A MÍDIA E A LIÇÃO DE SUZANO

 

O ataque às mesquitas da Nova Zelândia e à escola em Suzano, no Brasil, trazem à tona um debate urgente no universo da imprensa: devemos divulgar os nomes, mostrar os rostos e dar publicidade às obscuras motivações dos maníacos que cometem estas atrocidades?

Não. Não devemos. Que se dane o mimimi sobre liberdade de imprensa. A questão vai muito além.

Antes de defender o direito à informação ampla e irrestrita, é preciso considerar o que é mais importante para a segurança da sociedade, avaliando o impacto destas tragédias com critérios mais rigorosos do que a simples urgência em divulgar a notícia com todas as suas nuances.

Especialistas em segurança, psicólogos e sociólogos e outros estudiosos ligados a pesquisas sobre criminalidade não tem mais dúvidas que os autores destas barbaridades buscam acima de tudo notoriedade com seus atos tresloucados, mesmo que seja um reconhecimento póstumo.

Em entrevista recente à BBC, Jaclyn Schildkraut, professora de Justiça Criminal da Universidade de Nova York, sustentou que a cobertura extensiva destes eventos pela mídia acaba recompensando os autores ao torná-los famosos, e pode inspirar outros doidos a perpetrarem novos ataques.

Ela ressalta que o erro da imprensa é focar prioritariamente nos assassinos e suas motivações, em vez de valorizar a história das vítimas ou dos heróis que tentaram evitar as tragédias.

Em pronunciamento, a primeira ministra da Nova Zelândia, Jacinta Arden, foi enfática sobre o australiano que matou meia centena de pessoas em duas mesquitas:

– Ele é um terrorista. Um criminoso. Quando eu falar ele não terá nome. Pode ter procurado notoriedade, mas não lhe daremos nada!

Evitar a divulgação excessiva de atos como estes é fundamental. Obviamente, é inevitável uma cobertura extensiva de eventos assim, ainda mais no Brasil, onde não são comuns. Mas as lições do que acontece mundo afora, especialmente nos EUA, não podem ser ignoradas.

A pesquisadora americana lembra que diversos estudos apontam o fenômeno no qual os autores destas tragédias buscam alcançar ou superar a fama dos atiradores de casos anteriores, matando ainda mais pessoas. É o que Jaclyn Schildkraut chama de “Efeito Imitação”.

Ela ressalta que a cobertura intensa da mídia sobre os assassinos e suas histórias de vida, o número de vítimas, usando classificações para as tragédias como “maior” ou “pior” contribui decisivamente para este ciclo de violência extrema.

É claro que nos casos em que os autores ainda são procurados, divulgar sua imagem é fundamental para ajudar a prendê-los. Aí o papel da imprensa é fundamental.

Mas deve-se evitar a ênfase na motivação e no histórico pessoal, para não estimular a vaidade insana destes assassinos e mantê-los interessados em alcançar novas marcas em suas atrocidades.

Nestes tempos em que a ânsia por audiência leva os veículos a uma competição desvairada, onde a glorificação da bandidagem não é rara, é preciso estabelecer limites na abordagem.

Precisamos aprender com o que tem acontecido pelo mundo e agora bate cada vez mais na nossa porta.