A ESTRADA DO INFERNO

Que tal levar mais de 11 horas para chegar até o local da pauta, que está a apenas 77 km? E ainda passar a maior parte deste trajeto esperando por um improvável socorro para desatolar o carro (várias vezes) com barro até o joelho e o corpo encharcado, debaixo de uma chuva impiedosa e incessante?

Trilha no meio do mato? Transamazônica? Não, meu amigo, esta provação acontecia rotineiramente numa estrada federal do sul maravilha, a BR 101, no trecho entre as cidades gaúchas de Mostardas e São José do Norte, na região do litoral sul do estado.

Hoje ela está totalmente asfaltada. Mas nos anos 90, viajar por ali era um desafio e tanto.

Jornalistas que encararam esta jornada sabem porque este trajeto não poderia ter outra alcunha: Estrada do Inferno!

O BATISMO DE FOGO

Foi neste calvário que estreei na reportagem do Fantástico, no início dos anos 90, acompanhando o único tipo de gente que fica feliz naquele sofrimento todo: jipeiros!

Só eles mesmo , com suas máquinas potentes e espartanas, faziam daquele percurso impensável pra quem vive no asfalto uma celebração da vida, atolando e desatolando às gargalhadas,  comemorando a travessia de cada charco lamacento se tapando de barro e depois festejando o fim da jornada  com barulhentas churrascadas.

Naquela vez, eu e minha equipe, o repórter cinematográfico Clóvis Maciel e o operador de VT Alegrete fomos numa camionete Ford Rural de um dos jipeiros. Um veículo 4×4 com um motorzão adaptado e pneus enormes, todo preparado para aquela guerra.  Ainda assim, atolamos no meio da Lagoa do Peixe, onde a profundidade média é de meio metro. Sim, atravessar a lagoa também fazia parte da diversão da turma.

Ficamos “ilhados” e congelados, pois chovia e ventava forte. Era o auge do inverno. Pra amenizar nosso sofrimento, o motorista sacou da mochila uma garrafa de conhaque Dreher.

Os jipeiros estavam com dificuldades para desatolar a Rural, que era muito pesada e estava colada ao fundo da lagoa. Um deles veio caminhando com água até a cintura e disse que precisávamos descer para aliviar o peso.

Alegrete, com seu jeito fanfarrão e vozeirão de galpão, deu uma gargalhada e, agarrado à garrafa de conhaque, declarou:

– Daqui não saio nem morto!

Clóvis não disse nada, mas sinalizou com o olhar que não estava nada disposto a se ensopar e congelar do lado de fora. Sobrou pra mim:

– Tá bom, fiquem aqui. Espero vocês na margem.

Tirei minhas calças e botas, e saí da camionete. Só de cuecas da cintura pra baixo, caminhei uns 600 metros com água na virilha até alcançar a margem, onde o resto do comboio aguardava o fim do resgate. Quando pisei na areia não sentia as pernas, que pareciam petrificadas de tanto frio.

Cerca de uma hora depois meus colegas chegaram, secos e faceiros, me sacaneando com perguntas marotas sobre a minha heróica travessia.

DE VOLTA AO INFERNO

Atravessei aquele bendito trecho da  BR 101 outras três vezes desde a aventura com os jipeiros.  Em uma delas, decidimos fazer uma parte do percurso de volta pela beira mar, evitando o pior trecho da estrada, de Tavares a Mostardas. Foi uma decisão arriscada.

Estávamos numa camionete Ipanema, carro comum da reportagem. A equipe tinha o repórter cinematográfico José Henrique, a produtora e editora Monica Roemmler e o motorista, o veterano Mendes.

Foi um percurso pra lá de tenso. Estava anoitecendo e a maré subia rapidamente, nos fazendo andar cada vez mais rente às dunas para escapar do avanço da água. O trajeto era cheio de buracos que a gente só via quando estava encima. Tínhamos também que desviar de incontáveis tocos grossos de madeira espetados na areia, onde os pescadores amarravam suas grandes redes de espera. Um zigue-zague maluco na escuridão, num fim de mundo, com o mar lambendo ameaçadoramente nossos pneus e sem ninguém por perto pra socorrer caso ficássemos presos na areia.

Mas conseguimos chegar sãos e salvos graças à habilidade do Seu Mendes, que saiu do carro extenuado.

A JORNADA QUE PARECIA NÃO TER FIM

A mais sofrida e demorada travessia foi no ano de 2000. Voltamos à região para produzir duas reportagens para o Jornal Nacional. Uma na Lagoa do Peixe, sobre as aves migratórias que chegam em bandos de milhares na região, vindas do hemisfério norte, e outra em Rio Grande, onde embarcaríamos em um navio da Marinha para registrar o regresso de pingüins que, depois de tratados por pesquisadores do Centro de Recuperação de Animais Marinhos da Universidade Federal de Rio Grande,seriam devolvidos ao mar para encontrar o caminho de volta á Antártica.

Na minha equipe estavam o repórter cinematográfico Ricardo Nunes e o motorista Kurt Bohusch. Sabendo o que nos aguardava, e com prognóstico de tempo ruim, partimos em uma camionete S-10 4×4.

Chegamos à Lagoa do Peixe no meio da manhã, sem maiores problemas. O céu estava carregado mas ainda não chovia. Fechamos a matéria, e duas horas depois começamos a nos deslocar para Rio Grande. E aí começou o nosso purgatório.

Ainda na Lagoa do Peixe atolamos na travessia de uma lâmina dágua.

Não tinha jeito da camionete sair. A salvação veio com os veículos dos pescadores que moram ali. Geringonças construídas por eles com pedaços de madeira e metal enferrujado sobre chassis de veículos abandonados. Os motores eram movidos a gás de cozinha. Cada calhambeque daqueles levava um ou dois botijões de 13kg. Uma maravilha da engenharia nativa nascida da necessidade de sobrevivência num lugar inóspito, sem nenhum tipo de serviço, muito menos postos de combustíveis.

Kurt olhou com desdém para aquela coisa barulhenta que se aproximava chacoalhando como se fosse se desmanchar ali mesmo.

“ Essa eu quero ver!” disse ele .

E viu. Em poucos minutos e sem muito esforço a traquitana movida a gás de fogão rebocou nossa flamante 4×4 para fora do lamaçal.

  Apesar do aspecto bizarro, aquelas máquinas que lembravam os veículos pós-apocalipse do filme Mad Max eram pau pra toda obra. Transitavam naquele ambiente como bichos á vontade no seu habitat natural.

Agradecemos a ajuda do pescador, que ao se despedir com um sorrisinho debochado avisou:

– Se atolarem de novo é só chamar!

Aquela atolada foi apenas o primeiro infortúnio do dia. Ao retomar a trilha que os mapas rodoviários denominam de Br 101, o céu veio abaixo.

Tínhamos apenas 77 km pela frente até São José do Norte, onde pegaríamos a balsa para Rio Grande. Numa estrada razoável, levaria cerca de uma hora.

Mas aquela era a Estrada do Inferno – e em seu melhor momento, com temporal desabando sem trégua!

Não deu nem vinte minutos de percurso e lá estávamos nós de novo enfiados no barro. Por mais que tentássemos permanecer no “trilho”, parecia que a estrada puxava a S-10 para os atoleiros.

Algum tempo depois apareceu o caminhão de uma empreiteira. Com a solidariedade de quem está acostumado com os revezes daquele caminho, o motorista amarrou um cabo e conseguiu nos livrar. Antes de seguir viagem, pegou uma pá no caminhão que me alcançou com uma recomendação:

– Ó, toma aí, vocês vão precisar. Depois é só deixar a pá no posto de gasolina lá em Bojurú, que eu passo lá e pego. Boa viagem pra vocês.

Bojurú era um vilarejo que ficava uns 20km adiante. Fiquei pensando se chegaríamos lá…

Seguimos em frente, sempre aos solavancos e derrapadas, “rabaneando”  a S-10 através daquele banhado que ousavam chamavam de estrada.

– Olha o buraco, desvia,desvia!!

Não adiantava. Parecia que a trilha é que governava a camionete. E lá estávamos de novo enfiados no barro.

Pelo menos a chuva tinha dado uma folga. Mas o cinza chumbo no céu e a brisa morna indicavam que o alívio não iria durar muito.

 

 

Pegamos a pá e ficamos nos revezando apressadamente na escavação. Depois de muito suor e com os braços doloridos conseguimos livrar a camionete e retomar o caminho.

 

Agora a chuva havia voltado com toda força. Castigava o para-brisas dificultando ainda mais o trabalho do Kurt. Os limpadores não davam conta do aguaceiro.

Seguíamos corcoveando, tentando enxergar a trilha e rezando para não atolar de novo.

Mas a reza não adiantou.

Agora estávamos num trecho totalmente inundado, com a água alcançando as portas. A chuva martelava ruidosamente o teto da cabine.

O cenário lá fora era absolutamente desolador.

– E agora? Sair daqui como?

Ficamos um tempo em silêncio tentando digerir aquela situação e pensar no que fazer.Então falei:

– Não adianta, gurizada. Vamos ter que ir lá fora e meter pá de novo, pra valer, senão vamos passar a noite aqui.

Era trabalho inútil. Quando mais a gente cavava, mais água vinha. Ricardo olhava ao redor tentando ver algum sinal de civilização ao longe, mas nada:

– Estamos ferrados. Quem vai passar por aqui com essa tempestade?

Mesmo assim continuamos cavando, cada vez mais cansados e encharcados.

Quando já estávamos no limite do desânimo total, ouvimos o som de um motor. Alguns minutos depois apareceu um trator, vindo na nossa direção. Era a visão de um oásis no deserto. E não era miragem!

O tratorista, um agricultor, disse que já estava acostumado a resgatar viajantes naquele trecho. Morava alí perto e viu nosso desespero de longe.

– Não se preocupem, já já eu tiro vocês daí.

A chuva parou no momento em que ele conseguiu nos tirar do aperto. Pagamos uma quantia pelo providencial socorro e retomamos a viagem.

Dali em diante a estrada estava mais transitável. E conseguimos chegar a São José do Norte ao anoitecer, depois de consumir mais de 11 horas de viagem num trecho de apenas 77 km.

Passamos a noite numa pensão e no dia seguinte já estávamos no mar, a bordo no navio patrulha Benevente, registrando o início da jornada dos pingüins lançados ao oceano para reencontrar as correntes que os levassem de volta á Antártica.

Voltamos para Porto Alegre no final da tarde, mas desta vez pela Br 116.Mesmo com aquele asfalto bem meia-boca, parecia um tapete mágico comparado ao trajeto do dia anterior.

A bordo do Benevente