A BITUCA BENTA

Heresias do jornalismo…

A equipe da TV Gaúcha (anos 80, ainda não era RBSTV) aguardava para gravar uma entrevista na ala residencial da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre.

Ali residiam os padres que administravam o complexo hospitalar centenário que era (e é até hoje) a salvação para milhares de desvalidos.

A repórter e sua equipe já estavam ali há algum tempo, e nada do padre aparecer.

Aquele ambiente, embora não fosse uma igreja, tinha o clima solene das catedrais e seu silêncio característico, mesmo localizado no centro de Porto Alegre.

Na pasmaceira da espera, era um convite irresistível para uma soneca.

Havia ali também alguns elementos típicos das igrejas e sempre procurados pelos fiéis, como a…Calma, deixa a história rolar.

Aquela paz toda foi se transformando em letargia para a equipe de TV. A repórter acendeu um cigarro e passou a divagar em silêncio, sozinha num canto, recostada em um banco, flertando acintosamente com um convidativo cochilo.
E tal como um sonoro bocejo, aquilo contagiou os demais.

Eis que alguém avisa que o padre da entrevista está chegando. A repórter, imersa em sua profunda e traiçoeira sonolência, não ouviu. O cinegrafista Airton Sossmeyer, profissional recém chegado do interior, tratou de acordar a equipe, exagerando um pouco no tom do alerta:

– O padre chegou, vamulá!!

A repórter toma um susto, e ainda sonolenta, instintivamente busca meio às cegas um lugar para apagar o cigarro.

Naquele silêncio sepulcral, foi possível perceber sutilmente o “sssssssss” da chama se extinguindo num liquido.

Só que não era um líquido qualquer.

O cinegrafista percebeu o gesto involuntário da colega.

– Tu viu onde apagou o cigarro?

Ela, ainda meio zonza pelo cochilo, não entendeu aquele tom de advertência.

– Hã? Quié, o que que foi?

– Tu enfiou a bagana na pia de água benta!

A repórter não tinha percebido que estava sentada ao lado de uma pequena bacia de mármore afixada na parede, onde havia uma lâmina de água benta para os fiéis que necessitassem de bênção para suas preces.

Ela arregalou os olhos para o colega, procurando conter o espanto:

– Puta merda, e agora??

– Já era, vamulá que o padre tá esperando. Ainda bem que ele não viu.

O religioso se aproximou, convidando a equipe para outro ambiente, com aquela voz macia e terna dos padres. Não deu tempo para remover a prova da heresia, que ficou ali flutuando pecaminosamente na água abençoada.