A BOLSINHA DO PERÚ

Essa é dos tempos em que o povo da reportagem era mais ousado e se garantia na lida.

No final do ano, como tantas outras empresas, a RBS presenteava os funcionários com  kits de iguarias para os festejos natalinos e de reveillon. O mimo geralmente incluía um suculento chester, um generoso pedaço de presunto  tender e mais algumas gostosuras, além do sempre bem vindo espumante.

Mas o que a galera da “graxa” (jargão televisivo de gosto duvidoso que define o pessoal técnico dos estúdios e da reportagem, os que pegam no pesado) gostava mesmo era da embalagem. Eram bolsas térmicas com zíper, bem práticas e resistentes.

Especialmente para as coberturas de carnaval…

A famosa “bolsinha do peru” era um valioso equipamento de apoio.

Naqueles tempos em que as equipes de reportagem ficavam na avenida cobrindo os desfiles das escolas de samba de Porto Alegre desde o  entardecer até o raiar do dia seguinte, as jornadas eram um tanto cansativas.

Para encarar a tarefa, pelo menos um integrante de cada equipe de reportagem e de transmissão trazia a indispensável bolsinha abarrotada não de guloseimas, mas de gelo e latas de cerveja. Muita cerveja.

O “equipamento” especial ficava no carro da reportagem, no estacionamento, ou escondido em algum camarote confiável. A cada intervalo entre uma escola de samba e outra, o pessoal  dava uma escapada para sorver enebriantes geladas e recarregar as energias para a noitada.

Naquelas noites abafadas de carnaval, era um santo remédio para agüentar o tranco, andando pra lá e pra cá arrastando câmeras e cabos, entrevistando gente na avenida e nas arquibancadas e gravado os desfiles.

Todo mundo ficava bem faceiro com aquelas escapadas estratégicas e ninguém passava da medida.

Quando o estoque acabava, reposição não era problema. Bastava ir a um camarote das escolas de samba, onde sempre havia um freezer lotado e “informalmente” à disposição da imprensa.

Numa destas coberturas, eu estava chegando com minha equipe para começar a jornada. Ao passar pela arquibancada, uma senhora apontou para a minha bolsa térmica e comentou com a amiga:

– Olha Lurdes, que bacana, o pessoal da TV vem pra avenida trazendo a própria refeição! Coitados, eles precisam mesmo, deve ser bem cansativo!

Pois é, Dona Lurdes, a senhora nem imagina…

Todos tomavam cuidado pra não passar da medida. Quando  algum colega começava a exagerar no consumo, os parceiros davam o alerta para evitar problemas. Geralmente funcionava…

Claro que, no final da extenuante jornada, dia raiando na hora do famoso Arrastão, já tinha colega meio que se arrastando. Mas aí já estava tudo acabado, e a tarefa agora era se recuperar para a noite seguinte na avenida. Com a bolsinha do peru sempre por perto, naturalmente!