A GRANDEZA DO MARCELO CANELAS

Sabe aquela máxima, “gentileza gera gentileza”? Pois é.

A gente vai se acostumando com a dureza do dia a dia, com a urgência da sobrevivência, com o deadline das matérias e das contas a pagar…E acaba deletando episódios do passado que vão pra lixeira do nosso HD interno porque, por algum motivo, não consideramos alguns fatos dignos de serem arquivados na memória. Banimos o registro por ser má lembrança ou porque não significava nenhum acontecimento extraordinário.

Mas às vezes  o destino dá um boot e os arquivos ressurgem inesperadamente, para nos lembrar que um dia tudo volta. Especialmente a maneira como tratamos as pessoas.

Lá por 2002, eu estava na redação do Globo Repórter, no RJ, acompanhando a edição de um programa que produzimos pela RBSTV. Concentrado diante do computador, absorto no meu texto, não percebi quando o repórter Marcelo Canelas se aproximou e sentou ao meu lado, puxando conversa com um delicado tapinha no meu ombro.

– E aí Azeredo, tudo tranqüilo?

O Canelas, gaúcho de Santa Maria, era – e é – uma de minhas referências profissionais absolutas. O tipo de repórter que reúne todas as virtudes que a gente gostaria de ter: olhar aguçado e humano sem ser piegas, com sensibilidade e olhar crítico no ponto, texto impecável, condução precisa e equilibrada das reportagens. Um mestre.

Ele já era há muito tempo um dos repórteres top da Globo, e estava ali finalizando mais uma reportagem especial. Nunca convivemos. No início dos anos 90, ele saiu direto de Santa Maria para o centro do país.

Surpreso e honrado com aquela aparição, larguei meu texto sem hesitar. Era hora de aproveitar a oportunidade e estreitar relacionamento com um cara que eu sempre admirei e com quem aprendi muito assistindo suas matérias.

– Azeredo, lembra quando eu era repórter da RBSTV em Santa Maria e fui para Porto Alegre num daqueles estágios para  acompanhar as equipes da capital?

Esgaçando a memória, respondi que lembrava vagamente da gente conversando no pátio da TV, na hora da largada das equipes. Fazia muito tempo, foi no final dos anos 80.

– Pois é Azeredo, sabe como o pessoal da capital era meio desdenhoso com os do interior, né?

Não entendi aquela colocação, mas dei corda sem imaginar do que se tratava. Ele seguiu:

– Eu tava ali no pátio, acabrunhado, tentando uma carona com alguma equipe para acompanhar o trabalho e aprender. Mas o pessoal não me dava a mínima.

Eu ainda não entendia onde ele queria chegar. Continuou, com aquele tom suave característico dele:

– E aí, eu te vi entrando no carro da reportagem e pedi pra sair com a tua equipe. Tu me recebeste tri bem e me levou junto.

Fiquei meio sem jeito.

– Pô Canelas, eu era tão foca quanto tu naquela época! E te confesso, mal lembro disso.

– Pois é, mas eu lembro muito bem.

Com um sorriso, desejou sorte no fechamento da matéria, me deu outro tapinha no ombro e foi cuidar de mais uma grande reportagem.

Esta, eu nunca esqueci.