A NOJENTA ENGANOU TODA A EQUIPE!

Foi lá por 94 ou 95.

Estávamos gravando um Projeto Ecologia, programa semanal de reportagens especiais da RBSTV com matérias focadas no meio ambiente.

A pauta era a Estação Ecológica do Taim, enorme e importantíssima área de proteção federal  que fica entre Rio Grande e Santa Vitória do Palmar, no sul do estado.

Tinha sido um dia pesadíssimo de trabalho, atravessando a pé banhados, campos, mato e areais.

 

A equipe estava extenuada. Ao anoitecer, na estrada rumo ao hotel em Rio Grande, ecoava um coro uníssono dentro da camionete D-20:

– Uma cerveja beeem gelada, pelo amor de Deus, é só o que a gente precisa agora!

O coral sedento era formado por mim, na reportagem, a produtora e diretora do programa Mônica Roemmler, o repórter cinematográfico Gilmar Tedesco (o “60”), o então (hoje é câmera) operador de VT Enio “Maguila“ Rosa, e o Tudão, motorista figuraça que mesmo no rincão mais inóspito sempre descobria onde tinha diversão.

E foi ele quem prometeu salvar a equipe naquela noite.

– Xacomigo que eu vou arranjar um lugar pra gente tomar umas bem geladas!

A promessa soou como música. Mas logo nos demos conta que era muito tarde e que provavelmente tudo estaria fechado em Rio Grande na hora em que chegássemos.

Com aquele sorriso ladino de palito no canto da boca, Tudão profetizou:

– A gente sempre acha um lugarzinho…

Entramos em Rio Grande altas horas. Tudo fechado. Uma visão desanimadora.

No volante, Tudão, inabalável, parecia saber exatamente onde estava nos levando.

Entramos numa área suspeitíssima, perto do porto. E logo estávamos estacionados em frente a um boteco apertado, um autêntico “pé sujo” com uns tipos muito estranhos nas mesas.

– Eu não disse que a gente achava um lugarzinho?

Tudão foi o primeiro a desembarcar, como se fosse o guia da turma.

– Vamo lá pessoal, que a sede tá grande!

Olhei para aquele ambiente um tanto escuro, com meia dúzia de vultos esquisitos.

Nas mesas, garrafas de cerveja.  A profecia se cumpria.

Perguntamos à Mônica se ela se sentiria à vontade ali naquele lugar. Desconfiada mas decidida, ela topou, movida pela sede e pela confiança de estar ali com outros quatro amigos.

Achamos uma mesinha num canto. O ar estava impregnado com a fumaça de cigarros ordinários. Do fundo do boteco, vinha uma massacrante música sertaneja de uma daquelas  máquinas em que a gente enfia uma fichinha pra tocar a música escolhida na lista.

Veio o dono do boteco, um tipo mulambento e soturno.

– O que vão querer?

– Cerveja beeeeem gelada, cinco copos. Tá bem gelada mesmo?

– Tá.

Neste momento, como se fosse ensaiado, toda equipe falou:

– Só não traz Malt 90!

O sujeito apenas grunhiu e se foi.

A Malt 90 era uma cerveja que a Brahma lançou na época, do tipo “popular”. Era tão ruim e aguada que ganhou o apelido de Malt Nojenta.

Decretamos: podia baixar qualquer cerveja naquela mesa, menos a Nojenta. Não merecíamos terminar um dia de tanta ralação bebendo aquilo.

O ogro do boteco voltou com uma garrafa completamente branca de gelo por fora. A legítima canela de pedreiro. Chegava a sair aquela “fumacinha” de tão gelada.

Era a visão do paraíso!

E veio mais uma, mais uma e mais uma. Todas com aquele lindo véu cobrindo toda a garrafa.

Quando sentimos que a sede mortal tinha sido vencida, chamamos a saideira.

A última garrafa pousou no meio da mesa. Mas desta vez, o gelo derretendo revelou o rótulo.

Era uma… Malt 90! Uma não – todas que tomamos eram a Nojenta!

O calejado Tudão deu uma gargalhada e não perdeu a deixa:

– Pra mim tavam bem boas! E acho que pra vocês também!

Ninguém reclamou. E fomos para o hotel bem faceiros.