A EQUIPE TODA NO MOTEL!

Vinha sendo uma semana de trabalho pesado. A equipe da TV Gaúcha (os Sirotsky ainda não tinham mudado o nome para RBSTV) percorria a região norte do RS, fazendo matérias para as comemorações da Semana da Terra.

Naqueles tempos (o ano era 1985) equipe de televisão era quase uma delegação. Na camionete Chevrolet Veraneio estavam a repórter Suzana Naiditch, o cinegrafista Luis Quilião, o operador de VT Paulo Bairros (o fanfarrão Alegrete), o auxiliar técnico Vinícius Cernichiaro (cuja função tinha o injusto e ridículo apelido de “pau de luz”, porque operava o kit de iluminação) e o motorista Celso, o “Graxa”.

Se uma equipe de TV daquele tempo fosse uma banda de rock, o pau de luz seria o equivalente ao baterista, que fica no fundo do palco pegando pesado fora do foco principal. Mas aquela viagem proporcionou um inesperado momento de “glória “ para o auxiliar técnico.

Quilião gravava imagens do campo quando pediu a Vinícius que fosse até a camionete buscar o tripé, que era bem mais pesado que os modelos de hoje. O dedicado pau de luz vinha descendo uma coxilha meio aos tropeços, com o tripé no ombro, quando desabou pelo costado de uma bossoroca, um buraco escavado no campo pela erosão. Quilião, que não perdia nada,gravou a cena que acabou sendo usada na chamada da programação.

A valente Veraneio

Mas o momento mais inusitado da jornada ainda estava por vir.

Anoiteceu e a equipe seguia pela estrada em busca de algum lugar para dormir e se recuperar para o dia seguinte.

Na primeira cidadezinha que encontraram, não havia vagas. Seguiram adiante, já desconfiando que na próxima localidade as chances também não seriam muito boas.

Foi quando viram um letreiro luminoso num pequeno prédio à beira da estrada. Resolveram ir até lá na esperança que fosse uma pousada de camioneiros ou algo assim.

Quando chegaram mais perto perceberam que tipo de lugar era aquele: um legítimo motel espelunca de beira de estrada.

Extenuados, decidiram arriscar. O importante era arranjar alguns quartos, tomar um banho e dormir.

Embora fosse noite, uma idosa capinava o jardim perto da portaria. Quando ouviu a camionete parando ao lado dela, largou a tarefa e ficou olhando desconfiada para aquele carro cheio de homens e uma mocinha, na porta do motel.

Alegrete, com seu vozeirão galponeiro, toma a frente:

– Boa noite! A senhora sabe se tá funcionando, se tem vagas?

A velhinha se aproximou toda cautelosa, e olhou para os parrudos dentro da camionete (Vinícius era o único magro), com a maior cara de quem vai lascar um sonoro  “Pouca vergonha!”.

Ela ignora o Alegrete, e muito séria, um tanto assustada, olha direto para Suzana:

– Ô mocinha, tu não acha que é meio franzina demais pra esses quatro baita home aí?

Gargalhada geral dentro da Veraneio. A velhinha não entendeu nada.

O aspecto nada animador do motel de beira de estrada fez a equipe desistir e seguir viagem noite adentro na esperança de encontrar um lugar decente pra descansar.

Muitos quilômetros depois encontraram um hotelzinho razoável onde finalmente puderam repousar, sem que ninguém pensasse que eram um bando de jornalistas sem-vergonhas.