A CADEIRA DE TORTURA, O SUS E A MÍDIA

As unidades de saúde pública são um prato cheio para a imprensa. Os problemas de atendimento sempre rendem coberturas tensas e geralmente carregadas de exagerada dramaticidade.

Problemas antigos como demora no atendimento, condições precárias em muitas unidades e pacientes mal acomodados ou maltratados ainda são uma triste realidade, embora o SUS – especialmente em Porto Alegre – seja muito menos problemático e bem mais eficiente do que a grande mídia faz parecer.

Coordenei a Comunicação Social da Secretaria de Saúde da capital gaúcha por três anos (2013 a 2015). Lidar com saúde pública é um dos melhores exercícios de gerenciamento de crise institucional e de imagem. Pelo menos no Brasil. E no caso de Porto Alegre, nem é tanto por causa do “caos” na saúde, expressão que virou regra na imprensa e título obrigatório para séries de reportagens nesta área.

A gestão de crise aqui no sul do mundo, mais que os reais problemas do SUS, era  – aliás sempre é – turbinada pela abordagem sensacionalista que se tornou obrigatória quando se trata de saúde pública.

Denúncias envolvendo questões de atendimento, mesmo quando procedentes, ganham uma dimensão absurdamente trágica na condução de repórteres ávidos por extrair o máximo de dramaticidade da situação. E encontram eco desmedido na boca de apresentadores quase ensandecidos que aproveitam para ampliar a gritaria e exaltar seu papel de paladinos da justiça em nome do povo sofrido nas filas dos postos de saúde.

Tudo isso gera um enorme esforço de resposta por parte dos órgãos de saúde, bombardeados impiedosamente pela mídia. O mais complicado não é responder com a verdade – que é a melhor técnica de gestão de crise, especialmente nesta área. O grande problema é desconstruir as versões pré-estabelecidas pela imprensa. É uma luta inglória das assessorias para que argumentos técnicos concretos se sobreponham a suposições viciadas, não raro mal intencionadas.

Insisto: não se trata de negar os problemas do SUS. Eles existem e são sérios, de norte a sul.

O SUS é uma grande ideia que sofre por não ter sido contemplada com dispositivos práticos que realmente dessem sustentação adequada ao seu propósito de atendimento universal e gratuito num pais continental e desigual como o nosso.

Mesmo assim é uma estrutura que merece respeito pelo que consegue fazer com tantas dificuldades.

A questão é o quanto este esforço recebe tratamento adequado na mídia, nesses tempos de queda vertiginosa na qualidade jornalística, com redações cada vez menores e veículos cada vez menos interessados em apurações consistentes.

E aqui relato dois casos que em que atuei como responsável pela comunicação da SMS, que exemplificam bem a dificuldade de lidar com preconceitos jornalísticos nesta área.

O POSTÃO SITIADO PELA MÍDIA

A pressão da mídia havia se tornado algo tão agressivo nas unidades mais emblemáticas que os funcionários sentiam-se sitiados e impotentes diante da movimentação dos jornalistas.

As unidades móveis das TVs e de outros veículos de comunicação adonavam-se dos acessos exclusivos das ambulâncias do SAMU e ali se instalavam com seus enormes aparatos de transmissão ao vivo, baseados na falácia de que posto de saúde era uma estrutura pública e que por conta disso qualquer um poderia entrar a qualquer hora sem ser incomodado.

Numa manhã recebi um chamado aflito da direção do Postão da Vila dos Comerciários, um dos maiores da capital. Fui imediatamente até lá e encontrei duas enormes unidades móveis de transmissão de TV bloqueando a entrada das ambulâncias na Emergência e atrapalhando até mesmo o acesso aos pacientes que chegavam a pé ou de táxi. Técnicos das emissoras entravam e saíam do prédio  arrastando centenas de metros de cabos pelo saguão onde dezenas de pacientes aguardavam chamada para seus procedimentos.

Não havia nenhum factual inédito, a não ser o recorrente problema de demora no atendimento.

Notei duas ambulâncias do Samu estacionadas na rua. Os paramédicos me relataram que tiveram que levar os pacientes feridos em macas desde lá até a Emergência porque não conseguiram acesso.

A direção do posto relatou disse que as equipes de imprensa chegaram sem avisar e rapidamente tomaram de assalto o pátio.

Não se pode ignorar que eventualmente pode haver conivência de algum servidor, que facilita o acesso da imprensa nestes casos para que haja repercussão de denúncias muitas vezes feitas com obscuros objetivos político-sindicais.

Mas o fato é que a imprensa agia naquele momento sem se importar com a dinâmica de funcionamento do posto e os potenciais riscos ao atendimento.

Falei com os técnicos das TVs (eu conhecia a maioria) e pedi com educação – mas com firmeza – que retirassem tudo aquilo dali, explicando porque as coisas não podiam ser feitas daquele jeito. Houve alguma resistência porque temiam a reação de seus chefes, que haviam programado as intervenções ao vivo dos repórteres que já estavam chegando.

Expliquei então que as entradas ao vivo poderiam ser feitas sem problema algum, mas que o aparato todo tinha que ficar fora da unidade, junto ao portão principal, e não dentro, dificultando o crucial acesso das ambulâncias e dos pacientes.

Eles comunicaram aos seus chefes e acataram meu pedido sem que houvesse conflito. As vans e suas antenas parabólicas foram para onde estavam as ambulâncias, e estas puderam retomar seus espaços. Os repórteres chegaram e fizeram suas entradas ao vivo, acessando o saguão e conversando com pacientes sem nenhuma restrição.

Este episódio me levou a editar, com autorização do Secretário de Saúde,do Prefeito e após parecer dos setores jurídicos, uma nova regra de acesso da imprensa às unidades de saúde. O texto reiterava a liberdade de cobertura que a SMS estimulava mas determinava obediência às normas básicas de qualquer unidade de saúde. Para explicar a medida, conversei pessoalmente com os editores de todos os veículos. Ninguém criou problemas. Desde então o fato não se repetiu. Pelo menos enquanto estive responsável pela comunicação da SMS.

A “CADEIRA DE TORTURA” DO SUS

A chamada do programa de meio dia era espalhafatosa: ressaltava com estridência que o SUS usava sucatas de cadeiras plásticas de jardim para acomodar os pacientes nas emergências.

Ao vivo, a repórter descrevia as cadeiras de rodas que encontrara junto à entrada da Emergência do Postão da Vila dos Comerciários. O cinegrafista mostrava em detalhes. No estúdio, o apresentador vociferava indignado com a imagem:

– Que absurdo, olha que barbaridade, sucata de cadeira de plástico toda quebrada pra levar os pacientes!  Que pouca vergonha, uma gambiarra, isso é uma cadeira de tortura! Que falta de respeito deste SUS! Alguém precisa denunciar isso, é por isso que estamos aqui!!

Na mesma hora liguei para a redação do programa e expliquei do que se tratava.

Eram, de fato, cadeiras plásticas de jardim, daquelas brancas que todo mundo conhece. Mas não eram sucatas. Eram doações feitas por uma ONG internacional, que encaixava em cadeiras novas estruturas metálicas especialmente preparadas que as transformavam em eficientes cadeiras de rodas. Tudo com padrão técnico reconhecido e referendado por plaquinhas de identificação da origem em cada peça, que apareciam claramente nas imagens. Essas cadeiras eram enviadas pela ONG para vários países e distribuídas no Brasil pelo Rotary Club.

E porque cadeiras de plástico? Porque são uma solução barata e eficiente para pacientes que chegam ensanguentados,sujos de vômito,urina ou fezes. Depois que os pacientes são levados para a Emergência, as cadeiras são facilmente lavadas e desinfetadas. E em minutos estão de volta ao serviço. Uma praticidade fundamental numa unidade pública de emergência médica.

Por mais que eu explicasse tudo isso aos editores do programa, meus argumentos não venciam a sanha pelo espalhafato e ao irresistível apelo para detonar o SUS.  Por três dias consecutivos a emissora repetiu aquela abordagem, como se fosse autora de uma estrepitante denúncia exclusiva que merecia o máximo de repercussão.

Só no terceiro dia, depois de explorar aquela imagem à exaustão, o apresentador explicou, sem nenhuma ênfase, para que aquelas “torturantes” cadeiras eram realmente utilizadas.