A OUSADIA DO REPÓRTER INDIANA JONES

Sempre gostei de usar chapéu no inverno. Além de curtir o estilo, tenho que proteger a cabeça da chuva fina gelada e do sereno da madrugada. Uma necessidade diante da minha careca de frade cada vez mais pronunciada.

Nunca fui adepto de toucas, bonés de lá com tapa-orelhas tipo Chaves ou aqueles mulambentos gorros andinos. Prefiro os chapéus marrons de feltro,  copa baixa e abas não tão largas, clássicos dos anos 40. Combinam tanto com jaquetas de couro como os sóbrios gabardines de chuva.

No Festival de Cinema de Gramado, meu chapéu era companheiro inseparável e indispensável. Me protegia elegantemente do inverno serrano e da garoa gélida que castigava quem ficava plantado ao relento em frente ao Palácio dos Festivais à espera das celebridades.

Numa destas coberturas, nos anos 90, fui entrevistar o diretor Carlos Manga, personalidade fundamental na história do cinema e da televisão no Brasil. Ele era o homenageado especial daquela edição. Na época atuava como diretor e coordenador das novelas da Globo.

Manga, falecido em 2015 aos 87 anos

Chegamos ao Hotel Serrano e fomos direto para a sala onde ele aguardava nossa equipe. Entrei sem me dar conta que ainda estava de chapéu. Quando me viu de jaqueta de couro marrom e chapéu, deu um largo sorriso e falou para a produtora que o acompanhava:

– Tá vendo? Eu não sou pouca coisa não, mandaram o Indiana Jones me entrevistar!

Manga era uma figura muito simpática, com uma conversa agradável e sempre sorrindo. Terminada a entrevista, ele me aconselhou:

– Olha rapaz, tu fica muito bem com este chapéu. Devia usar sempre e fazer dele a sua marca!

– Não dá, para um ator celebridade tudo bem, mas eu sou repórter…

– Vai por mim, sempre que der, usa!

Algumas semanas depois, eu estava na cidade de Cambará do Sul, em reportagem sobre o frio, que naquela semana havia caído abaixo de zero na região e tinha previsão de neve.

Congelando em Cambará do Sul

Na hora de gravar a passagem, caia uma geada grossa que era quase neve. Quando tirei o chapéu para gravar, minha cabeça gelou. Na mesma hora lembrei do Manga e resolvi arriscar uma ideia inusitada para os padrões habituais. Olhei para o cinegrafista Júlio Aguiar e disse:

– Que tal uma passagem de chapéu, Julinho?

Ele deu um sorrisinho maroto, olhou para o céu cor de chumbo, viu que o motorista Henrique Barcelos também gostou da ideia e topou na hora:

– Porque não, ué? Vamos nessa! Quando quiser, gravando!

Ficou bem bacana. Apesar de chapéu não ser usual em reportagens de TV, era visualmente muito melhor que um gorro ou touca. Pelo menos era o que eu pensava…

Geramos o material para Porto Alegre a tempo de entrar no RBS Notícias, telejornal das 19h.

Assim que a reportagem foi ao ar, o editor-chefe Marco Antônio Villalobos me ligou dizendo que a matéria estava muito boa e que o pessoal na redação tomou um susto quando me viu com aquele visual na tela.

A mesma versão foi gerada para o Jornal da Globo.

Mas o Carlos Manga mandava em novela, não em telejornal. E minha passagem foi coberta por imagens, ficando apenas a locução.

Na Globo, Indiana Jones só no Tela Quente.