A FUNDAMENTAL ARTE DA GAMBIARRA

Ela é uma das instituições inabaláveis do telejornalismo. Uma arte que une genialidade, improviso e…desespero!

Mesmo com a evolução dos equipamentos, ela sempre será chamada para salvar a pátria diante de uma situação inesperada em que a única saída é inventar e fazer dar certo de qualquer jeito.

Com vocês, a heróica gambiarra!

SOLUÇÕES BIZARRAS E SALVADORAS

O jornalismo, especialmente o de TV, é rico em histórias de soluções inusitadas para  problemas imprevistos nas coberturas. Quanto mais as equipes dependem de equipamentos, maior o risco de enfrentar encrencas que só a boa e velha gambiarra resolve.

Os técnicos de TV, principalmente das emissoras menores são os mais habilidosos, por força da necessidade.

A primeira gambiarra que conheci foi na TV Guaíba, onde comecei como repórter, em 1985.

A emissora, que havia nascido anos antes como uma potência do império Caldas Júnior, estava  à míngua, por conta da derrocada geral do grupo, praticamente falido.

A ordem era economizar em tudo para manter a programação no ar.

TV Guaíba, anos 80:Gustavo Mota, Paulo Carneiro e Mário “Jack Palance”. No detalhe a bateria CB 400 no VT

Sem dinheiro para importar baterias novas para os VTs portáteis das equipes de reportagem, os técnicos da casa apresentaram a sua gambiarra salvadora: baterias de moto Honda CB 400, com um conector improvisado.

Funcionava que era uma beleza. Mas os operadores de VT  viviam com as calças furadas por causa do ácido que vazava das baterias…

Havia também a bizarra cruzeta. Para não gastar em luminárias portáteis profissionais e suas caras lâmpadas halogêneas, os técnicos inventaram uma cruz de madeira com soquetes onde atarrachavam enormes lâmpadas de estúdio fotográfico. Era um trambolho horroroso, mas quebrava o galho.

NA HORA DO APERTO VALE TUDO!

Eu mesmo tive que inventar um “pau de luz”. Foi em 86, pela TV Pampa.

Estava cobrindo uma invasão do MST no norte do estado. Haveria uma importante reunião de negociação dos sem-terra com um represente do governo federal.  Quando chegamos ao local do encontro, vimos que seria num galpão muito escuro. Foi quando o auxiliar técnico da equipe disse que não havia trazido o kit de iluminação porque achava que a gravação seria em campo aberto, como vinha sendo a cobertura até então.

Não tinha como gravar sem luz. E não podíamos perder a matéria. Tínhamos horário agendado para gerar a matéria via CRT de Passo Fundo para Porto Alegre.

Peguei o motorista e zarpamos na nossa Kombi até a cidadezinha de Salto do Jacuí, na época pouco mais que um vilarejo. Eu precisava encontrar uma loja de ferragens. Para piorar, era domingo.

A única loja da cidade estava, claro, fechada. Bati na porta até o dono aparecer. Expliquei a nossa emergência e ele concordou em nos atender.

Saí de lá com alguns metros de fio grosso, conectores e uma lâmpada de iluminação pública do tamanho de um melão.

De volta ao galpão,  arranjei um sarrafo de uns dois metros e prendi  a lâmpada e os conectores na ponta, usando fitas adesivas. Era um monstro, mas era o que tínhamos.

A reunião começou e começamos a gravar. Quando o cinegrafista Clademir Machado, o Tainha, sinalizou para que o auxiliar acendesse aquele colosso da tecnologia mambembe, foi um fiasco. A lâmpada era de mercúrio e lançava uma luz leitosa amarelada e de pouco alcance. As cenas pareciam filme de terror.

Mas não tinha outro jeito. Quando terminamos, chegou uma equipe da RBSTV de Cruz Alta. Pedimos a luz deles emprestada e gravamos tudo de novo…

 O VALOR DAS GAMBIARRAS SUBMARINAS

Na Lagoa do Peixe, área de proteção ambiental, o repórter cinematográfico José Henrique usou um aquário de vidro com uns 50 cm de comprimento para gravar takes do fundo. Nós mergulhávamos o aquário um palmo abaixo da linha dágua, no raso, e por cima, pela parte aberta, José Henrique segurava a câmera que ficava dentro.

Era uma ginástica danada segurar o pesado equipamento, numa posição super desconfortável e ainda fazer ajustes de foco girando os anéis da lente.  Eu e a produtora/editora  Mònica Roemmler segurávamos o aquário pelas bordas enquanto Zé se desdobrava pra gravar. Os três andando no mesmo passo com água acima dos joelhos. Deu um trabalhão, mas as imagens ficaram bem boas!

Noutra ocasião, tentamos captar imagens subaquáticas dos leões marinhos que vivem nos molhes do canal de Rio Grande. Tínhamos uma camerazinha VHS-C  em caixa estanque, mas nós  não podíamos mergulhar.

O jeito foi improvisar uma “grua” submarina com um pedaço de pau que achamos no fundo da lancha de pescador em que estávamos.  Amarramos a câmera com extensores elásticos, enrolando junto um pano para aumentar a fixação.

O repórter cinematográfico Edison Silva enfiou a gambiarra na água. Rezamos para não perder a câmera no fundo do canal. Não perdemos, mas a água turva não permitiu visualizar nada. Valeu a tentativa…

Sacos plásticos de supermercado também são uma providencial ajuda em reportagens na água.

Zé Henrique e o providencial saco plástico

Foi assim que o cinegrafista José Henrique protegeu a câmera durante uma chuvosa reportagem nas lagoas do norte do estado.

E SURGE O GAMBIARRA MAN!

Domar a incidência da luz natural e evitar sombras indesejáveis na cara do repórter é outra tarefa para as infalíveis gambiarras. Durante as enchentes na fronteira oeste do RS, no início dos anos 90, as entradas ao vivo em Uruguaiana no horário do meio dia, com o sol bem acima, só davam certo montando uma tralha usando o revestimento prateado das caixas de equipamento e alguns pedaços de isopor.

Domando o sol em Uruguaiana

No Banhado do Taim, além de lidar com a incidência do sol, tínhamos que barrar o vento, que balançava tudo e inviabilizava o áudio.

Foi quando nosso herói entrou em ação: o Gambiarra Man!

Enio Rosa, o Maguila, era o operador de VT. O equipamento dele teve que ser operado pela produtora editora Mônica Roemmler, para que Maguila segurasse ao mesmo tempo o enorme guarda-sol com o qual tentava conter o vento e ainda o rebatedor do tipo persiana, para direcionar a luz natural.

Para obter um som limpo, usamos o microfone boom (uma barra com uns 40 cm) enfiado dentro da minha roupa, com o fio saindo pela bainha da calça até o VT.

E foi assim que o cinegrafista Gilmar Tedesco (“60”) conseguiu gravar uma bela passagem em condições bem complicadas.

Tudo graças à teimosia da equipe e à fundamental arte da gambiarra!