AS TEIMOSAS PASSAGENS BANAIS

O repórter cinematográfico José Henrique Castro, com quem trabalhei muitos anos na RBSTV e hoje é um dos cinegrafistas top da Rede Globo no RJ, costumava dizer que a passagem (quando o repórter aparece falando) representa 50% por cento numa reportagem de televisão.

A frase tinha um certo e deliberado exagero para reforçar a importância da intervenção do repórter no aspecto visual e de conteúdo da matéria.  José Henrique queria destacar que a combinação de informações relevantes com a imagem do repórter emoldurada pela composição de cena mais adequada e criativa dava muito mais força à reportagem.

Todo bom cinegrafista e todo repórter de TV experiente sabe disso.

Porque então muitos repórteres, inclusive veteranos, continuam gravando passagens banais, mesmo em reportagens bem conduzidas em conteúdo e ritmo?

Ainda hoje resiste um conceito tão arcaico quanto equivocado de que a passagem serve basicamente para registrar a presença visual do repórter dentro da matéria. Coisa do telejornalismo dos anos 50, mas que continua sendo levada a sério por muitos profissionais que simplesmente não conseguem entender que aquele é o momento em que o repórter deve dizer a que veio, ou seja, marcar a condução da matéria com uma intervenção consistente e mais elaborada possível.  É a própria assinatura do profissional.

Um mandamento básico na construção de uma boa reportagem  de TV é o que estabelece que o repórter deve guardar para a passagem uma informação crucial – se não a mais importante, pelo menos aquela que conduza ao climax da matéria.

No entanto, continuamos a ver repórteres novatos e tarimbados aparecendo no vídeo só para dizer que “o ambiente está agora assim, completamente vazio” ou “o prédio acabou assim, totalmente destruído”.  E ainda exageram na tonalidade, na ilusão de reforçar a imagem.

São dois erros no mesmo momento: desperdiçar a intervenção do repórter com informações irrelevantes e narrar, muitas vezes com dramatismo desnecessário, o que as imagens estão mostrando.

Repórteres mais calejados precisam confiar mais na sua capacidade criativa – evitando, claro, performances exageradas ou falsas – e discutir com o repórter cinematográfico a melhor forma de realçar a informação mais importante.  E os novatos tem que entender que a imagem e o trabalho deles ganhará mais personalidade se souberem aproveitar as passagens com falas consistentes e inventivas, sem medo de ousar.

Cabe também aos editores alertar os repórteres para estes aspectos. Todos saem ganhando.