ALEXANDRE KIELING

ALEXANDRE KIELING foi um dos mais importantes repórteres da RBSTV nos anos 80 e 90. Além de integrar o Núcleo Rede Globo da emissora, foi responsável por programas especiais e muitas reportagens investigativas de grande repercussão. Jornalista formado pela Universidade Federal de Santa Maria, no final dos anos 90 passou a se dedicar á vida acadêmica. Tem especialização em Cinema e TV, mestrado e doutorado em Ciências da Comunicação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos.

Desenvolveu pesquisa sobre interatividade na TV, tendo feito estágio doutoral na Sorbonne Nouvelle Paris 3 , na França, sob a orientação do Professor François Jost. É professor do Programa de Mestrado em Comunicação e da Graduação em Comunicação da Universidade Católica de Brasília. Tem experiência em produção e gestão de realização audiovisual, especialmente em televisão. Atua e pesquisa os campos da digitalização das mídias, TV digital, televisão brasileira, interatividade, narratologia, conteúdos audiovisuais, conteúdos digitais. Coordena o Grupo de Pesquisa que estuda os conteúdos Digitais e Interativos.

Qual é o perfil de profissional que as faculdades buscam formar hoje?

Todos os cursos de graduação em jornalismo estão se adequando as novas diretrizes curriculares. Alguns já implementados e outros em fase de implementação. Essas novas diretrizes buscam contemplar o audiovisual em todos os formatos de difusão e o jornalismo online. Todavia as configurações que o jornalismo vem ganhando, em ambientes de rede, estão numa velocidade bem maior.

– Como o universo das redes sociais está impactando no ensino de jornalismo?

É inevitável tratar e acompanhar esse ambiente. Hoje, felizmente, já há uma reflexão bem mais crítica sobre a pretensa liberdade e funcionalidade das redes sociais. Uma discussão que transcende o deslumbramento inicial e aponta para os efeitos maléficos do maniqueísmo ditado pelos algorítimos. O ponto de barreira é sempre a maturidade de todas as gerações no trato da necessidade e do utilitarismo da tecnologia.

– A proliferação das faculdades de comunicação ajuda ou prejudica?

Creio que esse fenômeno tende ao reequilíbrio. Há muitos cursos que serão descontinuados a partir de 2018. Não há mercado para tantos diplomas de jornalista.

– Uma critica antiga às universidades é a distância entre o mundo acadêmico e a realidade da atividade profissional na rua. Ainda existe este hiato entre teoria e prática?

Esse descompasso vai existir enquanto o setor produtivo não se aproximar da academia e esta for receptiva. Não há mais espaço para uma sociedade de grades guetos. Os problemas são muitos e gigantes para seguirmos na tese de que a academia só teoriza e o mercado é só quem faz. Muitas das nossas organizações recentemente pagaram importantes cifras para consultores de universidades americanas. Antes pagavam para os europeus. Apesar de alguns resultados a maioria ficou distante da performance dos concorrentes dos EUA que tem entrado com força no mercado brasileiro e começam a meter a mão nas joias da cora do setor. Trabalhar com quem conhece a cultura local, por parte das empresas, e ouvir as demandas do mercado, por parte da academia, não é apenas uma necessidade hoje é estratégia de sobrevivência do setor.

– O mercado da comunicação busca cada vez mais profissionais jovens em detrimento dos veteranos. Como isso repercute no ambiente acadêmico?

Essa tendência está vinculada a duas premissas, a meu ver, pouco sólidas à luz de uma análise mais apurada da relação entre as escolhas e os resultados. As premissas são: primeiro o estafe gestor que geralmente é renovado com a nomeação de profissionais jovens e com formação no estrangeiros de onde vem com muitas ideias que lá aparentemente deram certo; a segunda premissa é a noção de inovação que é muito equivocada na maioria das vezes. Em geral, a combinação das duas leva a propostas de grandes voos, grande mudanças, grandes rupturas sempre ancoradas em hipóteses que excluem ou desconhecem contextos e conjunturas locais. Estas escolhas vão gradualmente enfraquecendo o modelo de comunicação e o próprio negócio ao ponto de produzir uma perda de identidade e de essência. Todos de uma hora para outra querem gerar uma “the killer application”, desejam, uma sacada de facebook, google, amazom, etc. Os alertas dos mais experiente são considerados como reação e obstáculo ao mundo mágico. E a única coisa mercadológica que tinham, que era produzir notícia, que era a capacidade de fazer jornalismo (independente de contemplar ou não as agendas de interesses, o que sempre haverá), vai se perdendo. O mixer entre experiência e arroubo (ou mesmo ousadia) se perde. Quando se dão conta estão no limbo de identidade e a alternativa é mudar de ramo. Só que o jornalismo vai sendo ocupado pelas organizações estrangeiras que sim usam esses equívocos locais como espaço de expansão.

– A realidade do mercado mostra que a obrigatoriedade do diploma, embora legalmente exista, é cada vez mais burlada. Como isso está repercutindo nas faculdades de jornalismo?

Não creio que a necessidade da uma lei vá determinar o fim da necessidade de uma formação superior em jornalismo. É da natureza da atividade uma qualificação e uma capacitação no campo das ciências sociais aplicadas na sua disciplina específica que aborda competências e habilidades próprias. O que vai salvar o jornalismo das máquinas sujeitas às práticas de dominação é a autonomia intelectual do jornalista e seu compromisso com a deontologia da profissão. Isso não dá para programar num computador. Nenhum algorítimo vai dar conta da dimensão filosófica da moral, da ética e, sobretudo, da estética.

– As faculdades de comunicação estão aproveitando as facilidades que a web e as novas tecnologias oferecem para gerar conteúdo com as atividades dos alunos?

Sim, em quase todas a produção discente é publicada em ambientes de rede.

– Como deve ser o perfil de um professor de jornalismo na realidade atual?

O professor hoje não é professor. Tem que ser um provocador, um indutor, um cara que tira esse povo da zona de conforto das redes e dos dispositivos móveis. Tem que acabar com essas certezas e minar de interrogações. Afinal, não existe ponto final e ponto de exclamação para um jornalista, apenas pontos de interrogação.