A WEB E A MANIPULAÇÃO DOS JORNALISTAS

Manipular jornalistas inexperientes é uma prática antiga de governos, políticos e setores da economia. Muitas vezes, por conta de seus interesses, o próprio veículo de comunicação é conivente.

Nestes tempos multiplataforma, onde os novatos já começam num ambiente multitarefa, a web é a fonte principal de informações rápidas para tratar as pautas do dia e publicar sem demora.

Com redações cada vez mais áridas de veteranos experientes que possam orientar os novos sobre as abordagens e suas armadilhas, os recém chegados ao mercado basicamente dependem da rede e de parcas informações da pauta (também pesquisada na web) para se municiar e ir à luta.

O problema da pesquisa apressada no Google ou nos sites de notícias é que raramente se encontra alí o contexto aprofundado, os meandros, o fio da meada, o lado obscuro da pauta. E ainda tem as famigeradas fakenews para piorar o quadro.

E aí a rapaziada vai ao combate para tratar às vezes de assuntos muito complexos tendo apenas uma visão geral. É quando ficam vulneráveis às aves de rapina que caçam novatos entusiasmados e os ludibriam com informações dirigidas e totalmente voltadas para interesses pouco confessáveis.

APRENDENDO COM A MANIPULAÇÃO

Ao longo da minha trajetória de mais de 30 anos de jornalismo, sempre tive em mente uma experiência de início de carreira em que fui escancaradamente manipulado e agi como um perfeito idiota em favor de interesses duvidosos.

Foi em 1985. Eu era repórter na TV Guaíba e tinha pouco mais de um mês na profissão.

Na época, a empresa, antes poderosa, operava precariamente, sofrendo com a derrocada do império Caldas Júnior, então dono também do Correio do Povo e da Rádio Guaíba.

No sistema financeiro regional, havia dois grandes grupos, o Habitasul e o Sulbrasileiro. Duas instituições tradicionais que estavam quebradas, á beira do abismo por conta de má administração, falcatruas e o próprio contexto da economia.

Eu conhecia as corporações, mas para mim não passavam de bancos.

Fui escalado para uma entrevista especial com o dono do Grupo Habitasul, Péricles Druck. A pauta era sobre a “pujança” da instituição.

Era uma “exclusiva”, só eu e o ilustre. Ele muito atencioso, gentil, dispondo de todo tempo do mundo. E eu, achando que tinha sido distinguido com uma matéria importante, fazia um monte de perguntas idiotas sobre grandes perspectivas do grupo, projetos futuros, investimentos vultuosos, geração de empregos, etc.

O assessor dele ficava elogiando minhas abordagens com a maior simpatia.

Saí de lá me sentindo um jornalista de verdade.

No outro dia, TODOS os jornais mancheteavam a intervenção federal no Habitasul e no Sulbrasileiro. As duas instituições desabavam escandalosamente, gerando sérios abalos no mercado financeiro regional. Centenas de funcionários desamparados protestavam em frente às agências lacradas, investigações sobre responsabilidades eram deflagradas.

Naquele dia, envergonhadíssimo,caí na real.

Semanas depois, minha pauta era mostrar a eficiência do serviço de coleta de lixo da capital. Fui enviado para um local onde um caminhão reluzente do DMLU me esperava, com garis vestindo uniformes engomados e luvas novinhas para proteger as mãos naquele  trabalho duro e arriscado.

Desta vez senti a maldade. Fomos lá e gravamos o pessoal trabalhando todo arrumadinho. Depois, desvencilhado da assessoria do órgão, saí em busca de outro caminhão do serviço. Encontrei um poucas quadras adiante, velho e enferrujado, com garis catando sacos de lixo sem luvas e vestindo uniformes sujos, incompletos e rasgados.

Fiz a matéria mostrando o contraste entre a posição oficial e a realidade. E foi ao ar assim mesmo.

“Nunca mais me pegam”, comentei com o meu cinegrafista, que completou com um “Bem feito!”

Manipulações de jornalistas sempre serão um risco. Mas os mal intencionados (dentro da empresa de comunicação e fora dela) em princípio evitarão envolver profissionais que tem uma atitude mais firme e consciente.

Os alvos prediletos são os incautos, desinformados e inexperientes.

 

E também aqueles que, mesmo calejados, abraçam a pauta suspeita em nome de seus próprios interesses. Estes sempre existirão, e acabam sendo marcados entre os colegas por esta postura. É uma questão de consciência e caráter.