60 E O POUSO SOFRIDO

O Boeing 737-200 da Varig se aproxima do Aeroporto Carrasco, em Montevideu. Tempo feio, chuva fina.

Eu e o repórter cinematográfico Gilmar Tedesco, mais conhecido pela alcunha “60”, fomos ao Uruguai fazer reportagem para o Jornal Nacional sobre uma brasileira que morreu em circunstâncias misteriosas no Conrad, o cassino mais famoso da elegante cidade de Punta del Este.

Em vez de pousar, o jato lotado ganha altura e dá uma volta sobre a pista. 60 fica encasquetado e comenta com o vozeirão que alcança meio avião:

– Ihhh, que porra é esta, porque ele não desce de uma vez?

60 é o tipo que carrega uma fama injusta. Sujeito alto, forte, leva no rosto marcado por cicatrizes de um acidente uma permanente expressão grave, quase carrancuda. Gosta de falar alto e de reclamar das coisas em tom áspero e ruidoso.

Tudo isso contribuiu para uma imagem de severidade que no fundo contrasta com sua verdadeira personalidade, que é de uma pessoa atenciosa, educada e de grande coração. E um baita repórter cinematográfico.

Mas 60 não era muito paciente. E aquele vôo de chegada não ajudou em nada.

O piloto dá mais uma volta sobre a pista. Começo a ficar desconfiado que algo não vai bem. Dá pra ver que lá embaixo não há outros aviões taxiando, o que poderia justificar a demora em pousar.

60 me olha com aquela cara fechada. E o Boeing toma novamente o rumo da pista.

“Acho que agora vai”, comenta ansioso. Sentado na poltrona do corredor, se estica todo para levar o olhar até a janela, duas poltronas ao lado.

O avião começa a descer, alinhado com a pista. O zumbido dos atuadores hidráulicos nas asas indica que os flaps estão sendo acionados. Estamos a uns 8 metros de tocar o solo. 60 se recosta na poltrona, aliviado.

Mas o ronco das turbinas aumenta bruscamente e o avião começa novamente a subir, num leve solavanco que deflagra murmúrios de preocupação entre os passageiros.

Espero alguma informação da tripulação pelos alto-falantes. Mas nem um pio.

O Boeing vai ganhando altura, e 60 vai perdendo a pose.

– Mas que merda é essa?? – rosna, agarrado na poltrona.

Inclina o corpo para o lado, mete a cabeça no corredor e dirige o vozeirão para a porta fechada dos pilotos, ecoando por toda a cabine de passageiros:

– Tá, e aí meu?? Pra onde tu tá indo??

Tento tranquilizá-lo, meio sem saber o que dizer.

– Fica frio, devem ser ordens da torre, te acalma aí…

– Torre é o cacete, não tô gostando nada disso!

Minutos depois o avião está novamente no rumo da pista e descendo. Barulho de flaps baixando, motores reduzindo, todos os sons da rotina de pouso.

Mas a arremetida se repete. A poucos metros de tocar a pista o piloto acelera e faz o Boeing voltar a subir, agora num ângulo mais acentuado.

60 perde a esportiva de vez e quase berra:

– Aaahhh pa puta que pariu, pra onde essa porra vai agora????

Vários passageiros se viram para ele, com expressões tensas. Mas ninguém fala nada. Todo mundo quieto, atados em suas poltronas. O único a protestar é 60, o barulhento porta-voz da angústia geral a bordo.

Um blim-blom nos alto-falantes sugere que a tripulação vai falar alguma coisa. E nada.

Mais uma tentativa de pouso, e desta vez todos ouvem aliviados os pneus “cantarem” no atrito com a pista. Alguns passageiros aplaudem, entre manifestações de “Graças a Deus” e “Finalmente!”.

60 resmunga sem parar ao meu lado, enquanto solta o cinto de segurança, doido pra desembarcar.

– Piloto filho da puta, encagaçou todo mundo!

Quando o avião finalmente estaciona, o lacônico comandante dá o ar da graça pelos auto-falantes:

– Senhores passageiros, desculpem o contratempo. Tivemos um probleminha no trem de pouso. Mas depois ele funcionou. Uma boa estada a todos!

Apressados para desembarcar depois de tantos sustos, a maioria dos passageiros nem prestou atenção.

Ao passar pela porta da cabine de comando, que continuava fechada, olhei opara o 60 e tive a nítida a impressão que ele ia meter o pé e passar uma carraspana nos pilotos. Mas apenas dirigiu um olhar tenebroso para a coitada da aeromoça que, parada junto à saída do avião, ainda conseguiu armar um sorrisinho bem amarelo, um tanto assustado, sem dizer nada. Nem adiantaria…