AS REDES, A IMPRENSA E A INQUISIÇÃO

Há alguns dias, William Waack disse, por conta da repercussão daquele comentário infeliz que levou á sua saída da Globo, que a imprensa é cada vez mais pautada pela histeria das redes sociais e das sandices do politicamente correto.

Sem dúvida nenhuma as redes tem exercido um papel cada vez mais assustador como tribunal de inquisição à serviço da insensatez geral e da falta absoluta de critério que leva as pessoas a compartilhar cegamente as maiores bobagens perpetradas na web.

A imprensa gaúcha tem dois exemplos recentes sobre os quais deve se debruçar para avaliar o quanto está se afastando do seu papel fundamental de apurar a verdade com a maior precisão possível, sem se deixar levar pelas pressões das redes sociais.

Primeiro, temos o caso do tal “bruxo” de Gravataí que foi preso, com outras quatro pessoas, acusado de esquartejar duas crianças para a execução de um “ritual satânico” encomendado por clientes em busca de prosperidade.

O caso mobilizou intensamente a mídia gaúcha por mais de um mês, por conta do apelo dramático da história diabólica e todos os demais temperos que estas lendas bizarras trazem.

Tal como no emblemático caso da Escola Base, o ponto de partida para a ofensiva avassaladora da imprensa (reverberada estrondosamente nas redes) foi a declaração de um delegado interino destrambelhado, que neste caso atribuiu à “revelações divinas” as pistas que o levaram a prender os suspeitos e criar uma história estapafúrdia que a mídia engoliu.

Com a volta do delegado titular, se constatou que nada daquilo tinha sustentação.

E o caso, como a própria imprensa decepcionada noticiou depois à exaustão “voltou à estaca zero”.

Os “suspeitos”, depois do inevitável e impiedoso linchamento público, foram soltos. E os corpos desmembrados das duas crianças continuam um mistério sem nenhuma pista concreta até agora.

Outro exemplo: no ano passado, ganhou grande repercussão o caso de um casal homoafetivo que foi ás redes e à imprensa gritar contra agressões que teriam sofrido durante um baile de debutantes,  no sofisticado Clube Leopoldina Juvenil, em Porto Alegre.

Alegaram que foram chutados, esmurrados e expulsos do baile pela família da debutante .

Esta semana o caso foi arquivado por absoluta falta de provas das agressões.  Não houve nenhuma testemunha no salão lotado. E os exames de corpo de delito não deram em nada.

A família da menina foi exposta ao tribunal feroz e insano das redes sociais e também na imprensa, que mesmo usando nas matérias todas as safadas variantes do tipo “teriam”, poderiam”, participou do fuzilamento público da família.

Tem algo muito errado nisso tudo.