A FAMA DOS PREDADORES DA TV

Este diálogo insólito aconteceu dentro de um táxi, numa noite abafada do verão de 1987.

Eu era repórter da TV Pampa e tinha sido escalado para cobrir o desfile das escolas de samba de Porto Alegre até o amanhecer.

Enquanto me acomodava no desconfortável banco de trás do táxi fusquinha – que não tinha o assento do carona, para facilitar o embarque – o motorista puxou a corda de nylon amarrada à porta, que se fechou com um barulhão. Em seguida acionou a bandeirinha na parte de cima do enorme taxímetro “capelinha” preso no painel, zerando os números que rolavam na vertical em suas janelinhas, como naquelas antigas caixas registradoras, só que sem o tilintar.

Dei o endereço da emissora. Quando viu que eu vestia o uniforme da cobertura de carnaval, uma chamativa camiseta vermelha da Rede Manchete (rede nacional de TV que pertencia ao Grupo Bloch, do qual a Pampa era afiliada), com um enorme M amarelo no peito, ele armou um sorriso safado. Pelo espelho retrovisor, canal sagrado de comunicação entre taxista e passageiro, decretou:

– Ahh, tu vai te dá bem hoje!

– Desculpe, não entendi.

– Não vem, meu. Vocês da TV traça essas mulhé tudo! No carnaval então, tu vai te fartá, né?

Dei uma risadinha amigável, aceitando a brincadeira.

– Que nada, tô indo trabalhar na avenida, suar até o amanhecer.

– Suar? Só se for na refrega com as gostosa! Vocês da TV pega tudo, as mulhé se atira feito umas loca pra cima de vocês, os bunitão da TV!

Eu continuava achando que aquele papo não era sério, embora ele falasse com animada convicção. E mesmo sabendo da visão glamurosa que muita gente tem sobre o mundo da TV, tratei de desmistificar.

– Não, meu amigo, eu sou só um repórter, meio novato ainda, encarando um plantão de carnaval. Não estou indo pegar ninguém não.

– Na na na na na, não me vem com essa!

Percebi uma certa rispidez do tom e na gesticulação. Ele mantinha a mão esquerda no volante e na esquerda, o indicador em riste balançando de um lado para o outro enfatizava que ele não estava disposto a ceder.

Enfiou o polegar entre os dedos, fazendo “figa”, e seguiu firme na argumentação.

– Aqui ó, me convence que vocês não come essas mulhé das novela tudo! Uma óva!

A coisa começou a ficar meio insana. O sujeito parecia irredutível.

Insisti na tentativa de desconstrução do mito.

– Olha só parceiro, eu sei que muitas pessoas pensam que quem trabalha em TV é estrela, tem carrão, mansão, mulherada, e por aí vai. Para alguns atores de cinema, astros de novela, apresentadores muito famosos, até pode ser. Mas para a imensa maioria, incluindo eu, isso é pura fantasia, entende?

– Ah tá!! – retrucou o taxista em tom acintosamente debochado.

A essa altura ele conversava tentando vez por outra virar o corpo para trás, para me desarmar já não mais pelo retrovisor, mas olho no olho, em rápidos movimentos enquanto dirigia. E ficava cada vez mais inflamado com o assunto, no limite entre o alegre entusiasmo e uma desafiadora contrariedade:

– Me diz aí, ó repórti: quando tu tá alí falando alí pra câmera, na rua, todo bunitão, vai me dizê que as mulher não para pra ficar babando? E vai me dizê que depois elas não se chega pra ti bem faceira dando telefone?? Não me enrola, vai!

– Tudo bem, algumas até olham, mas é curiosidade, ninguém fica dado encima de mim.

Como quem ganha uma jogada, ele solta um vitorioso “Ahá!!”, largando o volante por um segundo para uma sonora palmada com as mãos.

– Viu só?? Não me tira pra bobo, eu sei coméquié!!

Naquele momento percebi que meus argumentos seriam inúteis. Pouco depois chegamos ao destino. Paguei a corrida, e ao desembarcar ainda ouvi mais uma pérola antes de encarar minha jornada carnavalesca:

– Esta graninha não vai te fazê falta, né? Afinal, quem paga por mulhé são os mané que nem eu, né?

Caímos na gargalhada e nos despedimos. Ele engatou a primeira, arrancou, e pra coroar a noite, falou bem alto com a cabeça para fora da janela enquanto passava pelo portão da empresa:

– Me engana que eu gooosto!!