A MALDIÇÃO DA ENTRADA FALSA

Ela é indestrutível.

Por mais que a digitalização avance, não há código binário ou algoritmo que a elimine. Paira  sobre as cabeças do pessoal do telejornalismo desde os tempos do filme.

Esta semana a maldição da entrada falsa atacou novamente. Desta vez no RBS Notícias, o telejornal de horário nobre da RBSTV.

Numa reportagem gravada, o repórter Jonas Campos começou a falar, fez uma pausa de meio segundo e recomeçou o texto. Talvez muita gente não tenha percebido porque ele retomou imediatamente a fala, sem alterar a expressão.

Isso acontece porque é muito comum que um repórter erre algumas vezes na gravação da passagem, que é o momento em que ele aparece falando para a câmera. Erra o texto ou esquece alguma parte e recomeça até acertar. Faz parte do trabalho, para novatos ou veteranos de primeira linha como o Jonas.

Depois, no processo de edição, já na emissora, são eliminadas todas as entradas falsas, ou seja, os trechos que não valeram. E vai ao ar apenas a gravação limpa, sem erros ou pausas indesejadas. É assim em qualquer emissora do mundo, desde sempre.

Mas algumas vezes, por conta da pressão na correria do deadline, os editores são traídos pela  distração e acabam deixando passar uma entrada falsa. E aí já era.

O problema é quando a entrada falsa vem acompanhada de outras manifestações do repórter.

Quando vi o Jonas no RBSN, me lembrei da vez em que a maldição me pegou de um jeito inesquecível.  E teve um resultado, digamos, bastante impactante.

Foi nos anos 90. Eu era repórter na RBSTV e estava escalado para fazer uma gravação para o telejornal matutino Bom Dia Rio Grande.

A pauta era a retomada do ano letivo nas escolas. Eu deveria fazer uma gravação descrevendo o movimento em frente ao Instituto de Educação Flores da Cunha, uma das maiores escolas públicas da capital.

A missão era gravar rapidamente uma passagem descrevendo o ambiente e depois voar para a emissora com a fita, para usar no ar como se fosse ao vivo.

É uma artimanha que até hoje resiste.  A gravação, feita pouco antes, geralmente com o telejornal no ar, é veiculada sem que se diga que é ao vivo, mas também não se diz que não é. Para o público, fica a impressão que é.

Eu estava nervoso pela pressa e errei o texto várias vezes. O cinegrafista Adelmo Prestes e o operador de VT José Carlos “Roxo” procuravam me tranqüilizar, mas quanto mais eu olhava o relógio mais me estressava.

A cada erro, eu praguejava mais forte e mais alto.

Finalmente acertei o texto. Nos jogamos dentro da Kombi e fomos a mil para a emissora. Entrei correndo na redação com a fita U-Matic e a joguei nas mãos do editor. Faltavam poucos minutos para o programa acabar.

Com o material entregue, sentei ainda ofegante de frente para os monitores e fui tentando desestressar enquanto assistia o último bloco do telejornal, à espera da minha aparição.

Eis que o apresentador Rogério Amaral começa a sua locução:

– E hoje é dia de volta ás aulas. O repórter Ricardo Azeredo tem mais informações.

E se fazia o milagre da comunicação. Ali estava eu todo engravatado enchendo a tela “ao vivo” para todo o estado.

– Bom dia Rogério! A gente está vendo aqui a movimentação dos alunos e…PU-TA-QUE- O- PARIUUU!! CARAAAAALHO, CAGUEI DE NOVO ESTA MEEERDA!!!

Corte abrupto para o estúdio. O apresentador fica um segundo no ar tentando esconder a cara de espanto e imediatamente e retoma o roteiro.  Lê uma a nota final e encerra o programa.

A maldição mais uma vez se cumpria, implacável.