ATENÇÃO! LUZ, CÂMERA, ONÇA… AÇÃO!

Mais um glorioso causo de cascata que salvou a matéria, daqueles que já entraram para os anais do jornalismo pampeano, embora o causo trate de reportagem de rede nacional.

Anos 90. Uma onça andava rondando fazendas em Mato Grosso. Havia vários relatos de ataques ao gado e pequenos animais domésticos. Já se falava em pessoas que viram o bicho e escaparam por pouco. Alguns diziam que teve gente arrastada para o mato pelo monstro e nunca mais apareceu. A boataria estava ganhando ares de pânico geral.

O assunto cresceu e chamou a atenção da imprensa. A Rede Globo acionou sua equipe na região. Queria um detalhado registro da ameaça e do clima de terror entre a população local.

E claro, exigia imagens impactantes da fera.

Quem tem experiência em reportagens sobre animais selvagens sabe que fazer imagem de onça no seu ambiente natural é um desafio quase impossível. Os felinos são arredios; sentem de longe a presença humana e somem nas profundezas das matas. Só saem de lá e se aproximam das localidades quando a comida no seu habitat está escassa e a fome aperta pra valer.

Mas a obstinada equipe da Globo não aceitaria um não da natureza como resposta. Ainda mais sendo composta por um repórter de rede famoso por suas soluções pouco ortodoxas para dificuldades na execução da pauta, e um cinegrafista igualmente criativo e determinado. Ambos gaúchos.

Os nomes serão preservados em nome de suas brilhantes trajetórias profissionais. Muita gente pode não interpretar bem os artifícios que eles usaram para garantir a reportagem.

Passaram-se dias de caminhadas com mateiros, biólogos, e nada de onça.

A Globo começou a ficar impaciente com a demora e o excessivo consumo de diárias. E determinou: se não saísse flagrante logo, os dois teriam que fechar uma matéria mais simples relatando o clima entre a população local, e voltar para a base. Depois os editores iriam avaliar se o material mereceria um espaço no Jornal Nacional.

Diante do ultimato, a equipe decidiu não se entregar. E tratou de pensar numa solução imediata para não voltar sem uma grande manchete para o JN.

Investigando com os moradores, descobriram que um fazendeiro das redondezas tinha uma onça cativa, domesticada, que vivia na propriedade como bicho de estimação. Encontraram o sujeito e o convenceram a ajudar naquela missão.

O plano: sacrificar algumas galinhas, esfregar a carne e o sangue em árvores e arbustos numa área de mata dentro da propriedade, onde as imagens pudessem ser feitas com toda tranquilidade.

Não deu outra. A onça da casa fez o seu papel no cenário preparado, e a equipe obteve suas imagens, com o “flagrante” da fera “rondando” as propriedades. Estava garantida a emoção que faltava à matéria, e também o cobiçado espaço no Jornal Nacional.