O GALPÃO NATIVO E SUAS INCRÍVEIS HISTÓRIAS

Consegue imaginar uma churrascada com fogo de chão fumegando no meio de um estúdio de TV, toda semana? Pois é. O programa era gravado assim. E eu, o responsável pela carne…

Ano de 1983. Eu estudava jornalismo na FAMECOS, início de curso. Tinha descolado um estágio na TVE. Meu primeiro emprego em televisão. Era assistente de produção do programa Galpão Nativo, produção semanal que foi a matriz de todos os programas do gênero na televisão gaúcha.

No meu primeiro contato com o cenário, fiquei impressionado com o realismo.

Reproduzia um galpão de estância daqueles bem originais. Todos os adereços eram verdadeiros. Nada de cenografia fake de isopor ou papelão pintado. Os convidados sentavam em cepos de madeira com pelego, posicionados de forma semicircular, tendo ao fundo uma parede de madeira velha que envolvia quase todo o cenário. Pendurados nela, em pregos, ganchos ou taquaras, havia réstias de cebola, espigas velhas de milho, carcaças de tatu, guampas, ponchos puídos e uma infinidade de tralhas campeiras.

Capa de disco do programa Galpão Nativo

No chão, sacas de pano abertas e abarrotadas de grãos de milho. Rodas de carreta, pelegos em cavaletes onde também repousavam laços, tirantes de couro e as mais variadas peças de arreio. Tudo num arranjo que beirava o caos.

A autenticidade era tanta que aquele cenário preservava o aspecto sujo de um típico galpão campeiro onde a peonada se reunia, com palha de milho pelo chão, tralhas de uso diário no campo jogadas por todo canto, com muita poeira e aquele cheiro característico de murrinha que a gente só percebe estando num velho galpão de estância de verdade.

Tá achando muito? Então espera pra ver como a produção valorizava meeesmo a originalidade campeira.

 

CHURRASCO PRA VALER NO MEIO DO ESTÚDIO!

No meio do cenário galponeiro, no chão de cimento do estúdio, havia um círculo de pedras com um meio metro de diâmetro. Sobre ele, uma grelha toda retorcida de ferro judiado pelo tempo. Debaixo da grelha, cinzas e restos de carvão queimado.

Sim, acredite: era um legítimo fogo de chão, ao redor do qual os convidados conversam, abriam suas gaitas e entoavam a cantoria, sorvendo chimarrão e comendo carne de verdade durante a gravação do programa. Carne mesmo, assada alí, no carvão em brasa!

Para o mate que passava de mão em mão, nada de garrafa térmica: a água era servida com uma cambona, uma lata de azeite sem tampa, toda amassada e cuja alça era um arame grosso enroscado em torno dela. A cambona ficava sobre o fogo da grelha, mantendo a água no ponto.

SAI CHURRASCO, ENTRA SOLUÇÃO FAKE

Como estagiário, além das tarefas habituais de produção, como agendar convidados e sinalizar a regressiva do tempo com plaquinhas durante as gravações, eu era também incumbido de providenciar carne e carvão para o programa.

E mais: atuava como leão de chácara do cenário. A cada intervalo de gravação eu tinha que impedir o assédio dos operadores de câmeras e auxiliares de estúdio aos suculentos pedaços de costela gorda que ardiam sobre o fogo e tinham que durar até o final da gravação.

Quando vinha pelos fones o sinal de “corta, intervalo!”, o pessoal da técnica voava em direção ao fogo de chão. Mas entre eles e o churrasco estava o resoluto estagiário bloqueando o caminho de braços abertos. Uma  indevassável porteira protegendo aquele pequeno e cobiçado rincão que era o Galpão Nativo.

– Pô, Azeredo, deixa a gente pegar só uma lasquinha!

– Nem pensar! Só depois da gravação!

E voltavam resmungando para trás das câmeras, colocando suas tiaras com os fones e microfones de serviço enquanto me dirigiam olhares do tipo “Sacana, tu me paga!…”

Bueno, aí tu me pergunta: “mas como o pessoal do Galpão fazia tudo isso sem se incomodar com a direção da TV?”.

Respondo com mais um fato inusitado: o diretor técnico da TVE naqueles tempos era um militar da ativa, um major, que volta e meia aparecia fardado para dar expediente.

Tudo relativo aos aspectos técnicos acontecia sob o comando dele.

Sim, isso mesmo! A churrascada do Galpão não era nenhum ato revolucionário, e sim, um procedimento autorizado pela direção em nome da autenticidade do cenário.

Algum tempo depois, veio uma normativa interna proibindo o churrasco no estúdio.

O fogo de chão autêntico, depois de muito tempo fumegando, engraxando as lentes das câmeras de estúdio  e exalando aquele cheirinho irresistível pela emissora, acabou substituido por um “fogo cenográfico”. Uma gambiarra feita com lâmpadas amarelas e vermelhas por baixo de papel celofane do mesmo tom. Tudo providencialmente escondido no meio das pedras sob a grelha. Novas regras de enquadramento impediam a revelação no ar das ridículas porém obrigatórias labaredas falsas.

A cambona do mate continuou em uso, mas passou a ser abastecida por água aquecida na copa, durante os intervalos de gravação.

Acabou o churrasco televisivo,  e com ele as minhas idas ao açougue em dias de gravação.

NA GRAVAÇÃO, O ENTREVERO DE DUAS LENDAS DO NATIVISMO  

O Galpão Nativo foi o pioneiro dos programas musicais de cultura gaúcha.

Era dirigido pelo Edson Acri, um uruguaio radicado no RS, egresso do cinema, onde tinha atuado em filmes clássicos dos tempos do Teixeirinha e do Pára Pedro.

Artista plástico, escritor e profundo conhecedor da cultura gaúcha, Acri era personalidade muito respeitada no meio. Artistas renomados não hesitavam ao aceitar convite dele para participar do Galpão Nativo.  A esposa Tânia coordenava a produção.

O lendário Glênio Fagundes

O Galpão era apresentado pelo lendário Glênio Fagundes, figura que era a própria imagem do gaúcho campeiro. Dono de uma vasta cultura nativa, conduzia o programa com maestria, derramando conhecimento com a voz macia e cativante sem exaltar erudição. E de quebra ainda entoava seus poemas em milongas com o violão centenário que ele cuidava como jóia rara que era.

Como se não bastasse Acri ter um personagem como este na apresentação do seu programa,  ainda conseguiu a façanha de trazer para o Galpão Nativo um segundo apresentador para fazer uma inédita dupla com Glênio: ninguém menos que o poeta Jayme Caetano Braun, na época uma verdadeira divindade no meio nativista.

Os primeiros programas foram antológicos. Glênio e Jayme, afinados, brindaram os telespectadores  com edições memoráveis. Ao final de cada programa, com apoio do Glênio ao violão, Jayme recitava uma de suas poderosas payadas, gênero de poesia campeira declamada no qual ele era o expoente máximo.

O insuperável payador Jayme Caetano Braun

– Mas o que seria de um autêntico galpão de estância sem um bom entrevero?

No quarto programa, a dupla de apresentadores conversava com um compositor convidado sobre o Bugio, gênero de música gaúcha nativa.

Ainda no primeiro dos quatro blocos de gravação, Glênio e Jayme começaram a discutir sobre os compassos do Bugio. Cada um sustentava firmemente idéias divergentes sobre o ritmo.

A temperatura foi subindo e o convidado, percebendo que a conversa estava quase virando briga de facão, se encolheu e deixou os dois apresentadores peleando e brandindo seus argumentos acalorados no meio da gravação.

Eis que Jayme se levanta num gesto brusco. Estufa o peito, joga a mala de garupa sobre os ombros (é um tipo de bolsa de pano, como se fossem dois sacos emendados, que largados sobre o ombro, ficam uma metade à frente e a outra metade nas costas) e dá uma bufada de escancarada  irritação.

Glênio, impassível com a cuia na mão, apenas observa o gesto do companheiro de programa, sem esboçar espanto. O convidado está atônito e mudo no meio dos dois, sentado no seu cepo de madeira.

A tensão invade a sala de corte, de onde Acri dirige o programa através das telas que mostram o que se passa na gravação. No estúdio, os câmeras se entreolham, assustados.

Eu, agachado entre as câmeras, olhos arregalados, observava tudo sem saber o que fazer.

Jayme, do alto do seu 1 metro e oitenta e picos, bigodão grosso, olhar altivo e desafiador, brada mirando Glênio e depois as câmeras:

– Pois bueno, dois tatu macho na mesma toca acabam se arranhando. Dá licença, mas eu vou me embora daqui e não volto mais!

E se foi estúdio afora, passos largos e decididos, sem falar com mais ninguém.

Foi o quarto e último programa da grande dupla que Edison Acri tanto se esforçara para formar.

Apesar disso, o Galpão Nativo seguiu firme. Nos últimos tempos, Glênio, cansado pela idade avançada, ganhou o apoio na apresentação da cantora e locutora Maria Luiza Benitez, uma das mais belas vozes femininas do nativismo e do rádio gaúcho.

Algum tempo depois o programa ganhou novas versões com outros apresentadores, até ser retirado da programação, como efeito do processo de encolhimento da TVE diante das incertezas sobre o futuro da emissora.

Jayme Caetano Braun faleceu em 1999, Acri em 2016. Glênio vive com a família.

O Galpão Nativo esteve no ar por mais de trinta anos, forjando uma trajetória que marcou a história da televisão gaúcha e determinou os caminhos para todos os demais programas  voltados para a valorização da cultura gaúcha.

Para mim, foi uma experiência tão valiosa quanto inesquecível!