A SAGRADA TRADIÇÃO DOS TROTES NA TV

Houve um tempo em que os trotes perpetrados pelo pessoal das TVs não eram um bullying passível de denúncia, como nos comportados e aborrecidos dias de hoje.

Havia uma atmosfera de alegre safadeza , especialmente na área técnica, antro tradicional dos artífices das mais elaboradas sacanagens. Um culto permanente à zombaria , uma tradição ancestral das tribos televisivas que não podia ser rompida.

O pessoal era pra lá de criativo. A imaginação dos pândegos beirava um quase inocente sadismo…

As pegadinhas eram sempre pra cima dos novatos. Uma das mais freqüentes era a missão de providenciar “componentes” para o sistema de Tv em cores. O veterano cheio de maldade chamava o calouro e ordenava:

– Vai lá na outra emissora buscar um kit importado de tintas para equilibrar o color bar. E tem que ser agora!

O  “color bars” é aquela imagem eletrônica na tela, cheia de barras coloridas verticais que servem para equilibrar padrões de cor no vídeo.

O novato já ia saindo apressado quando o veterano sacana fazia a última recomendação, em áspero tom de advertência:

– E toma cuidado pra não balançar que é pra não misturar as cores! Se não ferra tudo e tu vai pagar por isso!

E lá se ia o coitado correndo até a emissora vizinha distante algumas quadras, onde outros pândegos já devidamente avisados do trote esperavam o incauto com um balde cheio de água com tampa. O sujeito voltava pisando macio, sem piscar, para não correr o risco de “embaralhar as cores” dentro do pesado recipiente que ele carregava segurando uma incômoda alça de arame.

Na chegada, era recepcionado com um festival de gargalhadas e aplausos pelo debut na função.

Outra tarefa muito cultuada pelos malandros era fazer os novatos vagarem atarantados horas a fio pelos corredores das emissoras numa busca frenética por artefatos fictícios:

– Ô guri, tu precisa me arranjar agora mesmo um ferro de passar pra arrumar as fitas de vídeo amassadas. Corre duma vez, infeliz!

– Preciso agora mesmo de uma lâmina nova para a mesa de corte! Vai, vai logo, senão a TV sai do ar!!

Mesa de corte, ou switch/suite é aquela bancada enorme com centenas de botões luminosos e pequenas alvancas onde os diretores de imagens “cortam”, ou seja, selecionam as imagens das câmeras que aparecem nas telas à sua frente.

Outra pérola da traquinagem era pedir, sempre com urgência atordoante, um martelo ou pá para enterrar o pedestal (outro parâmetro eletrônico de regulagem das imagens) , ou uma borracha  para apagar o croma dos videotapes (croma, ou chrome, era o fundo eletrônico das imagens) ou ainda, que o novato providenciasse sem demora uma garrafinha cheia de “crome novo”.

Esse povo da TV não valia nada!