A PRAGA DO CHAVÃO E DO LUGAR-COMUM

A reportagem de TV, com suas frases curtas e abordagens objetivas, é uma passarela e tanto para o desfile de chavões e lugares comuns que decoram os textos  das matérias sem imaginação.

A necessidade de dar “clima“ às reportagens, carregando na entonação do off e na performance durante a passagem, faz com que repórteres (assim como muitos dos editores que interferem nos textos) abusem destas expressões prontas, baratas e surradas, contribuindo para a perpetuação da imbecilidade nos textos de telejornalismo, de norte a sul.

Nenhum repórter consciente do seu papel e de sua capacidade neste ofício pode ser dar por satisfeito ao fechar um texto com estes detestáveis cacoetes de linguagem, achando que telejornalismo é isso mesmo, que não precisa caprichar tanto, afinal é assim que as pessoas compreendem, o povão gosta…

Infelizmente, existe desde sempre uma cultura generalizada nas redações de TV pregando a banalização do texto em nome de uma suposta facilidade de compreensão por parte do público.

É como se o ponto de partida obrigatório para os repórteres iniciantes fosse a narrativa simplória e sem brilho algum em nome da comunicabilidade.

E aí se estabelece desde o começo da carreira um parâmetro de abordagem baseado na pobreza de imaginação para privilegiar a objetividade.

Escrever com um mínimo de originalidade não é sinal de brilho intelectual. É obrigação de todo repórter.  Obrigação consigo mesmo, com a profissão e principalmente com o público telespectador, para o qual muitos profissionais insistem irresponsavelmente que não há necessidade de oferecer maiores requintes de linguagem.

Todo repórter precisa perseguir sem parar a qualidade do seu texto. Ler muito e saber estruturar frases objetivas, mas ricas em informação. Precisa buscar com obstinação um  vocabulário denso, onde sempre encontrará soluções adequadas de descrição.

Não é preciso ser erudito para escrever bem e honrar a missão de informar o público. Basta ser um bom jornalista.

Portanto, fuja da tentação de usar expressões bobocas como estas:

–  “ Fechou com chave de ouro…”

– “ A festa não tem hora pra acabar…”

– “ Não corre risco de vida…” (A pessoa corre risco de morrer ou de viver?)

– “ O lugar se transformou numa praça de guerra…”

– “ Clima de emoção e revolta…”

– “ Houve troca de tiros” (imagina policiais e bandidos numa alegre negociação: “Que tal, aceita trocar uma bala 9mm por uma 7,62?)

– “ Dona Maria fez questão de votar…”

Há muitas outras, como obviedades do tipo  “A policia está investigando o caso…”  ou “ Do velório o corpo foi levado para o cemitério…”.

Evitar estas e as que estão na lista acima já é um bom começo.

E por último, mas não menos importante (toma o chavão!) o clássico atestado de bossalidade do repórter, diante da tragédia do entrevistado:

– Como você se sente?