A GUERRILHA E O CINEGRAFISTA OBSTINADO

Entre os tantos ditados e adágios do folclore telejornalístico brasileiro, um dos mais implacáveis declara que matéria boa é aquela que vai ao ar.

Esta máxima sempre foi um mantra para o repórter cinematográfico gaúcho Jair Alberto, falecido em abril de 2019 aos 67 anos.

Jair Alberto

Dono de uma obstinação xiita para viabilizar as pautas e fazê-las chegar aos telespectadores, “Negão Jair” era incansável.

Embora tenha iniciado carreira de cinegrafista em Porto Alegre no início dos anos 80, no início da década de 90 ele atuava na afiliada da Rede Globo em Manaus, Amazonas.

Foi no dia 26 de fevereiro de 1991 que um acontecimento grave o colocou no caminho do repórter Caco Barcelos, da Globo RJ.

A notícia era bombástica: naquela data, um grupo de guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as FARC, havia atacado um destacamento do Exército Brasileiro baseado num posto avançado na fronteira amazônica.

A base atacada nas margens do rio Traíra

 

Em número bem maior, os guerrilheiros chegaram de surpresa e abriram fogo, matando 3 militares brasileiros e ferindo outros 9. Depois de roubar armas e equipamentos fugiram para a selva colombiana.

Caco Barcelos foi destacado para fazer a cobertura para o Jornal Nacional, acompanhando  comandantes do Exército que foram de helicóptero no dia seguinte até o longínquo local do combate.

Jair Alberto, veterano experiente e conhecedor da região, foi destacado para ser o seu cinegrafista.

A equipe registrou imagens em vários locais na área do confronto, entrevistou militares sobreviventes e fechou uma reportagem completa.

A batalha agora era outra: vencer o deadline do Jornal Nacional trazendo a manchete mais importante daqueles dias, direto dos confins da Amazônia.

Quando chegaram ao Aeroporto de Manaus, o único vôo que poderia levar a fita U-Matic com o precioso material estava se preparando para decolar. As portas do avião já estavam fechadas, as escadas retiradas e as turbinas girando cada vez mais alto.

Os pilotos já iam começar a taxiar em direção à pista quando viram pela janela um negro alto e barbudo pular a cerca do aeroporto e invadir o pátio de manobra, correndo direto para o avião.

O abnegado Jair Alberto parou ao lado do Boeing e começou a gritar para os pilotos, apesar do ruído ensurdecedor dos motores. Gesticulava e berrava desesperadamente com a fita na mão, sinalizando para o piloto abrir a minúscula janelinha da cabine.

De alguma forma ele conseguiu fazer a tripulação entender que era uma reportagem para o Jornal Nacional e que era preciso levar aquela fita a qualquer custo!

A janelinha foi aberta e num único e certeiro lance Jair conseguiu jogar a fita nas mãos do piloto.

Logo após a decolagem, a equipe foi detida por militares da Aeronáutica e Policiais Federais.

Pistas e áreas de manobras em aeroportos são territórios indevassáveis para os não autorizados.

Depois de horas de interrogatório e detenção no aeroporto, além de intervenções da direção da Globo e de autoridades estaduais e federais, a equipe foi liberada.

A matéria foi ao ar com enorme repercussão. Aquele ataque pegou todos os brasileiros de surpresa.

Brasil revida o ataque

Em 9 de março veio o revide. As Forças Armadas brasileiras e o governo colombiano lançaram a Operação Traíra, um ataque conjunto a uma base das Farc na Colômbia.

 

12 guerrilheiros foram mortos e muitos capturados. Depois disso, não se teve mais notícia de incursões de guerrilheiros colombianos no território brasileiro.

Link para a reportagem sobre o primeiro ataque: https://www.youtube.com/watch?v=ivGZkx8Zlw4