AS NARRATIVAS MODERNINHAS E A LINGUAGEM JORNALÍSTICA

Você deve ter notado uma mudança nos textos dos repórteres de TV e de rádio nos últimos tempos. Há uma clara tendência de deixar as matérias mais “soltinhas”, com expressões mais coloquiais, entonações mais leves, e até mesmo um inusitado uso de gírias e neologismos da moda.

Os verbetes da web também estão invadindo as locuções, numa tentativa de tornar mais atraentes os nem sempre palatáveis assuntos da pauta diária.

Nas redes de TV, a Globo deu a largada neste processo a uns dois anos, trazendo para o primeiro time de repórteres do Jornal Nacional profissionais desconhecidos do grande público, mas que chegaram marcando presença com um estilo diferente do usual.

Essa foi a aposta: dar uma repaginada – ainda que sutil – no telejornal, quebrando um pouco  a imagem quase vetusta do noticioso de repórteres veteranos com paletó e gravata e suas falas solenes direto de Brasília.

O JN acrescentou ao seu grupo garotões descolados, com visual charmoso e identificados com o público mais jovem. Deu liberdade de narrativa, com textos mais fluídos e intervenções cheias de maneirismos antes impensáveis no padrão JN.

Mas a Globo não é besta. Os recém chegados no ambiente tradicional do Jornal Nacional são bons repórteres, e não bonitões vazios e bonitinhas desmioladas recrutados para acrescentar matérias engraçadinhas ao telejornal. A linguagem mais desenvolta, recheada de recursos eletrônicos na edição, deu uma arejada e tanto no programa. E como sempre acontece, serviu de parâmetro para as outras redes, multiplicando o estilo também nas emissoras locais.

O problema está na liberdade de narrativa. Hoje vemos, na TV e no rádio, repórteres e apresentadores  sentindo-se  à vontade para falar nas matérias quase como se estivessem relatando um assunto qualquer numa rodinha de bar.

A busca por um clima mais leve nas narrativas está levando muita gente a desafiar o bom senso e a própria gramática. Repórteres mais jovens, os millenials filhos da era web, acham natural utilizar em reportagens para o púbico em geral expressões que se aproximam perigosamente da linguagem abreviada e cheia de códigos das redes sociais.

O uso de gírias também rompeu limites antes intransponíveis no hard news, e agora passam batido. Outro dia ouvi uma repórter de rádio fazendo um prosaico boletim de trânsito, onde definia a condição do tráfego naquele momento como “cabulosa”.

Tem sido comum também usar “tar” em vez de “estar”, e outras corruptelas típicas da linguagem coloquial.

Penso que é preciso estabelecer limites para as modernidades nas locuções e para a tendência de tornar o jornalismo cada vez mais entretenimento. É natural e desejável que a linguagem se adapte aos tempos e seja sintonizada com o público. Porém é preciso muito cuidado para não atropelar a qualidade da informação banalizando a linguagem e sacrificando a gramática em nome de uma suposta aproximação com a audiência.