quatro pumas adultos. Três nasceram no Parque La Florida.

O cenário, embora de confinamento, era perfeito para mostrar os felinos em seu habitat.

“Pena que tem a tela atrapalhando as imagens”, comentei. Carlos resolveu a questão no ato:

– Não seja por isso. Vamos todos lá pra dentro!

Parecia piada, mas não era. Chamou pelo rádio dois funcionários que logo chegaram carregando baldes com carne de cavalo fresca.

“Não se preocupem, antes de vocês entrarem a gente joga uns bifes pra eles. E aí os pumas não vão incomodar.”

Ficamos pensando no que ele quis dizer com “incomodar”…

Topamos o desafio e entramos. Com os olhos arregalados, mas entramos.

Ficamos bem agrupados junto da porta, que ficou entreaberta para o caso de todo mundo ter que sair voando dali de dentro.

Sentíamos um misto de tensão e fascínio. Permanecemos em grupo, sussurrando e gravando com a câmera no tripé.

Fomos ganhando confiança e pedimos para os funcionários jogarem os pedaços de carne mais perto de nós para garantir uns bons closes.

“Mais perto, mais perto!””

Os pumas vinham a menos de três metros do nosso grupo. Desconfiados, eles abocanhavam os bifões e se afastavam.

Satisfeitas com a refeição tão imprevista quanto bem vinda (e providencial para nós), as feras se afastaram para ceder à preguiça pós-almoço na sombra sob os arbustos.

Aproveitamos para gravar muitas imagens de pumas bocejando, subindo e descendo o morrinho, espreitando entre os arbustos, olhando para nós com ar de superioridade. Um belo clip à là National Geographic. Ou quase isso.

Na edição final, o texto em off citava a ameaça dos pumas em clima de suspense, mostrando, com o reforço de uma trilha musical tensa, as feras como se estivessem à solta em busca de presas fáceis. Só mais adiante na reportagem, depois de criada a sensação de medo que o roteiro pedia, a narrativa explicava que os bichos “flagrados”estavam em cativeiro para fins de proteção da espécie.

A encenação funcionou perfeitamente no ponto em que era necessária na reportagem, preservando o clima da narrativa e a verdade.

Todo mundo saiu ganhando. Incluindo os pumas, felizes e empanturrados.