A KOMBI ALEGÓRICA DA REPORTAGEM

Houve um tempo em que cobertura de carnaval não se limitava ao desfile das escolas de samba na avenida e blocos de rua. A escala dos folguedos de Momo incluía um obrigatório roteiro pelos bailes nos clubes.

Havia uma lista básica dos clubes mais tradicionais e seus bailes normalmente lotados.

Mas esta lista também sofria a influência do perfil da equipe convocada. As escalas de trabalho não eram preenchidas só por escolhas dos chefes, mas também por pedidos dos interessados nos atrativos daquelas jornadas.

Minha primeira experiência do gênero revelou como as equipes “foliãs” por natureza fazem daquela missão um misto de trabalho e prazer.

Era final dos anos 80. Eu tinha poucos meses de RBSTV. Embora já atuasse como repórter há pouco mais de três anos, tendo passado pelas TVs Guaíba e Pampa, eu me sentia um foca naquele tipo de cobertura para a qual tinha sido escalado.

Cheguei à emissora por volta de 11 da noite, horário definido pela escala para a jornada que deveria se esticar até o amanhecer. Minha equipe era formada pelo veterano  cinegrafista Beto Tormes, o também escolado operador de VT e iluminador Alceu e o motorista Bagé.  E foi este quem fez o alerta ao me ver no estacionamento à procura do carro da equipe:

– Não te assusta com a decoração da Kombi. Aqueles dois são medonhos!

Abri as duas portas laterais e me deparei com um mini salão móvel de baile de carnaval mambembe: metros e metros de papel higiênico pendiam do teto, fixados com fita adesiva. Apostando no quesito originalidade, a equipe transformou a Kombi em carro alegórico para a noite que prometia muita folia!

(obs: não é Kombi da foto acima, que é só ilustrativa e foi tirada da web)

Com um sorriso escapando por baixo do bigodão de bandoleiro mexicano, Beto Tormes chegou todo orgulhoso da sua obra:

– E aí baixinho, gostou do nosso clube?  Te prepara que a noite vai ser longa! Vamo nessa?

A primeira parada foi no Verde e Branco, baile do Teresópolis Tênis Clube, um dos mais famosos do carnaval portoalegrense. Feitas as imagens e algumas entrevistas aos berros nos camarotes, eu me preparava para sair do salão quanto Beto e Alceu avisaram com aquelas caras estampadas de pura malandragem:

– Peraí, agora a gente vai aceitar a gentileza da diretoria do clube! Não podemos fazer desfeita!

As equipes de reportagem eram sempre muito bem recebidas pelas diretorias dos clubes, que ofereciam bebida e comida à vontade. Beto e Alceu logo apareceram com copos lotados de bom whisky, cortesia da casa. Estranharam minha cara de surpresa e trataram de me tranqüilizar, às risadas:

– Fica frio baixinho, isso é só o começo da noite! Tuma umas aí que o baile vai longe!

– Não obrigado, detesto whisky.

Não quis bancar o estraga festa. E realmente detesto whisky. Deixei os dois bebericando e dando seus passinhos ao redor da mesa de onde observávamos o redemoinho de gente pulando no salão. Até pensei em tomar uma cervejinha, mas me senti inseguro como todo bom foca.

UM BAILE INESPERADO 

De volta á Kombi, que desfilava pela cidade rumo ao próximo baile, marchas de carnaval no rádio ecoavam distorcidas a todo volume no rádio AM do painel. As tiras de papel higiênico balançavam no embalo da cantoria do cinegrafista e seu auxiliar.

– Alalaô, lalaô, lalaô, ôôô…

Concentrado na direção, com as duas mãos naquele enorme bambolê que era o volante da Kombi, Bagé me olhava de canto de olho, com um sorrisinho maroto.

– Não te avisei? Esses aí são tudo louco! Faz a tua e leva na brincadeira.

Eu já tinha decidido que esta seria a melhor maneira de encarar a jornada. E procurei não me incomodar com o entusiasmo carnavalesco da rapaziada.

Depois de gravar em outros dois clubes, eu já tinha domado meus receios e bebido umas quatro ou cinco latas de cerveja.  Beto e Alceu cada vez mais animados com as doses de whisky presenteadas pelas diretorias em cada parada.

Foi quando Beto bradou:

– Agora nós vamos pro baile de verdade!

Em poucos minutos a Kombi estacionava em frente a um conhecido estabelecimento na Avenida Assis Brasil, que era uma mistura de night club com bailão de periferia. Só não era uma típica casa da luz vermelha porque não havia palco de pole dance e moças seminuas ostensivamente rondando os incautos e oferecendo suas habilidades. Mas faltava pouco.

Meus parceiros estavam exultantes e desembarcaram da Kombi quase saltitando.

– Agora é que a festa vai ficar boa!!

Eu não sabia o que pensar daquilo. Mas resolvi dar uma chance para a experiência dos guris da equipe.

O lugar estava lotado. Marchas de carnaval se misturavam com os hits bregas típicos dos bailões. O povo sacudia na pista à meia luz e nas mesas convenientemente imersas na escuridão. Os alto-falantes berravam um repertório que ia de Chiquita baiana a Fuscão Preto.

Foi quando me percebi sozinho. Cadê a minha equipe?

Alguém me puxa pelo braço. Um garçom meio atarantado faz sinal pra que eu o siga no meio daquele tumulto. Ele meio que me reboca até uma sala da administração. Comecei a achar que Beto e Alceu tinham se metido em alguma encrenca. Bagé tinha ficado na Kombi cochilando.

A cena que encontrei explicava a animação dos rapazes ao chegar naquele lugar.

Equilibrando-se sobre saltos plataforma altíssimos, três mulheres bem feinhas usando micro-saias, cinta-liga e meias arrastão improvisavam um palco ao lado de um travesti maior que os seguranças da casa. Não faziam questão de esconder suas “partes” e dançavam desajeitadamente desviando dos copos cheios e das garrafas de whisky e vodka aos seus pés. Um show especial para a imprensa.

Abaixo deles, Beto gravava seus takes, enquanto dois fotógrafos, de Zero Hora e do Correio do Povo, faziam seus registros daquela cena improvável. Um repórter gurizote da Rádio Gaúcha assistia a cena com cara de quem não estava acreditando no que via.

Obviamente, nenhuma imagem daquele “baile” apareceu na mídia no dia seguinte. O público só assistiu aos animados e comportados bailes na primeira parte da noitada. O resto é lenda…