A DIFERENÇA ENTRE CÓPIA E INSPIRAÇÃO

Em televisão nada se cria, tudo se copia, dizia Abelardo Barbosa, o mítico Chacrinha.

O ditado do velho guerreiro se cristalizou através dos tempos como uma verdade difícil de ser contestada no universo da telinha, onde tudo que se anuncia como inédito quase sempre disfarça o requentado.

No telejornalismo não é diferente. A busca pela originalidade é o Santo Graal tão almejado quanto utópico.  O que mais se vê nos programas jornalísticos de norte a sul é a repetição incessante de modelos surrados, mas que continuam sendo seguidos cegamente. Quando alguém questiona esta teimosia, a resposta geralmente é algo do tipo “sempre se fez assim, então é assim que se faz.”

A coisa é tão arraigada que tem até piada pra isso. Quando vemos as reportagens sobre compras de fim de ano, altas de preços de alimentos, etc, o pessoal sacaneia: ”Porque não pegaram no arquivo a matéria do ano passado?”.

Bom, e como ser original na planície do marasmo e da mesmice?

Requisitos básicos: criatividade, base cultural e ousadia.

. Criatividade com bom senso para ser inventivo sem bancar o engraçadinho bisonho;

. Base cultural para explorar referências consistentes e adequadas ao assunto;

. Ousadia para alçar vôo na imaginação sem medo de comprar briga com os medíocres ao redor, incluindo chefes conservadores e burocráticos.

COPIANDO COM ESTILO!

Por mais que insistam que “é assim que se faz porque sempre se fez” , não dá pra ficar insistindo no comodismo de fazer a cópia do xerox do carbono da terceira via.

Se vai copiar, então que o faça com estilo!

Certa vez, na RBSTV, recebi uma daquelas chatíssimas pautas de supermercado. A missão era mostrar a variação dos preços de verduras e frutas. Um economista explicou que as diferenças eram provocadas pela sazonalidade dos produtos,  a época do ano em que eram produzidos. Daí veio a ideia para uma guinada na matéria.

Me inspirei na linguagem do humorístico TV Pirata (Globo), que fazia muito sucesso na época. O programa tinha quadros que parodiavam reportagens, fazendo enquetes com público de verdade, nas ruas.  Resolvi apostar. Em tom bem humorado, explorei nas enquetes o significado daquela palavra esquisita para público em geral.

– A senhora sabe o que é sazonalidade?

– Ihhh, nem faço idéia!

– Ah, é quando um produto fica na parte de cima da prateleira!

– Hummm, já sei, é o setor do super onde a gente procura o que quer, né?

Pedi ao pessoal da computação gráfica que produzisse uma vinheta parecida com o conceito visual do TV Pirata. A imagem destacava a palavra sazonalidade com letras engraçadas e muitas cores, cercadas por pontos de interrogação que ficavam pulando ao redor.  A locução induzia ao teste: “A palavra é: sazonalidade!”

E na sequência entrava a enquete com repostas engraçadas mas no tom certo para não ridicularizar ninguém.  Mais adiante vinham as explicações sobre porque os preços variavam tanto.

A fórmula baseada no humor funcionou bem para dar um ar renovado e mais leve para um assunto tão batido e ainda deu uma arejada no tom formal do RBS Notícias, principal noticiário da emissora. A editora chefe Lilian Chagas adorou!

IMITANDO OS ÍDOLOS SEM MEDO 

Apesar do sarcasmo do Chacrinha, copiar pode ser mais do que malandragem. Há vantagens muito úteis para a formação do estilo pessoal ao se basear em algo já feito.

Todos nós temos nossas referências profissionais, nossos ídolos.

Não há nada de errado em conduzir uma reportagem ou escrever um texto do jeito que faz aquele profissional que você tanto admira. Com a prática, a “imitação” dos ídolos contribuirá para o molde definitivo do seu próprio estilo, que irá incorporando outros elementos com o passar do tempo até se tornar a sua marca pessoal.

O importante é saber escolher bem os seus modelos. Procure se espelhar nos profissionais que conduzem suas reportagens – seja qual for a mídia – com textos elaborados,consistentes e performances com classe e originalidade.

Não adianta copiar fórmulas medíocres e jogar para a platéia, como fazia Chacrinha ao perguntar “Quem quer bacalhau??”