BRUNA OSTERMANN

BRUNA OSTERMANN é jornalista formada na PUCRS, onde começou a sentir o gostinho da profissão nos estágios internos: a extinta TV Foca (onde iniciou a prática do telejornalismo) e o Centro de Produção Multimídia.  Foi produtora e apresentadora da previsão do tempo na BandRS e repórter e editora na
RBSTV de Santa Cruz do Sul e Lajeado. Em janeiro completa 4 anos no SBT RS, onde começou na produção e edição e hoje é repórter dos telejornais locais, com participação nos programas de rede.

. Porque telejornalismo?

Me matriculei na faculdade querendo trabalhar em jornal impresso. Tive uma “quedinha” por rádio, mas foi quando fiz o estágio de TV da Famecos que me descobri. Me apaixonei pela magia que existe em criar um texto, encaixar com a imagem e a sonora (entrevista). Tudo isso faz do telejornalismo uma fonte incalculável de possibilidades, de
criatividade, de formas de informar.

. Antes de ser repórter, foste produtora do programa Brasil Urgente, na BandTV RS. Que lições esta experiência te proporcionou?

Perdi meus preconceitos. Antes de trabalhar no Brasil Urgente RS, confesso que nunca tinha assistido a um programa policial, exceto o Linha Direta (programa da Globo nos anos 90 que reconstituia casos policiais), mas não dá pra considerar como jornalismo hard news). Eu topei o desafio porque queria muito fazer TV. Mas foi um desafio muito bacana porque trabalhei com alguns dos melhores profissionais que já conheci: um certo Ricardo Azeredo (pra quem já produzi muitas matérias e me ensinou muuuito!), a Alline Goulart, que também foi uma baita chefe, o Danilo Teixeira – que acabou me dando uma oportunidade mais tarde e virou meu chefe aqui no SBT. E o principal
que eu aprendi com esses e outros tantos excelentes profissionais, foi que o jornalismo policial não precisa ser sensacionalista. A gente pode mostrar algo duro e triste, algo cruel, sem ser “abutre”. Aprendi a ver a importância desse tipo de jornal para conscientizar e alertar. Isso é o mais importante.

. Como foi a transição de produtora estagiária para repórter profissional?

Pra mim não foi tão difícil porque eu já fazia a previsão do tempo na Band. Lá eu me acostumei (um pouco) com o vídeo, mas sempre tentava incluir informações na previsão – conteúdo além de sol ou chuva e temperaturas. Mas me lembro muito bem, como se fosse ontem, da primeira matéria que eu fiz. Foi em Santa Cruz, sobre o inverno que não estava tão rígido e por isso as lojas estavam adiantando promoções.


. Qual foi a situação mais tensa que já encarou na reportagem?

Quando eu trabalhava de madrugada, a gente fazia bastante factual. Em termos de tensão, foi o caso de um bebezinho que havia sido queimado com água pela própria avó. Quando cheguei no Pronto Atendimento, vi a criança e fiquei muito chocada. A poucos metros, estava a idosa. E aquilo me chocou. Não é necessariamente tenso, mas foi o fato que mais me impactou pela crueldade e como o poder público
tem pouca capacidade de defender crianças.

. E a mais gratificante?

Mais gratificante é quando nossa reportagem faz a diferença na vida de alguém. Eu sempre digo que, se eu consegui mudar a vida de uma pessoa, de alguma forma, já valeu a pena. Parece demagogia, mas sinceramente, fazer algo de bacana pra outra pessoa nos traz um sentimento muito bom. De dever cumprido. Destaco um caso bem recente de uma mulher que penou com a burocracia pra conseguir um remédio que o SUS não oferecia nos casos dela, e quando, finalmente, conseguiu, o hospital disse que não poderia aplicar. Resultado: a mulher, que tinha câncer em metástase, estava guardando duas ampolas de 20 mil reais na geladeira. Um absurdo! Fizemos uma reportagem, que foi ao ar no jornal das 11h40. Na primeira hora da tarde o hospital nos ligou pra dizer que marcaria a aplicação para o dia seguinte. Claro que é triste pensar que a imprensa precisa interceder para que algo básico funcione. Mas, quando isso precisa acontecer e atingimos nosso objetivo, garantindo tratamento e até mesmo mais tempo de vida para alguém, é gratificante. Eu acredito muito no papel social do jornalismo.


. Que tipo de reportagem empolga mais?

Sou mulher de fases,hahahah! Antigamente eu curtia muito um bom factual. Mas confesso que hoje sou mais “good news”. Adoro contar histórias bonitas, de superação. Ou até uma que não seja necessariamente positiva, mas que tenha algo a ensinar para quem for assistir. O que eu amo mesmo é contar histórias. Tanto que meu maior
ídolo é o Marcelo Canellas – o melhor contador de histórias do jornalismo brasileiro, na minha opinião.

. Qual é a reportagem que ainda sonha em fazer?

Sabe que eu não sei? Agora estou me aventurando no entretenimento. Também faço parte da equipe do programa MasBah! Mas confesso que já fiz mais do que sonhei em fazer em apenas 5 anos e meio de formada. Realizei grandes coberturas  – como a queda do avião da Chapecoense, ano passado. Aliás, tive a sorte de cobrir até o fim, com a volta do sobrevivente Alan Ruschel pra casa. Também cobri fatos importantes, como a morte do cantor Belchior aqui no RS. Cobri eleições, Copa no Brasil, entrevistei todos presidenciáveis na última eleição.
Talvez a única matéria que ainda quero fazer tem a ver com usuários de drogas. Foi sobre esse assunto o meu TCC e ainda não tive oportunidade de realizar essa reportagem. Acho que justamente porque vejo como um assunto muito delicado e às vezes banalizado, reduzido. Quem sabe essa grande matéria está me esperando?


. O SBT/RS faz concorrência direta com a RBSTV e a Globo, se mantendo em segundo lugar na audiência. Como te sentes no meio deste combate?

O objetivo do SBT é ser segundo lugar. Isso até mesmo o Silvio Santos diz. Mas é óbvio que quando a gente pode disputar de igual pra igual com uma superpotência como a Globo em nível nacional e aqui no sul com a RBS. é incrível! Em termos de RS, temos uma equipe muito enxuta. Mas, sinceramente, não é porque estou aqui, mas todo mundo pega junto. E assim, obtemos resultados impressionantes, consolidando o segundo lugar. E o mais importante: com uma programação comprometida com a ética e a responsabilidade.

. Como tu te preparas para o dia a dia da reportagem?

Eu sou uma telespectadora convicta de telejornais. Assisto muito. Dali eu tiro muita inspiração, informação, conhecimento. O dia-a-dia é aquela correria louca que eu adoro! Não existe rotina, então acho que não tem muito como se preparar.  Mas acho que o principal é isso: estar sempre bem informada – mesmo que seja um assunto que não me interessa. Ouço rádio no carro, quando acordo também já ligo no app do celular… E acho que é isso! Óbvio que jornalista tem que estar sempre atento. Mas também acho que precisamos desligar às vezes. Nossa
profissão exige muito de nós, física e emocionalmente. Vejo importância em desopilar.


. Qual é a tua visão sobre a relação do repórter com a sua equipe de externa e com a redação?

São os pilares para que um repórter consiga realizar o seu trabalho com qualidade. Eu sou uma pessoa muito exigente com meu trabalho. E com o dos outros também. Pra mim, ainda é um desafio esse tipo de relação. Mas cada dia tem um aprendizado. É importante que o repórter entenda as peculiaridades de cada profissional, mas é legal também que os colegas entendam a forma com nós repórteres trabalhamos. O ideal é quando existe esse equilíbrio. Por sorte, vivo isso. Entrei numa sintonia muito boa com a equipe com que trabalho diariamente. O produtor Rafael Dreyer já sabe o que eu preciso, entende meus pedidos. E a Mônica, que é a outra produtora, também. Ela já identificou, por exemplo, as matérias que eu faço bem e gosto e as que o repórter Marcelo Chemale faz. Acontece o mesmo com os editores. Entendem meu estilo e respeitam, sempre colaborando pra melhorar. Não cortam meus “naipes”, hahahah! Acho isso muito legal, porque meu estilo de jornalismo não é da velha guarda, dessa escola de grandes jornalistas que fizeram história até agora. Eu sou uma jornalista que gosta de leveza, de um texto bacana, gosto de emocionar… Gosto de quebrar um paradigma aqui, outro ali! Sou daquelas que acredita que é melhor tentar e errar, do que nunca tentar e “não mexer em time que tá ganhando”. Gosto mesmo é de desafios! E por fim, também tenho uma conexão muito boa com minha equipe de externa. Trabalho com um dos melhores cinegrafistas do RS, o Dagoberto Rocha, o que facilita muito meu trabalho! Mas o mais importante é que
a gente trabalha 100% juntos! Ele me dá sugestões, eu dou também. Ele faz imagens lindas, com sensibilidade. Já brigamos? Já! mas acredito que seja comum, numa relação diária e intensa como esta.


. O que é mais importante no olhar do repórter?

Eu acho que é a empatia. Temos que nos colocar no lugar das pessoas que estamos entrevistando. Sejam elas vítimas ou réus. Muitas vezes a gente entra na intimidade de alguém, então precisamos de sensibilidade e sutileza. E por fim, outro ponto importante é buscar algo além. O óbvio sai em todos os noticiários. Acredito que tem espaço pra todo mundo que procura sua identidade e mostra o que vê com olhar diferente. Cavocar, cavocar, até sair aquela manchete, aquela sonora pra encerrar o VT, aquela frase que pode emocionar a pessoa que está em casa. E já que citei cobertura da Chapecoense, vou dar um exemplo. Quando entrevistei o Alan Ruschel, menos de um mês depois da tragédia, ele já tinha dado entrevista para o Fantástico, para a Record, para tudo que era rádio… O que ele falaria de diferente pra mim? Fiz as perguntas obrigatórias e veio o que ele já tinha dito pra todo mundo. Claro que coloquei no VT. Mas fui indo, indo, até que mencionou que se casaria em 2017, tendo o goleiro Fohlmann (outro sobrevivente) como padrinho. Ele não tinha dito pra ninguém. Esse trecho foi pra todos os jornais da casa e foi o que deu meu toque na cobertura. Cá entre nós, foi bem emocionante.


. O que espera do jornalismo?

Espero que o jornalismo continue mostrando sua importância – com youtube, redes sociais, todo mundo pode produzir conteúdo. Mas cada vez mais tenho certeza que para o conteúdo ter qualidade e ser confiável, é necessário um jornalista por trás. Mesmo que seja nos bastidores. Também espero que o jornalismo evolua. A partir da tecnologia, o jornalismo precisa se reinventar. E esse é desafio da minha e das próximas gerações. Acho que precisa ser mais próximo das pessoas – e isso já tá acontecendo! Basta ver como o Jornal Nacional mudou, ficou mais informal. O jornal que fica em primeiro lugar no SBT é o Notícias, que é de madrugada, e tem uma informalidade, um caquinho… Sou fã! – e não é porque um dos apresentadores é meu melhor amigo, hahah! Enfim, acho que o jornalismo também precisa dar espaço pra matérias leves, positivas! A gente tem que acreditar que o mundo pode ter jeito!