A FUNDAMENTAL ARTE DE CULTIVAR FONTES

Agenda de fontes é uma lavoura que a gente nunca para de semear.  Nem todo informante é fértil o tempo todo, mas se você escolher as sementes certas, adubar e irrigar apropriadamente, terá valiosas safras de informações.

Encerrando a metáfora agrícola, podemos dizer sem medo de quebra na colheita que jornalista sem boas fontes não vai colher bons frutos. Qualquer profissional com um mínimo de experiência sabe disso.

Os tempos são cada vez mais de contatos virtuais e menos conversa olho no olho. É um  mundo em que informações falsas, supervalorizadas e mal intencionadas se proliferam como ervas daninhas vicejando nos campos infinitos da web – ops, voltei pro agro, mas agora deu!

Todo mundo virou gerador de conteúdo. Qualquer um tem blog onde jura ser dono na informação quente e exclusiva. Em perfis inflados por auto-elogios nos blogs, sites e Facebook, pseudo-personalidades se intitulam formadores de opinião e afirmam serem os especialistas mais abalizados em vários assuntos. Professam imparcialidade e firmeza, mas vivem “mordendo”  agentes públicos e privados em busca de banners de patrocínio.

Para os menos experientes, é difícil saber filtrar quem são os que realmente merecem crédito.

Para começar é preciso identificar os blogueiros tarimbados com trajetória verdadeira no jornalismo gaúcho, como Prévidi, Felipe Vieira, Gilberto Simões Pires, Machado Filho, Diego Casagrande e outros. E desconfiar sempre dos que se fantasiam de fontes fidedignas na rede – ou “influenciadores digitais”, para usar o termo da moda – mas não passam de egos turbinados pelos interesses que exploram e em nome disso disseminam informações duvidosas em suas plataformas digitais.

Para as novas gerações de jornalistas, filhos da internet, buscar informações na rede é um gesto atávico. Apurar via e-mail, Whatsapp e outros caminhos virtuais é ação automática. Não que seja impossível buscar informações por estes métodos. Afinal, quem pode abrir mão destas ferramentas hoje em dia?

O problema é a consistência  ou mesmo a veracidade do que se apura desta forma, sem poder questionar a fonte de maneira mais incisiva, em tempo real, cara a cara.

Por tudo isso, é fundamental ter em mente alguns critérios para compor uma agenda de fontes sólida e confiável.

COMPONDO UMA AGENDA CONSISTENTE

– Uma boa lista deve ir além dos nomes que obrigatoriamente são consultados por serem fonte oficial ou detentores do cargo envolvido na matéria.

– Pessoas em escalões inferiores, embora prefiram obviamente o anonimato, também podem ser detentoras de informações cruciais. Estabelecer uma relação de confiança com elas sempre renderá bons dados.

– Muitas vezes a melhor fonte de uma reportagem é a pessoa que está fora da matéria, mas sabe indicar os caminhos para uma boa apuração por conhecer o território que está sendo explorado pelo repórter.

– Anote sempre os nomes, funções e contatos das fontes que você vai encontrando no dia-a- dia da reportagem. E coloque na agenda de forma organizada, que permita uma busca rápida por assunto, área de atuação, etc.

– A agenda pode ser tradicional, por ordem alfabética. Mas agenda de jornalista é enorme e fica fácil esquecer nomes. O melhor é organizar separadamente, como citado na dica acima. Ou mantendo a ordem alfabética, mas anotar começando pela área envolvida e depois o nome das pessoas. Por exemplo, fontes policiais devem começar sempre com Delegado fulado, Capitão ciclano, etc.  Ou Advogado tal, Pesquisador, Médico, Juiz, Promotor.. .

– Pode parecer meio complicado, mas organizar a agenda em pastas de assuntos e ali dentro em ordem alfabética funciona muito bem, especialmente quando se adiciona várias fontes todo dia.

– Quando a fonte é uma pessoa comum, um popular, mas que pode valer a pena um dia acionar novamente, anote ao lado do nome o que ela representa, o assunto, etc..

–  Selecionando com critério, tenha na agenda nomes dos mais variados campos. Nunca se sabe quando será necessário um tipo específico de fonte. Priorize a área em que você atua, mas não despreze boas referências de outros territórios.

– Só compartilhe suas fontes com quem você realmente acha que merece confiança.

LIDANDO COM AS FONTES

– Faça contatos periódicos com suas fontes, independentemente de estar apurando alguma matéria.

–  É preciso cuidado para não cair na promiscuidade. O jornalista pode até se tornar amigo da fonte, mas sem jamais colocar em jogo a independência profissional. Quanto mais se abusa da proximidade – e de eventuais benefícios que ela pode trazer – maior o risco de comprometimento e perda de autonomia.

–  Saiba como abordar cada tipo de fonte para não criar constrangimentos e comprometer a apuração. Não demonstre intimidade com quem não tem, nem abuse da condição de jornalista. Respeite cargos, patentes, condição social, etc.

–  Se tiver que acionar uma fonte em horários ou situações impróprios, faça com objetividade mas nunca esquecendo a educação. Desculpe-se adequadamente, seja compreensivo com as  reclamações normais de quem não espera ser importunado naquele momento, e insista apenas se a fonte der abertura. Não force demais. É preferível aceitar a negativa e combinar outro momento melhor do que atritar e perder a fonte.

–  Tenha especial cuidado com as fontes na política. Neste território a falsidade faz parte das relações. Há um permanente jogo de “sedução” para cima dos jornalistas, exercido tanto pelos políticos quanto seus assessores.  É comum o uso de informações falsas ou distorcidas para manipular jornalistas e usá-los como peça de manobra na mídia. Neste território pantanoso, distanciamento crítico é absolutamente fundamental.

– Também é preciso cautela com fontes da área governamental. O jogo de interesses é sempre intenso.

– Não se deixe intimidar pelas fontes, especialmente autoridades. Lembre sempre que seu papel é o de informar a sociedade e por isso está fazendo contato. Não seja grosseiro, mas mantenha a firmeza.

–  Na medida do possível, lembre-se de suas fontes mais importantes em momentos como aniversários, celebrações como Natal, Páscoa, dias das mães e pais, etc. Também é apropriado felicitar por conquistas ou se solidarizar em momentos ruins, como a perda de um familiar. Faça isso com a intimidade adequada para cada fonte.

– Fontes que prometem responder por e-mail geralmente demoram para dar retorno ou usam este recurso para se esquivar. Mande e-mail, mas insista ao telefone se a demora no retorno arriscar a apuração.

CUIDADO COM OS LIMITES!

– Não há nada de errado em tomar um café ou almoçar com uma fonte. Isso facilita o contato, estabelece um clima melhor para tratar das informações que se busca e ainda afina a relação. Mas é preciso lembrar sempre os limites desta proximidade e o que está em jogo.

– Fazer acordos com fontes faz parte do jornalismo. Mas é um perigoso toma-lá-dá-cá praticado sobre a tênue linha da moralidade. É preciso muito cuidado com o que o jornalista vai “negociar” para obter informações. Pode-se assegurar confidencialidade, e até mesmo troca de algumas informações, desde que esta relação não ultrapasse os limites da dignidade profissional e, claro, da própria lei. É algo muito subjetivo e fatalmente dependerá do caráter de quem negocia. Conforme o que se trata, os riscos são imprevisíveis.

– O monitoramento de ligações (escutas oficiais ou não) especialmente de políticos, autoridades e empresários, impõe que o jornalista seja muito cauteloso com o que fala ao telefone ou mensagens eletrônicas na hora de contatar fontes deste tipo. Limite-se à apuração objetiva do fato sem entrar em discussões mais subjetivas. Ao menor sinal de tentativa de acordos suspeitos, corte a conversa e defina claramente seu papel.